Como entelar a asa de um aeromodelo utilizando papel de seda

Hoje existem diversos materiais modernos para fazer a entelagem de aeromodelos, mas durante muitos anos uma das principais técnicas utilizadas era muito mais simples:

papel.

Sim, é perfeitamente possível entelar a asa de um aeromodelo utilizando papel de seda e conseguir um excelente resultado.

Essa técnica é especialmente interessante para quem gosta de construção tradicional, aeromodelos de balsa e soluções simples que podem ser feitas com materiais fáceis de encontrar.

No meu caso, utilizei inclusive aquele papel de seda fino usado normalmente para fazer pipas.

O que significa entelar uma asa?

Em muitos aeromodelos construídos em balsa, a asa não é uma peça completamente maciça.

Ela possui uma estrutura formada por elementos como:

longarinas;

nervuras;

bordo de ataque;

bordo de fuga.

Quando terminamos a construção, temos praticamente um esqueleto da asa.

Precisamos então cobrir essa estrutura com algum material.

Esse processo é conhecido como entelagem.

A entelagem não serve apenas para deixar a asa bonita

A cobertura passa a formar a superfície externa da asa.

Portanto, além do acabamento visual, ela participa diretamente daquilo que o ar encontra quando passa pelo aeromodelo.

Uma boa entelagem deve ficar:

uniforme;

bem aderida à estrutura;

sem grandes rugas;

adequadamente tensionada.

Por isso existe uma etapa muito interessante depois que colocamos o papel: fazemos com que ele fique esticado sobre a estrutura.

Antigamente o papel era uma solução muito utilizada

Antes da popularização dos filmes plásticos termo retráteis, a entelagem com papel era uma técnica tradicional no aeromodelismo.

Com o passar dos anos surgiram novos materiais.

Um dos mais conhecidos é o filme plástico termo retrátil, frequentemente chamado de Monokote.

Esse tipo de material mudou bastante a maneira de entelar aeromodelos.

Mas isso não significa que o papel tenha deixado de funcionar.

Papel de seda ainda pode produzir um ótimo resultado

A técnica continua perfeitamente utilizável.

Existem inclusive papéis específicos para entelagem disponíveis no mercado, geralmente um pouco mais grossos e desenvolvidos para essa finalidade.

Mas também podemos utilizar uma alternativa extremamente simples:

papel de seda fino.

Foi justamente o material que utilizei na asa mostrada no vídeo.

É aquele papel bastante conhecido por quem constrói pipas.

A grande vantagem é a simplicidade

Para fazer uma experiência básica com essa técnica não precisamos começar comprando equipamentos sofisticados.

O processo utiliza essencialmente:

papel de seda;

cola branca;

água;

pincel;

borrifador.

E, naturalmente, precisamos da estrutura da asa preparada para receber o papel.

Prepare bem a estrutura antes de começar

A qualidade da entelagem depende muito da superfície sobre a qual o papel será aplicado.

Antes de começar, observe a estrutura.

Procure:

rebarbas;

pontas;

irregularidades;

excesso de cola;

regiões ásperas.

O papel é fino.

Qualquer imperfeição pode aparecer depois da aplicação.

Uma boa lixada faz diferença

Se a asa for construída em balsa, faça o acabamento da estrutura antes da entelagem.

A superfície precisa estar suave.

Dê atenção principalmente às regiões nas quais o papel ficará apoiado ou colado.

Não é necessário destruir a estrutura tentando obter uma superfície perfeita.

O objetivo é retirar irregularidades que possam prejudicar o acabamento.

Retire o pó depois de lixar

Esse é um detalhe simples, mas importante.

Depois do lixamento teremos pó de madeira sobre a estrutura.

Se aplicarmos cola diretamente sobre essa superfície, parte dela estará aderindo ao pó em vez de à madeira.

Portanto, faça uma boa limpeza antes de começar a entelagem.

A cola branca deve ser diluída em água

Na técnica que utilizei, o papel é aplicado com auxílio de cola branca diluída em água.

Utilizamos um pincel para aplicar essa mistura nas regiões necessárias e depois colocamos o papel previamente cortado.

A diluição facilita a aplicação e permite trabalhar com uma camada menos espessa de adesivo.

Não precisamos encharcar a estrutura de cola

Mais cola não significa necessariamente uma entelagem melhor.

Estamos trabalhando com um aeromodelo.

Peso é importante.

Além disso, excesso de cola pode dificultar o acabamento.

O objetivo é utilizar quantidade suficiente para fixar adequadamente o papel à estrutura.

Corte o papel antes de colar

Não tente trabalhar com uma enorme folha sobre toda a asa sem planejamento.

Prepare os pedaços de acordo com as regiões que serão cobertas.

Deixe alguma margem para poder posicionar e fazer os acabamentos.

Isso torna o processo muito mais controlável.

Observe o sentido e a posição do papel

Antes de passar cola, coloque o pedaço sobre a região.

Veja se ele cobre tudo.

Observe se existe margem suficiente.

Imagine onde serão feitas as sobreposições.

Somente depois comece a colar.

Esse pequeno teste evita descobrir no meio da aplicação que o pedaço ficou curto.

Trabalhe por partes

O papel de seda é fino e delicado.

Por isso, é muito mais fácil controlar a aplicação quando trabalhamos progressivamente.

Aplique a cola.

Posicione o papel.

Faça o assentamento.

Passe para a região seguinte.

Tenha paciência.

A entelagem tradicional é um trabalho artesanal.

Não tente deixar o papel extremamente tensionado durante a colagem

Esse ponto é importante para entender a técnica.

O papel ainda passará por uma etapa posterior de tensionamento.

Portanto, durante a aplicação precisamos principalmente:

posicioná-lo corretamente;

evitar grandes rugas;

garantir boa aderência à estrutura.

Depois utilizaremos água para produzir o tensionamento final.

O segredo vem depois: borrifar água

Depois que toda a asa estiver entelada, chega uma das partes mais interessantes do processo.

Borrifamos água sobre o papel.

A água atua sobre suas fibras.

Durante a secagem, o papel sofre contração.

O resultado é que ele fica tensionado sobre a estrutura da asa.

É justamente esse processo que transforma aquele papel aparentemente frouxo em uma superfície muito mais lisa.

O papel não “estica” exatamente: ele contrai

Essa é uma distinção interessante.

Costumamos dizer que estamos fazendo o papel “esticar”.

Mas fisicamente podemos explicar melhor dizendo que a umidade provoca alterações nas fibras e, durante a secagem, ocorre a contração do papel, deixando-o tensionado sobre a estrutura.

Essa questão apareceu inclusive nos comentários do artigo original: o resultado final é o papel esticado, mas o processo ocorre pela contração das fibras.

A transformação durante a secagem é impressionante

Logo depois de borrifar a água, não julgue o resultado final.

O papel ainda estará úmido.

Precisamos esperar.

À medida que seca, ele começa a ficar tensionado.

No processo que mostrei, esse tensionamento levou mais de uma hora após a aplicação da água.

Portanto:

não tenha pressa.

Deixe secar à sombra

Uma dúvida que apareceu posteriormente no próprio artigo foi justamente se a asa deveria ser colocada ao sol para acelerar a secagem.

Minha recomendação foi:

deixe secar à sombra.

Não precisamos tentar acelerar o processo colocando a estrutura diretamente sob forte calor.

Deixe a secagem acontecer gradualmente.

E se ainda ficarem algumas rugas?

Isso pode acontecer.

Principalmente próximo de regiões com curvaturas, como o bordo de ataque, pode permanecer alguma pequena irregularidade.

Nesse caso, é possível tentar aplicar água novamente e deixar o papel secar outra vez.

Essa também foi uma orientação que dei a um leitor que realizou a técnica e encontrou uma pequena região ainda enrugada.

Faça isso com cuidado e observe o comportamento da estrutura.

Existe um detalhe importante: a asa também recebe esforços

Quando o papel contrai, ele produz tensão sobre a estrutura.

Isso significa que uma asa extremamente leve e delicada pode sofrer deformações se o processo for realizado de maneira desigual.

Imagine um lado sendo tensionado enquanto o outro não recebe uma força equivalente.

Podemos acabar induzindo uma torção.

Por isso é importante trabalhar de maneira equilibrada e observar constantemente a geometria da asa.

Verifique o alinhamento durante a secagem

Coloque a asa sobre uma superfície adequada.

Observe:

bordo de ataque;

bordo de fuga;

pontas;

alinhamento geral.

Certifique-se de que a estrutura não esteja adquirindo uma torção indesejada enquanto o papel seca.

Esse cuidado é particularmente importante em estruturas muito leves.

O que é o dope?

Depois da entelagem tradicional com papel, existe ainda um produto muito conhecido no aeromodelismo clássico:

dope.

Ele pode ser aplicado posteriormente sobre a entelagem.

No próprio artigo, quando perguntado sobre essa etapa, confirmei que o dope pode ser utilizado e que ajuda a deixar o papel mais resistente.

É uma etapa adicional para quem deseja avançar na técnica tradicional.

O papel de seda é frágil?

Comparado a determinados filmes plásticos modernos, o papel fino naturalmente exige mais cuidado.

Mas isso não significa que não possa ser utilizado.

Quando adequadamente aplicado e finalizado, consegue produzir uma cobertura muito interessante, especialmente em modelos leves e construções tradicionais.

A possibilidade de utilizar dope posteriormente também ajuda a aumentar sua resistência.

E o Monokote?

O filme plástico termo retrátil tornou-se extremamente popular no aeromodelismo.

A lógica é diferente.

O material é colocado sobre a estrutura e utiliza-se calor para sua aplicação e tensionamento.

Isso torna o trabalho bastante prático.

Mas existe uma questão importante:

calor e isopor exigem cuidado.

Filme termo retrátil não é indicado da mesma maneira para asas de isopor

No artigo original chamo atenção justamente para essa diferença.

Como o Monokote tradicional depende de calor para aplicação, ele não deve ser tratado como uma solução comum para uma asa de isopor, pois o calor pode danificar o material.

Para modelos de isopor existem filmes adesivados apropriados, que dispensam esse processo de termo retração sobre o material.

Papel de seda é especialmente interessante para construções tradicionais

Imagine um pequeno aeromodelo construído inteiramente em balsa.

As nervuras estão visíveis.

A asa pesa pouquíssimo.

Cobrir essa estrutura com papel mantém uma característica muito própria dos modelos clássicos.

O resultado possui uma estética diferente daquela obtida com filmes modernos.

Para quem gosta de construir, o próprio processo faz parte da experiência.

É possível utilizar papel colorido

Uma vantagem do papel de seda é a enorme variedade de cores disponível.

Isso abre possibilidades interessantes para o acabamento.

Podemos utilizar:

uma única cor;

cores diferentes na parte superior e inferior;

faixas;

detalhes.

Em modelos simples, o próprio material de entelagem pode fazer grande parte do trabalho visual.

Diferenciar a parte superior da inferior pode ser útil

Em aeromodelismo, orientação visual é importante.

Quando o avião está distante, precisamos identificar rapidamente sua posição.

Utilizar cores ou padrões diferentes na parte superior e inferior da asa pode ajudar.

Portanto, o acabamento não precisa ser pensado apenas esteticamente.

Também pode contribuir para a visualização durante o voo.

Tome cuidado ao manusear o papel

Papel de seda fino rasga facilmente.

Durante o trabalho:

não puxe bruscamente;

evite unhas pressionando a superfície;

mantenha ferramentas pontiagudas afastadas;

não apoie objetos sobre a asa.

Depois que terminamos uma grande região, é frustrante produzir um rasgo simplesmente por descuido.

Pequenos reparos fazem parte do aeromodelismo

Mesmo depois de pronto, eventualmente o papel pode ser perfurado ou rasgado.

Isso não significa necessariamente refazer toda a asa.

Dependendo da extensão do dano, podemos realizar um reparo localizado utilizando outro pequeno pedaço de papel.

Em um modelo artesanal, manutenção faz parte da vida útil da construção.

A técnica exige mais paciência do que equipamentos

Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes.

Não estamos falando de um processo que exige uma grande quantidade de ferramentas.

Precisamos principalmente de:

papel;

cola branca diluída;

pincel;

água;

tempo.

A qualidade do resultado depende muito mais do cuidado durante a aplicação do que de equipamentos sofisticados.

Como entelar a asa com papel de seda passo a passo

O procedimento básico pode ser organizado assim:

  1. Termine a construção da estrutura da asa.
  2. Faça o lixamento e o acabamento da madeira.
  3. Retire completamente o pó.
  4. Escolha o papel de seda.
  5. Corte os pedaços necessários com alguma margem.
  6. Prepare cola branca diluída em água.
  7. Utilize um pincel para aplicar a cola.
  8. Posicione cuidadosamente o papel.
  9. Faça a entelagem progressivamente em toda a asa.
  10. Aguarde a fixação adequada.
  11. Borrife água sobre o papel.
  12. Deixe a asa secar à sombra.
  13. Observe o papel contrair e ficar tensionado.
  14. Verifique se existem rugas ou deformações.
  15. Se necessário, faça pequenos ajustes e uma nova aplicação cuidadosa de água.
  16. Se desejar maior resistência, considere posteriormente a aplicação de dope apropriado.

A essência da técnica utilizada no meu aeromodelo é justamente papel de seda aplicado com cola branca diluída e posteriormente umedecido para que, ao secar, fique tensionado sobre a estrutura.

Não confunda simplicidade com resultado ruim

É fácil olhar para uma folha de papel de seda e imaginar que ela não poderia ser utilizada em um aeromodelo.

Mas durante muitos anos técnicas baseadas em papel fizeram parte da construção de modelos.

E continuam funcionando.

O material é simples.

O processo é simples.

Mas, quando executado cuidadosamente, o resultado pode ser muito bonito.

Veja no vídeo a asa entelada com papel

No vídeo da página mostro a asa que entelei utilizando justamente papel de seda fino, do tipo utilizado em pipas, e explico a técnica empregada no processo.

A ideia é mostrar que não precisamos necessariamente utilizar apenas os materiais modernos disponíveis no aeromodelismo.

Conhecer as técnicas tradicionais amplia bastante nossas possibilidades de construção.

Uma técnica antiga ainda pode ensinar muito

Entelar uma asa com papel parece inicialmente apenas uma questão de acabamento.

Mas o processo envolve vários conceitos interessantes:

estrutura;

peso;

tensão;

contração;

adesão;

resistência;

aerodinâmica;

acabamento.

E existe algo particularmente interessante em construir um aeromodelo dessa maneira.

Você começa com algumas peças de madeira formando uma estrutura quase vazia.

Depois aplica uma folha extremamente fina de papel.

Borrifa água.

Espera.

E aquela estrutura começa a adquirir a aparência de uma verdadeira asa.

Quer aprender construindo e modificando seus próprios modelos?

O aeromodelismo fica ainda mais interessante quando deixamos de apenas comprar componentes prontos e começamos a entender como cada parte do modelo é construída e por que ela funciona.

No Método 7H RC, a proposta é aprender por meio de situações práticas encontradas no aeromodelismo, automodelismo e nautimodelismo.

Construção, motores, servos, ESCs, baterias, rádio controle e eletrônica começam a fazer muito mais sentido quando aparecem dentro de projetos reais.

E uma técnica aparentemente tão simples quanto entelar uma asa utilizando papel de seda mostra muito bem esse espírito:

construir, experimentar, compreender e aprender fazendo.

4 comentários em “Como entelar a asa de um aeromodelo utilizando papel de seda”

  1. Ótimo vídeo! Fiz e ficou quase perfeito! Porém perto do bordo de ataque o papel ficou levemente enrugado ainda, posso fazer mais uma etapa deste processo até ficar 100%? E pra secagem, seca-se à sombra, ou posso colocar no sol? Outra dúvida: depois disso para maior durabilidade é necessário aplicar o dope? Alguma dica para esta etapa?

    1. Opa. Que legal. Pode tentar aplicar água novamente até esticar. Espera para secar na sombra. Pode aplicar dope. O papel fica mais resistente.

  2. Ao invés de “esticar”, o correto é encolher, pois a função de umedecer o papel é contrair as fibras, deixando o mais contraído.

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