Depois de construir uma lancha de controle remoto com aproximadamente 1 metro de comprimento, chega um momento particularmente esperado:
colocar o barco na água pela primeira vez.
Até então, praticamente tudo havia sido testado separadamente.
O motor funcionava.
O rádio respondia.
O leme se movimentava.
A eletrônica estava instalada.
O casco havia recebido acabamento.
Mas existe uma diferença enorme entre verificar tudo isso na bancada e descobrir se o conjunto realmente:
navega.
Foi justamente essa primeira experiência que registrei neste projeto. E o resultado foi muito bom: durante toda uma tarde de navegação, não entrou água no casco. O principal ponto que identifiquei para melhorar foi o ajuste do leme.
Uma lancha construída em madeira balsa
Esse não era um barco comprado pronto.
A lancha havia sido construída por mim utilizando madeira balsa, a partir de uma planta. O casco recebeu várias camadas de seladora antes do acabamento.
E isso torna a primeira navegação ainda mais interessante.
Quando compramos um casco industrializado, normalmente partimos do princípio de que ele:
flutua;
possui geometria adequada;
não deixa entrar água.
Quando construímos o próprio casco, essas características também passam a fazer parte do nosso teste.
O barco possui aproximadamente 1 metro
Estamos falando de uma lancha com cerca de:
1 metro de comprimento.
Portanto, não é exatamente um pequeno brinquedo de piscina.
O tamanho traz algumas vantagens.
Existe bastante espaço interno para:
motor;
bateria;
receptor;
servo;
controle eletrônico;
fiação.
Mas também significa que o conjunto possui massa e inércia consideráveis e precisa ser controlado adequadamente.
A primeira preocupação: será que vai flutuar direito?
Pode parecer engraçado depois que o barco está pronto.
Mas quem constrói o próprio casco conhece essa sensação.
Você coloca meses de trabalho sobre a água e, durante os primeiros segundos, observa atentamente:
como ele assenta?
está inclinado?
a proa ficou muito baixa?
a popa afundou demais?
está entrando água?
É o momento em que várias decisões tomadas durante a construção são colocadas à prova ao mesmo tempo.
Flutuar não é suficiente
Um barco pode perfeitamente flutuar e ainda assim apresentar um comportamento ruim.
Precisamos observar:
estabilidade;
distribuição de peso;
direção;
propulsão;
estanqueidade.
Por isso a primeira navegação deve ser encarada como um:
teste do sistema completo.
E o teste de estanqueidade foi excelente
Esse talvez tenha sido o melhor resultado daquela tarde.
Depois das navegações, constatei que:
não havia entrado água nenhuma.
Para uma lancha artesanal construída em madeira balsa, é um resultado particularmente importante.
A impermeabilização havia cumprido sua função.
Por que usei várias camadas de seladora?
A madeira balsa é muito interessante para modelismo porque é:
leve;
fácil de cortar;
fácil de lixar;
fácil de trabalhar.
Mas existe uma característica óbvia quando queremos transformá-la em um barco:
madeira e água exigem proteção.
No meu projeto, o casco recebeu várias camadas de seladora.
O objetivo era preparar e proteger adequadamente a madeira como parte do processo de acabamento do casco.
Um casco de madeira precisa ser bem protegido
Se a água penetrar continuamente na madeira, podemos ter problemas como:
absorção de umidade;
alteração dimensional;
degradação do acabamento;
aumento de peso.
Além disso, existe um problema ainda mais imediato:
eletrônica e água não combinam.
Por isso a ausência de água dentro do barco durante a primeira tarde de navegação foi uma ótima confirmação do trabalho realizado no casco.
Onde a água costuma encontrar caminho?
Em um nautimodelo, não devemos observar apenas as junções entre as peças do casco.
Existem regiões especialmente importantes:
passagem do eixo;
leme;
tampa superior;
furos e fixações;
uniões da estrutura.
Uma pequena infiltração pode parecer irrelevante nos primeiros minutos e se tornar significativa durante uma navegação mais longa.
Por isso, depois dos primeiros testes, vale sempre abrir o barco e verificar o interior.
O segundo grande teste era a propulsão
Depois de confirmar que a lancha flutuava adequadamente, vinha a pergunta mais divertida:
ela anda?
Motor funcionando fora da água é uma coisa.
Motor tentando movimentar uma hélice carregada pela água é outra completamente diferente.
Na água aparece uma carga mecânica real sobre o sistema.
A hélice muda o esforço exigido do motor
Quando o motor está funcionando praticamente sem carga, a corrente consumida pode ser relativamente pequena.
Quando conectamos:
eixo + hélice
e colocamos a hélice na água, o motor precisa produzir torque para movimentá-la.
Isso aumenta a exigência sobre:
motor;
bateria;
fiação;
controlador eletrônico.
É por isso que o teste real na água revela coisas que um teste sobre a bancada pode não mostrar.
O sistema inteiro passa a trabalhar de verdade
Durante a navegação temos:
bateria → fornece energia
controlador → regula o motor
motor → produz rotação
eixo → transmite a rotação
hélice → movimenta a água
casco → reage e se desloca.
Se qualquer parte estiver inadequadamente dimensionada, o comportamento poderá aparecer durante a navegação.
Observe a temperatura depois dos primeiros testes
Depois de uma navegação curta, uma boa prática é desligar o sistema e verificar se existe aquecimento anormal.
Observe principalmente:
motor;
ESC/controlador;
bateria;
conectores.
Um componente ficando excessivamente quente pode indicar:
sobrecarga;
hélice inadequada;
atrito mecânico;
corrente elevada;
problema de dimensionamento.
Os primeiros testes devem ser progressivos.
O leme precisava de ajustes
Esse foi justamente o ponto que identifiquei na primeira navegação.
A lancha estava funcionando muito bem, mas o leme ainda precisava de alguns ajustes.
E isso é completamente normal em um projeto artesanal.
A primeira navegação não serve apenas para comemorar que o barco funciona.
Serve para descobrir:
o que precisa ser refinado.
O que o leme faz?
O leme controla a direção da embarcação.
De maneira simplificada:
rádio
↓
receptor
↓
servo
↓
linkagem
↓
leme.
Quando movimentamos o comando de direção, o servo altera a posição do leme.
O fluxo de água sobre essa superfície produz a mudança de direção do barco.

Pequenos ajustes podem mudar bastante o comportamento
Se o leme não estiver corretamente centralizado, a lancha pode tender continuamente para:
esquerda
ou
direita.
Também precisamos observar:
curso do servo;
geometria da linkagem;
ângulo máximo do leme;
folgas mecânicas.
Nem sempre um problema de direção exige trocar componentes.
Às vezes é simplesmente uma questão de:
regulagem.
Mais ângulo de leme não significa necessariamente melhor direção
Pode parecer lógico pensar:
“se quero virar mais, basta aumentar muito o ângulo do leme.”
Mas exagerar também pode produzir comportamento indesejado.
Um ângulo muito grande aumenta o arrasto e pode tornar a resposta abrupta.
O objetivo é encontrar um ajuste que ofereça:
boa autoridade de direção
sem tornar o barco difícil de controlar.
O rádio também pode ajudar no ajuste
Dependendo do sistema RC utilizado, podemos ajustar parâmetros como:
trim;
end points;
dual rate.
O trim ajuda a corrigir pequenas tendências.
Os limites de curso podem impedir que o servo force mecanicamente a linkagem.
E a redução de comando pode tornar a direção menos agressiva.
Naturalmente, isso depende dos recursos disponíveis no rádio utilizado.
Mas corrija primeiro a mecânica
Existe uma regra prática que considero importante.
Não utilize a programação do rádio para esconder um problema mecânico grande.
Se o leme está claramente desalinhado, primeiro:
centralize mecanicamente.
Depois utilize o trim para pequenas correções.
Assim preservamos o máximo possível do curso útil do servo para ambos os lados.
Distribuição de peso também influencia a navegação
Outra coisa que merece observação nos primeiros testes é a posição dos componentes internos.
Dentro de uma lancha grande podemos movimentar:
bateria;
receptor;
eletrônica
para alterar a distribuição de massa.
Uma embarcação muito pesada na popa pode se comportar de maneira diferente de uma com peso excessivo na proa.
A bateria é excelente para pequenos ajustes de equilíbrio
Normalmente ela está entre os componentes mais pesados do sistema.
Por isso, alguns centímetros de deslocamento podem alterar perceptivelmente o centro de gravidade do conjunto.
Isso não significa movimentar a bateria aleatoriamente.
A ideia é observar o comportamento e realizar alterações controladas.
Depois:
testar novamente.
Faça uma alteração por vez
Esse princípio vale para praticamente qualquer projeto experimental.
Se você alterar simultaneamente:
posição da bateria;
hélice;
curso do leme;
trim;
potência,
e o comportamento melhorar, não saberá qual alteração produziu o resultado.
Muito melhor:
alterar → testar → observar → registrar.
Depois passar para o próximo parâmetro.
A piscina foi um excelente lugar para o primeiro teste
O vídeo dessa primeira navegação foi gravado na piscina do Colégio Militar do Rio de Janeiro.
Para uma primeira navegação, um ambiente controlado possui uma enorme vantagem:
o barco permanece relativamente perto.
Se ocorrer algum problema, recuperar o modelo é muito mais simples do que em um grande lago.
Isso é especialmente importante no primeiro teste
Imagine descobrir no meio de um lago que:
o motor parou;
o receptor perdeu alimentação;
o servo travou;
o acoplamento soltou;
a bateria desconectou.
A lancha pode ficar parada muito longe da margem.
Por isso, para a estreia de um modelo artesanal, faz sentido começar em condições nas quais seja fácil recuperar a embarcação.
Nunca faça o primeiro teste pensando apenas em velocidade
A tentação é enorme.
Colocamos o barco na água e queremos imediatamente:
acelerador no máximo.
Mas o primeiro objetivo deveria ser confirmar:
flutuação;
direção;
propulsão;
rádio;
estanqueidade.
Depois que sabemos que tudo funciona, começamos a explorar o desempenho.
Uma sequência mais segura para a primeira navegação
Eu faria algo próximo disso:
1. Coloque a lancha na água sem acelerar.
Observe como ela flutua.
2. Teste o leme.
Confirme esquerda e direita.
3. Aplique pouca potência.
Observe se o barco se desloca normalmente.
4. Faça pequenas curvas.
Avalie a direção.
5. Aumente progressivamente a potência.
Observe estabilidade e comportamento.
6. Retire o barco da água.
Abra e verifique se entrou água.
7. Confira temperatura e conexões.
Só depois continue os testes.
O alcance do rádio também merece atenção
Não espere descobrir o limite do sistema quando o barco já estiver longe.
Antes da navegação, faça os testes apropriados recomendados para seu equipamento de rádio.
Durante a operação, mantenha o modelo dentro de uma distância em que:
você consiga enxergá-lo;
controlá-lo;
recuperá-lo se necessário.
Em uma lancha artesanal, confiabilidade vale muito mais do que descobrir alguns metros extras de alcance.
A posição da antena também importa
Dependendo do sistema utilizado, a instalação da antena pode influenciar a recepção.
Evite simplesmente enrolar tudo junto com:
fios de motor;
cabos de potência;
eletrônica de controle.
Siga as recomendações do fabricante do receptor e mantenha uma instalação organizada.
Organização interna evita problemas inesperados
Dentro de um casco temos partes que se movimentam.
Principalmente:
eixo;
acoplamento;
servo;
linkagem do leme.
Nenhum fio deve conseguir alcançar essas regiões durante a navegação.
Uma embarcação vibrando e mudando de direção pode movimentar cabos que pareciam perfeitamente parados sobre a bancada.
Prenda tudo adequadamente.
A bateria também não pode ficar solta
Uma bateria grande se movimentando dentro de uma lancha de um metro pode causar vários problemas.
Além de alterar o equilíbrio durante as curvas, pode:
puxar fios;
desconectar plugs;
atingir componentes.
Portanto, precisa estar bem fixada e, ao mesmo tempo, acessível para remoção e recarga.
Depois de navegar, abra o barco
Mesmo que aparentemente tudo tenha funcionado perfeitamente.
Faça uma inspeção.
Procure:
gotas de água;
umidade;
parafusos frouxos;
fios deslocados;
componentes aquecidos;
alterações no eixo ou acoplamento.
A manutenção começa imediatamente depois do teste.
Água no casco nem sempre significa que ele está mal construído
Se aparecer um pouco de água, precisamos investigar antes de concluir que existe um vazamento estrutural.
Ela pode ter entrado por:
tampa;
eixo;
leme;
respingos durante a abertura;
alguma passagem mecânica.
Descobrir a origem é muito mais útil do que simplesmente secar e continuar navegando.
No meu caso, felizmente, o resultado da primeira tarde foi excelente:
não entrou água nenhuma.
E isso validou uma parte importante da construção
Lembre que estamos falando de um casco artesanal construído em madeira balsa e protegido com várias camadas de seladora.
Até colocá-lo realmente na água, a impermeabilização ainda era apenas:
uma expectativa.
Depois de várias navegações durante a tarde sem entrada de água, passou a ser:
um resultado observado.
Essa é uma diferença importante em qualquer projeto.
Bancada e mundo real são coisas diferentes
Na bancada podemos verificar:
“o motor gira.”
Na água descobrimos:
“o motor consegue movimentar o barco.”
Na bancada:
“o servo movimenta o leme.”
Na água:
“o leme consegue fazer a lancha virar adequadamente.”
Na bancada:
“o casco parece vedado.”
Depois de uma tarde:
“o casco permaneceu seco.”
É o teste real que transforma montagem em validação.
E alguns problemas só aparecem usando o modelo
Foi exatamente o caso do leme.
Ele funcionava.
Mas navegando percebi que:
precisava de ajustes.
Isso não significa que o projeto tenha dado errado.
Muito pelo contrário.
É assim que um protótipo evolui:
construir → testar → identificar → ajustar → testar novamente.
A primeira navegação é quase uma recompensa pela construção
Existe também uma parte que não aparece nos cálculos.
Construir uma lancha como essa envolve:
imprimir a planta;
recortar moldes;
cortar madeira;
colar;
lixar;
selar;
pintar;
instalar motor;
montar direção;
instalar eletrônica;
testar tudo.
Depois de todo esse trabalho, finalmente vemos o barco:
se afastando da borda por seus próprios meios.
É uma sensação completamente diferente de simplesmente retirar um modelo pronto da caixa.
Veja a primeira navegação
Registrei essa estreia em vídeo.
A filmagem foi feita na piscina do Colégio Militar do Rio de Janeiro, mostrando a lancha navegando pela primeira vez.
Para quem acompanha os outros artigos sobre essa lancha, esse vídeo representa justamente o momento em que todas aquelas peças finalmente passaram a trabalhar juntas.
Da madeira balsa para a água
A história completa pode ser resumida assim:
planta
→ madeira balsa
→ estrutura
→ casco
→ seladora
→ acabamento
→ motor e eixo
→ eletrônica RC
→ leme
→ testes
→ água
→ primeira navegação.
E o resultado daquela tarde foi bastante positivo: a lancha navegou, permaneceu completamente seca internamente e mostrou apenas a necessidade de alguns ajustes no leme.
Quer entender a eletrônica por trás de uma lancha RC?
Uma lancha como essa é também uma excelente maneira de aprender eletrônica aplicada ao modelismo.
Quando movimentamos o rádio e vemos o barco responder, existe uma cadeia inteira trabalhando:
rádio → receptor → servo → leme
e:
bateria → controlador → motor → eixo → hélice.
Porque construir o barco é muito interessante.
Mas colocar na água uma lancha de 1 metro construída por você e vê-la navegar é o momento em que todo o projeto finalmente ganha vida.