Será que aquilo que aprendemos na escola precisa parecer distante da nossa vida?
Acredito que não.
Grande parte do conhecimento que estudamos possui fundamentos que podem ser relacionados a situações reais, experiências, músicas, objetos, tecnologias e acontecimentos do cotidiano. Quando conseguimos estabelecer essas conexões, aquilo que antes parecia apenas uma teoria abstrata pode ganhar significado.
Nesse processo, o professor possui um papel fundamental: conduzir o aluno nessa viagem chamada conhecimento.
E nem sempre são necessários laboratórios sofisticados ou grandes recursos. Às vezes, uma música, uma experiência simples ou uma pergunta diferente já é suficiente para transformar uma aula.
Quando aprendemos algo que nunca mais esquecemos
Tenho uma lembrança da época da escola que ilustra muito bem isso.
Quando estava na 8ª série, estudávamos em Biologia temas relacionados a Pasteur, Redi e à teoria da geração espontânea.
Em vez de simplesmente aplicar uma prova ou solicitar um trabalho escrito convencional, a professora propôs algo completamente diferente.
Os alunos deveriam formar grupos de três a cinco pessoas e criar uma música sobre o conteúdo estudado.
Poderíamos produzir uma paródia utilizando uma música conhecida ou compor algo inteiramente original.
O conteúdo de Biologia precisava virar música.
Uma aula que saiu da sala de aula
A apresentação aconteceu no auditório da escola, que possuía inclusive um pequeno palco.
E o resultado me surpreendeu.
Os grupos apresentaram músicas muito interessantes. Algumas eram paródias, enquanto outras eram composições próprias. Havia letras mais sérias e outras carregadas de irreverência.
Eu também não poderia perder a oportunidade.
Levei meu violão para acompanhar a música do nosso grupo. Outros colegas que tocavam fizeram o mesmo.
De repente, um conteúdo de Biologia tinha se transformado em uma experiência envolvendo:
ciência + música + criatividade + trabalho em grupo + apresentação + emoção
Aquilo deixou de ser apenas uma matéria que precisava ser estudada para uma avaliação.
Virou uma experiência.
Por que me lembro dessa matéria até hoje?
Existe um detalhe que considero particularmente interessante.
Eu ainda consigo cantar a música do meu grupo.
Décadas depois.
E, por consequência, lembro também do conteúdo que estávamos estudando.
Essa experiência sempre me fez pensar sobre a maneira como ensinamos.
Quando o aluno precisa transformar um conceito em uma música, construir alguma coisa, realizar uma experiência ou explicar o fenômeno de outra maneira, ele deixa de ocupar apenas a posição de receptor da informação.
Ele precisa trabalhar com aquele conhecimento.
Precisa interpretar, selecionar, relacionar e transformar.
Teoria e prática não deveriam ser mundos separados
Isso não significa abandonar a teoria.
Muito pelo contrário.
A experiência prática ganha muito mais valor quando conseguimos compreender qual princípio teórico explica aquilo que estamos observando.
Podemos pensar no processo assim:
teoria → experiência → observação → reflexão → compreensão
Ou também no sentido inverso:
experiência → curiosidade → pergunta → teoria → compreensão
Uma boa atividade prática pode despertar justamente a pergunta que leva o aluno a querer conhecer a teoria.
Criatividade também pode fazer parte da aula
Nem todas as disciplinas possuem experimentos físicos como aqueles encontrados em Química, Física ou Eletrônica.
Mas isso não significa que não possam existir experiências de aprendizagem criativas.
Podemos utilizar:
- músicas e paródias;
- jogos;
- dramatizações;
- debates;
- estudos de caso;
- projetos;
- construção de protótipos;
- resolução de problemas;
- simulações;
- experiências;
- situações do cotidiano.
O recurso escolhido depende do conteúdo e dos objetivos da aprendizagem.
O mais importante é evitar que o conhecimento seja apresentado como algo completamente desconectado da realidade do aluno.
Uma experiência com a Gaiola de Faraday
Em minhas aulas também procuro, sempre que possível, associar experiências práticas aos conceitos teóricos.
Um exemplo é a Gaiola de Faraday.
Podemos simplesmente explicar seu princípio utilizando textos, equações e desenhos.
Mas também podemos realizar uma experiência e observar o fenômeno acontecendo.
A partir daí surgem perguntas:
Por que isso aconteceu?
O que o material condutor está fazendo?
Por que determinados sinais são atenuados?
Onde encontramos esse princípio no cotidiano?
A demonstração passa a funcionar como uma porta de entrada para a explicação científica.
O que é uma Gaiola de Faraday?
De maneira simplificada, uma Gaiola de Faraday é uma estrutura condutora capaz de produzir um efeito de blindagem eletromagnética.
Quando submetida a determinadas condições eletromagnéticas, as cargas no material condutor se redistribuem, influenciando o campo no interior da estrutura.
O princípio está relacionado a inúmeras aplicações práticas de blindagem eletromagnética.
E é justamente esse tipo de conceito que pode parecer bastante abstrato quando apresentado somente de maneira teórica, mas ganha outra dimensão quando conseguimos observá-lo experimentalmente.
Veja a experiência da Gaiola de Faraday
No vídeo abaixo faço uma pequena demonstração prática relacionada ao funcionamento de uma Gaiola de Faraday.
Uma experiência simples pode despertar uma pergunta
Uma demonstração não precisa necessariamente ensinar tudo sobre determinado fenômeno.
Às vezes, sua principal função é produzir algo muito importante:
curiosidade.
O aluno observa algo inesperado e pergunta:
Por quê?
A partir desse momento existe uma razão para procurar a teoria.
E isso muda bastante a dinâmica da aprendizagem.
Em vez de apresentarmos uma resposta para uma pergunta que ninguém fez, podemos primeiro criar condições para que a pergunta apareça.
O conhecimento pode ser uma experiência
Aquela professora de Biologia provavelmente não imaginava que, tantos anos depois, um de seus alunos ainda se lembraria da atividade sobre Pasteur, Redi e geração espontânea.
Mas eu lembro.
E talvez essa seja uma boa demonstração do poder de uma experiência de aprendizagem marcante.
Não precisamos transformar todas as aulas em espetáculos. Também não devemos utilizar atividades diferentes apenas pela novidade.
A criatividade precisa estar relacionada a um objetivo de aprendizagem.
Mas, quando encontramos uma maneira de conectar teoria, prática, curiosidade e realidade, o conhecimento deixa de ser apenas algo que o aluno precisa memorizar.
Ele pode se transformar em algo que o aluno experimenta, compreende e leva consigo.