Quando começamos a montar circuitos em uma protoboard, é muito comum utilizar qualquer fio disponível para fazer as conexões.
Eletricamente, isso pode funcionar.
Mas, conforme o circuito cresce, aparece outro problema: uma grande quantidade de fios compridos cruzando a placa torna a montagem difícil de entender e, principalmente, difícil de testar quando alguma coisa não funciona.
Uma solução simples é conhecer os diferentes tipos de jumpers para protoboard e escolher o mais adequado para cada situação.
No vídeo deste artigo mostro justamente diferentes jumpers que podem ser utilizados para deixar uma montagem mais organizada, limpa e fácil de compreender.
Para que servem os jumpers?
A protoboard já possui conexões metálicas internas entre determinados grupos de furos.
Entretanto, esses grupos não estão todos conectados entre si.
Precisamos então criar as ligações necessárias utilizando:
jumpers.
De maneira simplificada:
COMPONENTE A
│
│ jumper
│
COMPONENTE B
O jumper funciona como um pequeno condutor responsável por criar uma ligação elétrica entre dois pontos do circuito.
Por isso também encontramos os termos:
jumper wire
ou:
fio jumper.
Nem todo jumper é igual
Existem diferentes maneiras de fazer essas conexões.
Para uma protoboard, podemos trabalhar principalmente com jumpers rígidos pré-cortados, fios rígidos feitos por nós mesmos e jumpers flexíveis com terminais.
Cada solução possui vantagens.
Jumpers rígidos pré-formados
Uma das opções que mais gosto quando o objetivo é produzir uma montagem organizada são aqueles pequenos fios rígidos já:
cortados, desencapados e dobrados.
Eles são vendidos em diferentes comprimentos.
Podemos ter algo parecido com:
┌────────┐
│ │
│ │
↓ ↓
jumper rígido
As duas extremidades entram diretamente na protoboard.
Como existem diversos tamanhos, podemos escolher um jumper praticamente do comprimento exato necessário para aquela ligação.
O resultado pode ficar muito mais limpo.
O jumper pode ficar rente à protoboard
Essa é uma grande vantagem dos jumpers rígidos.
Em vez de fazer:
╭────────────╮
│ │
●───────╯ ╰───────●
podemos fazer algo muito mais próximo da superfície:
●───────────────●
Isso evita aquele emaranhado de fios passando por cima dos componentes.
Para circuitos pequenos ou médios, a diferença visual pode ser enorme.
Uma montagem bonita não é apenas estética
Pode parecer apenas uma questão de aparência, mas não é.
Imagine encontrar um defeito neste circuito:
╲│╱╲╱│╲╱╲│╱╲╱│╲
──╳────╳────╳────
╱│╲╱╲│╱╲╱╲│╱╲╱
Agora imagine uma montagem em que conseguimos acompanhar visualmente cada ligação:
+V ───────────────
│ │
R1 R2
│ │
Q1───────┘
│
GND ─────────────────
No segundo caso é muito mais fácil comparar a montagem com o esquema eletrônico e procurar um erro.
Portanto:
organização também é uma ferramenta de diagnóstico.
Podemos fabricar nossos próprios jumpers
Não precisamos necessariamente comprar um kit de jumpers rígidos.
Uma alternativa excelente é utilizar:
fio rígido de cobre isolado.
Cortamos o fio no comprimento necessário, desencapamos as duas extremidades e fazemos as dobras.
A própria Adafruit recomenda fio sólido de 22 AWG para fabricação de jumpers de protoboard, justamente porque ele mantém a forma depois de dobrado e se encaixa bem nos contatos da placa.
A SparkFun também relata utilizar normalmente 22 AWG para prototipagem e breadboard, destacando que o fio sólido funciona bem nos furos.
Isso não significa que absolutamente toda protoboard exija exatamente 22 AWG, mas é uma excelente referência prática.
Por que o fio rígido funciona tão bem?
Compare:
FIO RÍGIDO
──────────────
↓
mantém a forma
FIO FLEXÍVEL
~~~~~~~~~~
↓
movimenta-se facilmente
Quando dobramos o fio rígido, ele tende a permanecer na posição.
Assim podemos fazer:
┌───────┐
│ │
● ●
com praticamente o comprimento exato da conexão.
Isso ajuda bastante a criar circuitos organizados.
E o fio flexível?
Aqui existe uma distinção importante.
Um fio flexível comum é formado por vários filamentos muito finos.
Se simplesmente desencaparmos esse fio e tentarmos inseri-lo diretamente na protoboard, podemos ter:
──────\\\\\\
Os filamentos podem abrir, dificultar a inserção e até provocar contato acidental com pontos próximos.
Por esse motivo, fio multifilar desencapado não é uma boa escolha para inserção direta na protoboard. A própria Adafruit recomenda fio sólido para jumpers feitos manualmente por essa razão.
Mas isso não significa que todos os jumpers flexíveis industrializados sejam ruins.
Muito pelo contrário.
Jumpers flexíveis industrializados
Provavelmente você já encontrou aqueles conjuntos de fios coloridos com terminais nas extremidades.
Por exemplo:
[PIN]~~~~~~~~[PIN]
O cabo pode ser flexível, mas suas extremidades possuem contatos rígidos apropriados.
Esses jumpers são extremamente úteis porque podemos conectar:
protoboards, Arduino, ESP32, sensores, módulos e placas de desenvolvimento.
Existem três combinações muito comuns.
| Tipo | Extremidade 1 | Extremidade 2 | Uso típico |
|---|---|---|---|
| Macho-macho | pino | pino | protoboard ↔ protoboard |
| Macho-fêmea | pino | soquete | protoboard ↔ módulo |
| Fêmea-fêmea | soquete | soquete | módulo ↔ módulo |
São complementares aos jumpers rígidos.
Jumper macho-macho
O macho-macho possui um pino nas duas extremidades:
→──────────────→
M M
É provavelmente o tipo mais utilizado com protoboards.
Uma ponta entra em um ponto e a outra pode entrar em outro ponto da protoboard.
Também podemos utilizá-lo entre:
protoboard e determinados conectores fêmea de uma placa.
Jumper macho-fêmea
Temos:
→──────────────□
M F
Esse tipo é muito útil quando um dispositivo possui:
pinos macho.
Imagine um pequeno módulo sensor com:
VCC GND OUT
| | |
Podemos encaixar as extremidades fêmea diretamente nesses pinos e colocar as extremidades macho na protoboard.
Isso evita adaptações improvisadas.
Jumper fêmea-fêmea
Neste caso:
□──────────────□
F F
As duas extremidades recebem pinos macho.
Ele é útil principalmente para interligar módulos e placas que já possuem headers macho.
Portanto, não existe um tipo de jumper que seja:
“o melhor para tudo”.
A escolha depende da conexão que precisamos realizar.
Quando prefiro jumper rígido e quando prefiro flexível?
Uma estratégia muito interessante é combinar os dois.
Dentro da própria protoboard:
jumpers rígidos e curtos.
Para conectar dispositivos externos:
jumpers flexíveis.
Por exemplo:
SENSOR
│
│ jumper flexível
│
┌──── PROTOBOARD ────────┐
│ │
│ ──┐ ┌────┐ ┌── │
│ │ │ CI │ │ │
│ ──┘ └────┘ └── │
│ │
└────────────────────────┘
jumpers rígidos
Dessa maneira, a parte central do circuito permanece organizada, mas continuamos tendo flexibilidade para conectar equipamentos externos.
As cores também ajudam a entender o circuito
Outro recurso extremamente simples é criar um padrão de cores.
Por exemplo:
VERMELHO → alimentação positiva
PRETO → GND
OUTRAS CORES → sinais
Não existe obrigação de seguir exatamente essas cores em todos os projetos.
O mais importante é:
estabelecer um padrão e mantê-lo.
Se utilizarmos vermelho como positivo em uma parte do circuito e depois vermelho como terra em outra, perdemos justamente a vantagem da organização.
As cores podem identificar sinais diferentes
Em circuitos maiores podemos ir além.
Imagine uma montagem com microcontrolador:
VERMELHO → VCC
PRETO → GND
AMARELO → sinais digitais
AZUL → sinais analógicos
VERDE → comunicação
Esse é apenas um exemplo de convenção.
A vantagem é que, depois de algum tempo longe do projeto, conseguimos olhar para a protoboard e recuperar rapidamente parte da lógica da montagem.
Cuidado com os barramentos da protoboard
Existe outro detalhe que pode provocar bastante confusão.
Em muitas protoboards encontramos barramentos laterais de alimentação:
+ ─────────────────────
- ─────────────────────
Mas nem sempre esses barramentos são contínuos por toda a extensão da placa.
Algumas protoboards possuem uma interrupção no meio.
Nesse caso podemos ter:
+ ──────── ──────── +
- ──────── ──────── -
↑
interrupção
Se precisarmos de continuidade, utilizamos justamente um jumper:
+ ────────┬──┬──────── +
└──┘
jumper
Guias de breadboard também alertam que conjuntos de barramentos podem não estar internamente conectados, sendo necessário interligá-los quando queremos a mesma alimentação nos dois lados.
Por isso é sempre uma boa ideia verificar sua protoboard com:
um multímetro na função de continuidade.
Um jumper ruim pode criar um defeito difícil de encontrar
Isso acontece bastante.
O circuito funciona.
Depois para.
Você movimenta alguma coisa.
Ele volta a funcionar.
O problema pode estar simplesmente em:
jumper mal encaixado
ou:
fio rompido internamente.
Jumpers flexíveis muito utilizados podem sofrer desgaste próximo aos terminais.
Se existir dúvida, uma das verificações mais rápidas é:
retirar o jumper e medir continuidade de ponta a ponta.
Às vezes passamos muito tempo procurando um defeito eletrônico que, na realidade, é apenas uma conexão mecânica ruim.
Não force fios muito grossos
Outro erro é tentar inserir qualquer fio disponível nos contatos da protoboard.
Internamente existem pequenos contatos metálicos elásticos.
Eles precisam pressionar o terminal inserido.
Um condutor inadequadamente grosso pode deformar esses contatos e prejudicar posteriormente o contato com terminais mais finos. Guias de prototipagem recomendam escolher uma bitola apropriada justamente para evitar danos aos contatos.
É mais um motivo para utilizar fios adequados em vez de qualquer pedaço encontrado na bancada.
Montagens provisórias também merecem organização
Às vezes pensamos:
“É só um teste. Depois eu arrumo.”
Mas justamente durante o teste é quando precisamos descobrir:
por que alguma coisa não está funcionando.
Uma protoboard organizada facilita:
montagem → teste → diagnóstico → alteração → documentação.
Quando fazemos uma modificação, conseguimos saber com muito mais segurança qual fio estamos retirando.
Também facilita transformar o protótipo em circuito definitivo
Depois que o circuito funciona, podemos querer transferi-lo para:
placa perfurada
ou:
PCB.
Uma protoboard organizada ajuda a compreender como as diferentes partes do circuito foram interligadas.
É uma etapa intermediária interessante:
ESQUEMA
↓
PROTOBOARD ORGANIZADA
↓
TESTES
↓
CORREÇÕES
↓
PLACA DEFINITIVA
A protoboard não precisa ser uma “teia de fios”.
Ela pode funcionar como uma representação física bastante compreensível do circuito.
Veja os diferentes jumpers no vídeo
No vídeo abaixo mostro uma variedade de jumpers para utilização em protoboard e como a escolha dos fios pode deixar a montagem mais limpa e fácil de entender.
Uma pequena mudança na forma de montar pode fazer uma diferença enorme, principalmente quando começamos a trabalhar com circuitos maiores.
Organização também faz parte da eletrônica
Aprender eletrônica não significa apenas conhecer:
resistores, capacitores, transistores e circuitos integrados.
Também significa desenvolver boas práticas de montagem.
Um circuito pode estar eletricamente correto e, mesmo assim, ser extremamente difícil de compreender.
Por isso, escolher o jumper adequado, utilizar comprimentos coerentes e criar uma convenção de cores não são apenas detalhes estéticos.
São formas de tornar o circuito:
mais fácil de montar, entender, testar e modificar.
E essa é uma habilidade que se torna cada vez mais importante conforme os projetos ficam mais complexos.