Testador de Continuidade para Bancada: Uma Ferramenta Simples e Muito Útil

Quem trabalha frequentemente com eletrônica acaba utilizando algumas ferramentas tantas vezes que vale a pena deixá-las permanentemente disponíveis na bancada.

Uma delas é o testador de continuidade.

É um instrumento simples: encostamos duas pontas em diferentes pontos de um circuito e verificamos se existe um caminho elétrico entre eles. Quando há continuidade, podemos receber uma indicação sonora, visual ou ambas.

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Mesmo que praticamente todo multímetro tenha essa função, um testador dedicado pode ser extremamente prático para verificações rápidas durante montagens, reparos e testes de circuitos.

Neste projeto, a proposta foi justamente construir um testador de continuidade para deixar disponível na bancada.

O que significa continuidade elétrica?

Dizer que existe continuidade entre dois pontos significa que há um caminho elétrico fechado entre eles.

Podemos imaginar:

PONTA A ─────────────── PONTA B
           fio

          CONTINUIDADE

Se o condutor estiver rompido:

PONTA A ────── X ────── PONTA B

         SEM CONTINUIDADE

Na prática, um testador aplica uma pequena corrente ou tensão através das pontas e verifica o comportamento do circuito.

Os multímetros fazem exatamente isso. A Fluke define o teste de continuidade como uma verificação rápida para determinar se existe um caminho completo para a corrente e ressalta que o instrumento utiliza uma pequena corrente para realizar o teste.

Para que serve um testador de continuidade?

Na bancada, as aplicações são inúmeras.

Podemos verificar rapidamente:

  • fios;
  • cabos;
  • trilhas de placas;
  • soldas;
  • conectores;
  • fusíveis;
  • chaves;
  • contatos;
  • ligações entre componentes.

Imagine que acabamos de soldar um fio entre dois pontos de uma placa.

Em vez de configurar o multímetro e acompanhar o display, basta:

ponta 1 → início do fio
ponta 2 → final do fio

BEEP!

Temos imediatamente uma indicação de que existe um caminho elétrico.

Por que construir um se o multímetro já faz isso?

Porque rapidez também importa na bancada.

O multímetro é uma ferramenta muito mais completa:

MULTÍMETRO
   │
   ├── tensão
   ├── corrente
   ├── resistência
   ├── continuidade
   ├── diodo
   └── outras funções

Mas se naquele momento queremos apenas saber:

“Esses dois pontos estão eletricamente conectados?”

um instrumento dedicado pode ser mais conveniente.

Pegamos as pontas, fazemos o teste e seguimos trabalhando.

O aviso sonoro faz bastante diferença

Uma das características mais úteis é justamente não precisar olhar para o instrumento.

Enquanto seguimos uma trilha ou verificamos vários fios:

PONTA
 ↓
ponto 1 → silêncio
ponto 2 → silêncio
ponto 3 → BEEP!

Encontramos a ligação sem tirar os olhos da placa.

Essa é também a razão pela qual os próprios multímetros utilizam um beeper na função de continuidade. A documentação da Fluke explica explicitamente que o aviso sonoro permite realizar testes rápidos sem precisar observar continuamente o display.

Para quem trabalha em bancada, isso é muito conveniente.

Continuidade não significa necessariamente zero ohm

Este é um detalhe importante.

Um testador precisa adotar algum critério para decidir o que será considerado continuidade.

Podemos imaginar:Rmedida<RlimiteR_{medida}<R_{limite}

Então:

resistência abaixo do limite
            ↓
      CONTINUIDADE
            ↓
           BEEP

O valor desse limite depende do projeto.

Por exemplo, um determinado multímetro Fluke considera continuidade abaixo de aproximadamente 25 Ω, enquanto outros instrumentos podem utilizar limites diferentes.

Já existem projetos de testadores dedicados deliberadamente ajustados para disparar somente abaixo de aproximadamente 1 Ω, justamente para ignorar boa parte dos componentes presentes na placa.

Portanto:

“o aparelho apitou” não significa necessariamente “a resistência é exatamente zero”.

Significa que a resistência ficou abaixo do limite que aquele instrumento considera continuidade.

Isso é importante quando testamos uma placa montada

Imagine duas situações:

A ───────────── B
       fio

R ≈ muito baixa

e:

A ─── 22 Ω ─── B

Dependendo do limite utilizado pelo testador, ele poderá apitar nos dois casos.

Por isso um testador de continuidade não substitui uma medição de resistência quando precisamos saber quanto vale a resistência.

São perguntas diferentes.

O testador responde:

Existe um caminho de baixa resistência?

O ohmímetro responde:

Qual é aproximadamente a resistência entre esses pontos?

Podemos usar para procurar trilhas em uma placa

Essa é uma das aplicações que mais gosto.

Quando temos uma placa sem esquema e queremos descobrir para onde determinado terminal vai, podemos deixar uma ponta fixa naquele ponto e percorrer outros pontos com a segunda ponta.

          ┌── ponto A
          ├── ponto B
terminal ─┼── ponto C  → BEEP!
          ├── ponto D
          └── ponto E

Pronto.

Acabamos de identificar uma conexão.

Esse procedimento é muito útil para estudar placas antigas, descobrir conexões e reconstruir partes de um circuito.

Encontrando trilhas interrompidas

Também podemos fazer o contrário.

Suponha que visualmente uma trilha pareça perfeita, mas o circuito não esteja funcionando.

Testamos:

A ●════════════════● B
        trilha

Não apitou.

Podemos então aproximar progressivamente uma das pontas:

A ●══════●════X════● B
         ↑
      funciona

Assim conseguimos localizar aproximadamente onde ocorreu a interrupção.

Uma pequena fissura na trilha pode ser muito difícil de enxergar, mas eletricamente fica evidente.

Verificando cabos

Outro uso frequente é testar cabos.

Em um cabo com vários condutores, verificamos cada conexão individualmente:

CONECTOR A             CONECTOR B

pino 1 ─────────────── pino 1
pino 2 ─────────────── pino 2
pino 3 ─────────────── pino 3

Depois podemos verificar se existem curtos indesejados:

pino 1 ↔ pino 2   NÃO deve apitar
pino 1 ↔ pino 3   NÃO deve apitar
pino 2 ↔ pino 3   NÃO deve apitar

Portanto, o mesmo instrumento verifica tanto conexões que deveriam existir quanto conexões que não deveriam existir.

Testando uma chave

Uma chave simples é outro exemplo perfeito.

Desligada:

──o/ o──

silêncio

Ligada:

──o──o──

BEEP!

Se o comportamento não mudar ao acionarmos a chave, podemos começar a suspeitar do componente ou das conexões.

O mesmo princípio pode ser aplicado a relés, botões e outros contatos.

Testando fusíveis

Também é uma maneira extremamente rápida de verificar fusíveis.

Um fusível em boas condições deve apresentar um caminho de resistência muito baixa entre seus terminais.

PONTA ──[ FUSÍVEL ]── PONTA
                ↓
              BEEP

Se estiver aberto:

PONTA ──[  X  ]── PONTA

          silêncio

É uma das aplicações clássicas do teste de continuidade.

Um circuito dedicado pode ser muito simples

Conceitualmente, precisamos de três blocos:

PONTAS DE TESTE
      ↓
DETECÇÃO DE CONTINUIDADE
      ↓
INDICAÇÃO
      ↓
  SOM / LUZ

Em uma implementação muito simples, o próprio caminho testado participa do circuito que aciona o indicador.

Em projetos mais elaborados podemos utilizar transistor, comparador ou outro circuito para estabelecer com maior precisão o limite de resistência que será interpretado como continuidade.

Existem inclusive projetos em que um comparador detecta resistências inferiores a determinado limite e aciona simultaneamente buzzer e LED.

LED e buzzer podem trabalhar juntos

Uma combinação interessante é utilizar as duas indicações:

CONTINUIDADE
     │
     ├──► LED
     │
     └──► BUZZER

O buzzer é excelente quando estamos olhando para o circuito.

O LED é útil quando queremos uma confirmação visual ou quando estamos trabalhando em um ambiente onde o som não é conveniente.

Para uma ferramenta fixa de bancada, ter os dois pode ser bastante interessante.

Veja o testador que montei para minha bancada

No vídeo mostro justamente a construção e utilização desse testador de continuidade dedicado para a bancada de eletrônica.

É o tipo de projeto que não precisa ser tecnologicamente sofisticado para ser útil.

Depois de pronto, fica ali disponível e acaba sendo utilizado constantemente em outras montagens.

Um cuidado fundamental: teste com o circuito desligado

Este é provavelmente o ponto mais importante do artigo.

O teste de continuidade deve ser realizado em circuitos desenergizados.

O próprio fabricante de multímetros recomenda desligar a alimentação do circuito e descarregar capacitores de alta tensão antes de realizar o teste.

Isso é ainda mais importante em um testador caseiro.

Não devemos pensar:

“É só um testador, então posso encostar em qualquer lugar.”

Não.

Antes:

DESLIGAR ALIMENTAÇÃO
        ↓
DESCARREGAR CAPACITORES
        ↓
CONFIRMAR AUSÊNCIA DE TENSÃO
        ↓
TESTAR CONTINUIDADE

Cuidado especial com fontes e amplificadores valvulados

Esse cuidado merece destaque considerando os projetos que fazemos na bancada.

Um equipamento pode estar desligado da tomada e ainda possuir capacitores carregados com tensões perigosas.

Isso é particularmente importante em:

  • fontes de alimentação;
  • amplificadores valvulados;
  • equipamentos ligados diretamente à rede;
  • circuitos com capacitores de alta tensão.

Portanto, desligar o equipamento não significa automaticamente que todos os pontos estão seguros para serem tocados.

Um testador caseiro também injeta energia no circuito

Outro detalhe frequentemente esquecido é que o testador precisa aplicar alguma tensão/corrente para descobrir se existe continuidade.

Isso significa que o circuito sob teste não está eletricamente completamente “intocado”.

Em placas com semicondutores sensíveis, o projeto do testador pode ser importante.

Existem testadores especificamente projetados para trabalhar com tensões de prova de apenas alguns milivolts e correntes inferiores a 1 mA justamente para reduzir a possibilidade de interferir ou danificar componentes durante testes em circuito.

Para trabalhos mais delicados, portanto, vale conhecer as características do instrumento utilizado.

Testador de continuidade não substitui o multímetro

Não vejo essa ferramenta como substituta.

Vejo como complementar.

TESTADOR
↓
resposta rápida
sim/não

MULTÍMETRO
↓
medição
valor numérico

Se o testador indicar algo inesperado, podemos pegar o multímetro e investigar:

0,2 Ω?

5 Ω?

47 Ω?

1 kΩ?

A partir daí temos muito mais informação para diagnosticar o circuito.

Ferramentas simples melhoram muito uma bancada

Existe uma tendência de imaginar que uma boa bancada depende apenas de equipamentos caros.

Osciloscópio, fonte de bancada, gerador de funções e multímetros são extremamente úteis.

Mas algumas ferramentas muito simples acabam sendo utilizadas o tempo inteiro.

Um testador de continuidade dedicado é uma delas.

É barato, fácil de construir e responde rapidamente uma das perguntas mais frequentes durante uma montagem:

“Será que esses dois pontos estão realmente ligados?”

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