Como Filmar com um Aeromodelo: Dicas para Conseguir Melhores Imagens Aéreas

Hoje estamos acostumados a ver imagens aéreas produzidas por drones com estabilização eletrônica, GPS e câmeras capazes de manter o horizonte praticamente parado.

Mas existe outra forma muito interessante de fazer imagens aéreas:

instalar uma pequena câmera em um aeromodelo.

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Essa ideia é muito anterior à popularização dos drones. Há registros de aeromodelistas utilizando câmeras em modelos rádio controlados há décadas; o museu da Academy of Model Aeronautics, por exemplo, documenta aeromodelos construídos especificamente para fotografia aérea já no final dos anos 1970.

No vídeo deste artigo mostro algumas dicas que utilizava para filmar a partir de um aeromodelo e conseguir imagens melhores.

E existe uma diferença importante: fazer o avião voar é uma coisa. Fazer o avião voar de uma maneira que produza boas imagens é outra.

Voar para filmar é diferente de simplesmente voar

Quando estamos pilotando por diversão, podemos querer:

subidas rápidas, curvas fechadas, rasantes e manobras.

Para a câmera, entretanto, esses movimentos podem produzir uma imagem difícil de assistir.

Imagine uma curva brusca:

HORIZONTE NORMAL

────────────────────────


DURANTE A CURVA

          ╱
        ╱
      ╱
    ╱

Como o aeromodelo inclina para fazer a curva, a câmera instalada rigidamente nele também inclina.

Consequentemente:

o horizonte gira junto com o avião.

Por isso, se o objetivo é conseguir imagens agradáveis, a própria pilotagem precisa mudar.

Faça movimentos mais suaves

Uma das primeiras dicas é evitar comandos excessivamente bruscos.

Para filmagem, normalmente é melhor procurar:

curvas amplas, mudanças graduais de altitude e trajetórias mais previsíveis.

Em vez de:

───────┐
       │
       └──────

procure algo mais próximo de:

──────────────╮
               ╰────────────

Naturalmente, um aeromodelo precisa inclinar para fazer uma curva coordenada. Não existe maneira de eliminar completamente esse movimento quando a câmera está rigidamente presa ao avião.

O objetivo é torná-lo:

mais progressivo.

Pense como um operador de câmera

Essa mudança de mentalidade é interessante.

Normalmente pensamos:

Para onde quero levar o avião?

Durante uma filmagem, vale acrescentar outra pergunta:

O que a câmera está vendo neste momento?

São objetivos relacionados, mas diferentes.

Uma trajetória excelente do ponto de vista do piloto pode produzir uma sequência pouco interessante.

Por outro lado, um voo aparentemente simples pode produzir imagens excelentes.

Planeje a tomada antes da decolagem

Em vez de simplesmente ligar a câmera e voar sem um objetivo definido, podemos planejar algumas tomadas.

Por exemplo:

DECOLAGEM
    ↓
SUBIDA SUAVE
    ↓
PASSAGEM SOBRE A ÁREA
    ↓
CURVA AMPLA
    ↓
NOVA PASSAGEM
    ↓
DESCIDA
    ↓
POUSO

Isso ajuda bastante porque o piloto já sabe onde estão os momentos importantes da filmagem.

E evita tentar improvisar enquadramentos enquanto também precisa pilotar.

A segurança do voo continua sendo prioridade.

Escolha bem a posição da câmera

A câmera pode ser instalada em diferentes posições no aeromodelo.

Cada posição produz uma imagem completamente diferente.

Na parte dianteira, por exemplo:

        CÂMERA →
           ●
      ____/ \____
 ____/           \____

podemos ter uma visão semelhante à direção do voo.

Mas também podemos posicioná-la lateralmente:

          AVIÃO
     ─────────────→

          ↓
        CÂMERA

ou apontada parcialmente para baixo:

      AEROMODELO
──────────→
     \
      \
       ↓ câmera

Não existe uma única posição correta.

Depende da imagem que queremos produzir.

Mostrar uma parte do aeromodelo pode ficar interessante

Nem sempre precisamos esconder completamente o avião.

Dependendo da montagem, deixar aparecer:

uma parte da asa, o nariz ou outra estrutura

pode criar uma referência visual interessante.

O espectador percebe imediatamente:

“estou vendo a imagem a partir de um avião.”

É uma estética diferente daquela imagem aérea completamente limpa que normalmente associamos aos drones.

Por outro lado, é preciso verificar se partes do modelo não ocupam uma área excessiva do quadro.

Faça um teste de enquadramento no chão

Essa dica pode evitar perder um voo inteiro.

Antes de decolar:

ligue a câmera e faça uma gravação curta.

Depois verifique o enquadramento.

Há inclusive um relato da Academy of Model Aeronautics no qual uma câmera instalada em um planador teve sua configuração alterada durante a montagem; o resultado foi que o nariz ficou em foco enquanto a paisagem que se pretendia registrar ficou desfocada.

Portanto, antes de voar, confira:

posição, inclinação, foco quando aplicável, gravação e espaço disponível.

Dez segundos de teste no solo podem salvar todo o material daquele voo.

A câmera precisa estar muito bem fixada

Não basta conseguir um bom ângulo.

A câmera precisa permanecer naquele ângulo durante:

decolagem, voo, curvas e pouso.

Uma fixação frouxa pode produzir:

AVIÃO ─────────────→

CÂMERA
 ↕ ↕ ↕ ↕ ↕

e essas pequenas movimentações aparecem na gravação.

Além disso, uma câmera que se desprenda durante o voo representa um problema muito maior que simplesmente perder a imagem.

Por isso a fixação deve ser pensada como parte da própria preparação do aeromodelo.

Cuidado com as vibrações

Esse é um dos maiores inimigos da imagem aérea.

Motores, hélices e a própria estrutura podem transmitir vibração para a câmera.

Em vídeo, determinadas vibrações podem produzir o conhecido:

efeito jello.

A imagem parece ondular ou deformar.

Isso ocorre pela interação entre vibração e a forma como muitos sensores CMOS fazem a leitura progressiva da imagem — o chamado rolling shutter.

A própria GoPro observa que vibração intensa pode produzir artefatos de rolling shutter que a estabilização não necessariamente consegue eliminar.

Portanto, a solução começa antes da câmera.

Uma hélice desbalanceada pode prejudicar a filmagem

Se existe vibração excessiva no conjunto propulsor, instalar espuma em volta da câmera não resolve necessariamente a causa.

Devemos observar:

hélice, motor, eixo, spinner, fixações e estrutura.

Um conjunto mecanicamente equilibrado ajuda não apenas na qualidade da imagem, mas no próprio funcionamento do modelo.

Depois disso podemos trabalhar a montagem da câmera para reduzir a transmissão das vibrações restantes.

Isolar vibração exige equilíbrio

Pode parecer lógico colocar a câmera sobre uma espuma extremamente macia.

Mas existe um problema.

Se a montagem ficar mole demais:

      CÂMERA
       ↙ ↑ ↘
     ~~~~~~~~
       ESPUMA

a câmera pode começar a oscilar.

Portanto, queremos reduzir vibrações de alta frequência sem criar uma câmera balançando livremente dentro do avião.

É necessário encontrar um compromisso entre:

fixação e amortecimento.

O horizonte é uma referência muito importante

Quando observamos uma imagem aérea, nosso cérebro utiliza o horizonte como referência de orientação.

Por isso uma gravação em que o horizonte oscila constantemente pode se tornar cansativa.

Câmeras modernas conseguem reduzir bastante esse problema. Alguns sistemas atuais oferecem inclusive Horizon Lock/Horizon Leveling, que utiliza estabilização para manter o horizonte nivelado dentro de determinados limites.

Mas em uma câmera simples presa diretamente ao aeromodelo, a técnica de pilotagem continua fazendo grande diferença.

Faça passagens longas e retas

Uma tomada extremamente simples costuma funcionar muito bem:

uma passagem longa e aproximadamente nivelada.

Imagine que queremos filmar uma paisagem:

               AEROMODELO →

────────────────────────────
          PAISAGEM
────────────────────────────

Em vez de tentar permanecer circulando exatamente sobre o ponto, podemos planejar uma trajetória que passe pela área de interesse.

Depois fazemos uma curva distante e retornamos para outra tomada.

Na edição, podemos utilizar principalmente as partes mais estáveis.

Não tente fazer tudo em uma única passagem

Uma grande vantagem do vídeo digital é poder gravar várias tentativas.

Podemos fazer:

passagem 1 — mais alta

passagem 2 — mais baixa

passagem 3 — outro sentido

passagem 4 — câmera apontando para outra região

e escolher depois.

Isso é muito melhor do que tentar produzir a tomada perfeita enquanto fazemos uma trajetória complicada.

Pense também na posição do Sol

A iluminação muda completamente uma imagem aérea.

Voar com a câmera diretamente voltada para o Sol pode produzir:

contraste excessivo, flare e perda de detalhes.

Dependendo do objetivo, uma iluminação lateral pode evidenciar melhor:

relevo, árvores, construções e textura do terreno.

Além disso, câmeras pequenas normalmente possuem limitações de faixa dinâmica.

Planejar o sentido da passagem considerando a luz pode melhorar bastante o resultado sem alterar absolutamente nada na câmera.

Um campo de visão amplo ajuda

Câmeras de ação normalmente utilizam lentes de grande angular justamente porque conseguem registrar uma área ampla da cena.

Isso pode ser particularmente interessante em um aeromodelo, porque pequenos erros de apontamento têm menor chance de colocar completamente o objeto desejado fora do quadro.

Lentes amplas são muito utilizadas em imagens panorâmicas e de ação por essa capacidade de registrar uma grande área da cena.

Entretanto, existe uma consequência:

objetos parecem menores e mais distantes.

Portanto, grande angular não resolve tudo.

Resolução e taxa de quadros também influenciam

Quando a câmera permite escolher as configurações, precisamos pensar no objetivo final.

Uma taxa de quadros maior pode ser interessante para movimentos rápidos e eventualmente permitir:

câmera lenta.

Já uma resolução maior oferece mais margem para:

recortar, reposicionar e estabilizar durante a edição.

Mas também aumenta:

tamanho dos arquivos, processamento e armazenamento.

Para uma câmera instalada em um aeromodelo, eu priorizaria primeiro:

boa exposição + imagem estável + enquadramento.

Uma gravação extremamente nítida, mas cheia de vibração e movimentos bruscos, continua sendo uma gravação ruim.

A edição começa durante o voo

Esse é um conceito que gosto bastante.

Se você sabe que depois pretende montar um vídeo, já pode voar pensando nos cortes.

Por exemplo:

5–10 s de voo estável
        ↓
mudança de trajetória
        ↓
5–10 s de outra tomada estável
        ↓
curva
        ↓
nova tomada

Assim você cria trechos utilizáveis.

Se o avião estiver mudando de direção o tempo inteiro, será muito mais difícil encontrar sequências limpas posteriormente.

Grave mais do que pretende utilizar

Uma filmagem de dez minutos não precisa produzir um vídeo de dez minutos.

Talvez os melhores momentos sejam:

20 segundos daqui, 15 segundos dali e mais 30 segundos de outra passagem.

Isso é normal.

Inclusive os primeiros experimentos históricos de fotografia aérea com aeromodelos já envolviam muitas tentativas para conseguir poucas imagens realmente boas. Um antigo relato de aeromodelismo descreve justamente a dificuldade de obter uma boa fotografia durante o voo.

Com vídeo digital temos uma vantagem enorme:

podemos selecionar depois.

A câmera altera o aeromodelo

Existe ainda uma questão que não pode ser ignorada.

Adicionar uma câmera significa adicionar:

massa e arrasto.

E, dependendo de onde ela for instalada, também podemos alterar o:

centro de gravidade.

Isso pode mudar o comportamento do modelo.

Portanto, depois de instalar a câmera, devemos verificar novamente o balanceamento do aeromodelo de acordo com as especificações do projeto.

Uma câmera pequena colocada muito distante do centro de gravidade pode produzir um efeito maior do que seu peso isoladamente sugeriria.

Aerodinâmica também importa

Imagine uma câmera grande colocada externamente:

       ┌─────┐
       │CAM  │
_______└─────┘________
       AEROMODELO

Ela cria uma nova área exposta ao fluxo de ar.

Dependendo da posição, isso pode produzir:

arrasto, turbulência e até alterações de estabilidade.

Por isso uma instalação compacta e bem planejada é preferível a simplesmente prender a câmera onde houver espaço.

Nunca deixe a filmagem tirar sua atenção da pilotagem

Essa talvez seja a recomendação mais importante.

O objetivo principal continua sendo:

voar o aeromodelo com segurança.

Existe até um relato histórico de fotografia aérea com aeromodelos alertando para o risco de o piloto ficar excessivamente concentrado na aeronave que está tentando fotografar e perder a atenção sobre seu próprio modelo.

Não vale a pena arriscar o aeromodelo — muito menos pessoas e propriedades — para conseguir uma imagem.

Planeje a tomada para que a filmagem seja consequência de um voo controlado.

Respeite também privacidade e regras de voo

Uma câmera transforma o aeromodelo em uma plataforma capaz de registrar pessoas e propriedades.

A Academy of Model Aeronautics chama atenção explicitamente para a necessidade de respeitar a privacidade ao utilizar câmeras em aeromodelos.

Além disso, as regras aplicáveis a aeromodelos e outras aeronaves não tripuladas variam conforme país, local, categoria e operação.

Portanto, antes de voar, é necessário observar as normas aplicáveis ao local onde o modelo será utilizado.

Veja minhas dicas no vídeo

No vídeo abaixo mostro algumas das minhas dicas para filmar utilizando um aeromodelo e conseguir imagens melhores durante o voo.

Mais do que simplesmente colocar uma câmera no avião, o interessante é perceber que passamos a trabalhar simultaneamente com:

aeromodelismo + fotografia + vídeo.

E pequenas mudanças na forma de instalar a câmera e pilotar podem produzir uma diferença enorme no resultado.

Uma boa imagem começa antes da decolagem

Se eu tivesse que resumir tudo em uma ideia, seria esta:

não espere decolar para começar a pensar na filmagem.

Antes do voo já podemos definir:

o enquadramento, a posição da câmera, a trajetória, a iluminação e os trechos que pretendemos registrar.

Depois, durante o voo, buscamos movimentos suaves e previsíveis.

E finalmente, na edição, selecionamos as melhores passagens.

O processo completo fica assim:

PLANEJAMENTO
     ↓
INSTALAÇÃO DA CÂMERA
     ↓
TESTE NO SOLO
     ↓
VÔO SUAVE
     ↓
VÁRIAS TOMADAS
     ↓
SELEÇÃO
     ↓
EDIÇÃO
     ↓
VÍDEO FINAL

É justamente essa combinação que transforma uma simples câmera presa ao aeromodelo em uma ferramenta interessante para produzir imagens aéreas diferentes das que normalmente vemos feitas por drones.

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