Palheta é uma daquelas coisas que todo guitarrista acaba acumulando — e também perdendo.
Existem palhetas de diferentes formatos, espessuras e materiais. Mas existe outra possibilidade bastante interessante: fabricar suas próprias palhetas aproveitando pedaços de plástico que normalmente seriam descartados.
No vídeo deste artigo mostro uma ferramenta simples capaz de cortar palhetas em casa, permitindo transformar cartões e outros materiais plásticos em palhetas perfeitamente utilizáveis.
Além da economia, a ideia permite experimentar algo importante: como material e espessura da palheta alteram a sensação ao tocar e até o ataque produzido nas cordas.
Uma espécie de furador para palhetas
A ferramenta utilizada funciona de maneira semelhante a um grande furador de papel.
A diferença é o formato da matriz de corte.
Em vez de produzir um pequeno círculo:
PAPEL → FURADOR → ○
ela produz o formato de uma palheta:
PLÁSTICO → CORTADOR → 🎸 PALHETA
Colocamos uma folha ou cartão plástico na abertura, pressionamos a alavanca e o material é recortado.
Existem ferramentas comerciais desse tipo conhecidas como pick punch. Alguns modelos produzem o tradicional formato 351, uma das formas mais comuns de palheta para guitarra.
Podemos aproveitar materiais que seriam descartados
Essa é provavelmente a parte mais divertida da ideia.
Em vez de comprar uma folha específica de plástico, podemos procurar materiais disponíveis em casa.
Por exemplo, cartões plásticos antigos são frequentemente utilizados para fabricar palhetas com esse tipo de cortador. Um cartão padrão possui aproximadamente 0,76 mm de espessura, o que resulta em uma palheta próxima de uma espessura média bastante comum.
Isso permite transformar:
CARTÃO SEM UTILIDADE
↓
RECORTE
↓
PALHETA
↓
NOVA UTILIZAÇÃO
É uma forma muito simples de reaproveitamento.
Naturalmente, se o cartão contiver dados pessoais, números, códigos ou outras informações, convém destruir essas regiões e não utilizá-las na palheta.
Nem todo plástico será adequado
O fato de um material ser plástico não significa automaticamente que produzirá uma boa palheta.
Precisamos observar principalmente:
espessura, rigidez, flexibilidade, resistência e acabamento.
Um plástico muito fino pode ficar flexível demais.
Um plástico muito espesso talvez nem entre no cortador.
Um material quebradiço pode trincar durante o corte ou durante o uso.
E um plástico com bordas muito ásperas pode proporcionar uma sensação desagradável ao passar pelas cordas.
Por isso, parte interessante desse projeto é justamente:
experimentar.
A espessura faz bastante diferença
Quem toca guitarra provavelmente já encontrou palhetas identificadas como:
Thin, Medium, Heavy ou Extra Heavy.
Também é comum encontrar a espessura diretamente em milímetros.
A Fender, por exemplo, destaca espessura, material e formato como características fundamentais na escolha de uma palheta.
Já a D’Addario indica, como referência, palhetas médias em torno de 0,73–0,88 mm para muitos estilos de rock, blues e pop, enquanto palhetas de aproximadamente 1 mm ou mais são frequentemente escolhidas quando se deseja maior rigidez e controle.
Não existe, entretanto, uma espessura universalmente correta.
Depende muito de:
instrumento + cordas + técnica + preferência do músico.
Um cartão plástico pode resultar em uma palheta interessante
Isso explica por que cartões são materiais tão utilizados nesses cortadores.
Um cartão com aproximadamente:
0,76 mm
cai justamente numa região bastante útil para uma palheta de uso geral.
Podemos então fazer uma experiência:
CARTÃO
~0,76 mm
↓
CORTADOR
↓
PALHETA MÉDIA
Mas isso não significa que ela terá exatamente o mesmo comportamento de uma palheta comercial de 0,76 mm.
Existe outra variável:
o material.
Duas palhetas da mesma espessura podem ser diferentes
Imagine duas palhetas:
PALHETA A
0,8 mm
Nylon
PALHETA B
0,8 mm
Plástico rígido reciclado
As duas possuem aproximadamente a mesma espessura.
Mas podem apresentar:
flexibilidade diferente
atrito diferente
desgaste diferente
ataque diferente
sensação diferente na mão.
Palhetas comerciais são fabricadas em materiais como celuloide, nylon e Delrin/acetal, cada um com características próprias. A Fender cita justamente esses três entre os materiais mais comuns.
Portanto, espessura é apenas parte da história.
A palheta interfere no som?
Sim.
A palheta é o elemento que faz contato direto com a corda.
Mudanças em sua:
rigidez
material
espessura
formato
e:
ponta
podem alterar o ataque e a sensação durante a execução.
A própria Fender trata material, forma e espessura como fatores relevantes na escolha da palheta, e fabricantes oferecem combinações muito diferentes justamente porque músicos procuram respostas distintas.
Isso torna as palhetas recicladas interessantes também como uma experiência.
Podemos produzir várias e comparar.
Faça várias palhetas do mesmo material
Se temos uma área relativamente grande de plástico, não precisamos fazer apenas uma.
Podemos aproveitar o material:
┌─────────────────────────────┐
│ ◢ ◢ ◢ ◢ ◢ │
│ ◢ ◢ ◢ ◢ │
│ ◢ ◢ ◢ ◢ ◢ │
└─────────────────────────────┘
Com um pouco de planejamento no posicionamento do cortador, conseguimos aproveitar melhor a área disponível.
Um único cartão pode fornecer várias palhetas.
E como todas vêm do mesmo material, podemos deixar algumas:
na guitarra
no case
na mochila
na bancada
ou onde normalmente tocamos.
Talvez assim seja um pouco mais difícil ficar sem palheta justamente quando precisamos.
O acabamento da borda é importante
Depois do corte, vale observar atentamente a borda.
Dependendo da ferramenta e do plástico utilizado, ela pode sair:
perfeitamente lisa
ou apresentar pequenas:
rebarbas
marcas
arestas.
Nesse caso, podemos fazer um acabamento leve.
Guias de fabricação DIY recomendam justamente suavizar as bordas produzidas pelo cortador utilizando lixa fina ou lima apropriada.
Isso faz diferença porque a borda é justamente a região que:
passa pela corda.
Podemos arredondar ou chanfrar a ponta
Aqui aparece outra possibilidade interessante.
Depois de cortar a palheta, podemos modificar ligeiramente seu formato.
Com uma lixa podemos experimentar:
PONTA MAIS ARREDONDADA
╱╲
╱ ╲
PONTA MAIS DEFINIDA
/\
/ \
Também podemos suavizar as bordas.
Em palhetas mais grossas, o perfil da borda pode alterar significativamente a forma como ela desliza pela corda; palhetas comerciais mais espessas frequentemente utilizam bordas chanfradas justamente para melhorar essa passagem.
Ou seja, depois do cortador ainda podemos:
personalizar a palheta.
O formato também influencia a maneira de tocar
O formato tradicional não é o único existente.
Há palhetas:
pequenas
grandes
triangulares
arredondadas
pontiagudas
e diversos formatos intermediários.
A Fender divide as formas mais comuns em pequenas, grandes e padrão, sendo o tradicional formato 351 um dos mais conhecidos.
O cortador naturalmente limita o formato inicial à sua própria matriz.
Mas ainda podemos alterar manualmente:
ponta
cantos
e:
bordas.
Podemos criar uma pequena coleção experimental
Uma ideia interessante seria procurar diferentes plásticos recicláveis e produzir uma palheta de cada material.
Depois identificá-las:
| Palheta | Material | Espessura | Sensação |
|---|---|---|---|
| A | cartão plástico | ~0,76 mm | média |
| B | embalagem | medir | mais flexível |
| C | tampa plástica | medir | mais rígida |
| D | outro plástico | medir | comparar |
Aqui não importa encontrar imediatamente:
“a melhor palheta”.
O interessante é perceber como pequenas alterações modificam nossa experiência tocando.
Um paquímetro torna a experiência ainda melhor
Se você tiver um paquímetro, pode medir a espessura do material antes do corte.
Assim começamos a relacionar:
MATERIAL
+
ESPESSURA
↓
FLEXIBILIDADE
↓
SENSAÇÃO
↓
SOM
Podemos descobrir, por exemplo, que gostamos bastante de determinado plástico com:
0,7 mm
mas achamos outro material com a mesma espessura flexível demais.
Isso demonstra novamente que não existe apenas uma variável envolvida.
Cuidado com plásticos muito quebradiços
Eu evitaria forçar no cortador materiais:
muito espessos
muito duros
ou:
quebradiços.
Além de poder danificar a ferramenta, o material pode quebrar durante o corte.
A capacidade máxima depende do modelo do cortador. Há modelos especificados para materiais de até cerca de 1 mm, enquanto outros aceitam espessuras diferentes.
Portanto, a regra correta não é:
“qualquer plástico serve”.
É:
use materiais compatíveis com a ferramenta.
Se for necessário fazer força excessiva, provavelmente não é uma boa escolha.
Uma palheta reciclada não precisa substituir sua favorita
Talvez você já tenha uma palheta específica que utiliza há anos.
Não existe motivo para abandoná-la.
A ideia aqui pode ser simplesmente:
experimentar.
Uma palheta feita de cartão pode funcionar muito bem para tocar casualmente.
Outra pode ficar guardada como reserva.
Outra pode produzir um ataque interessante em determinado instrumento.
E talvez alguma combinação de material e espessura surpreenda.
Também é uma experiência interessante para quem gosta de instrumentos
O projeto é extremamente simples, mas permite discutir vários aspectos da interação entre músico e instrumento.
A sequência é:
MÃO
↓
PALHETA
↓
CORDA
↓
VIBRAÇÃO
↓
INSTRUMENTO
↓
SOM
A palheta está exatamente no ponto em que o músico transfere energia para a corda.
Por isso, mesmo sendo um objeto pequeno e barato, suas propriedades podem influenciar a execução.
Veja como cortar suas próprias palhetas
No vídeo abaixo mostro a ferramenta que utilizo para cortar palhetas em casa aproveitando materiais plásticos reciclados.
É uma ideia simples:
pegamos algo que seria descartado e transformamos em um acessório que realmente podemos utilizar.
E ainda podemos produzir várias palhetas praticamente em sequência.
Um projeto simples de reutilização
Nem todo projeto precisa envolver:
Arduino
transistores
circuitos integrados
fontes
ou:
ferro de soldar.
Às vezes uma ferramenta puramente mecânica já permite experimentar, criar e reaproveitar materiais.
Neste caso temos três coisas interessantes ao mesmo tempo:
faça você mesmo + música + reutilização.
A próxima vez que encontrar um pedaço de plástico com uma espessura interessante, talvez ele não precise ir diretamente para o lixo.
Pode existir ali:
uma futura palheta.