Como cifrar uma música: aprenda a encontrar os acordes e criar a harmonia

Você escreveu uma letra, criou uma melodia e já consegue cantar sua música. Então aparece uma dúvida muito comum:

quais acordes devo tocar?

Como transformar aquela melodia que está na sua cabeça em uma música que possa ser acompanhada no violão, teclado ou outro instrumento harmônico?

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Esse processo é chamado de harmonização. No artigo original, apresentei justamente uma proposta para ajudar quem já possui uma letra e uma melodia, mas ainda não sabe como encontrar os acordes da música.

E existe uma boa notícia:

você não precisa começar sabendo ler partitura nem dominar teoria musical.

O que significa cifrar uma música?

Cifrar uma música significa representar seus acordes utilizando símbolos.

Por exemplo:

C = Dó maior

Dm = Ré menor

Em = Mi menor

F = Fá maior

G = Sol maior

Am = Lá menor

Quando encontramos algo assim:

C | Am | F | G

estamos vendo uma sequência de acordes escrita por meio de cifras.

Essa representação é extremamente prática porque pode ser utilizada por músicos que tocam diferentes instrumentos.

Cifra e partitura não são a mesma coisa

Uma partitura pode representar informações bastante detalhadas sobre a música, incluindo:

altura das notas;

duração;

ritmo;

pausas;

dinâmica

e várias outras informações.

A cifra possui uma proposta diferente.

Ela nos informa principalmente:

qual acorde deve ser tocado naquele momento.

Por isso, para alguém que quer acompanhar uma música no violão ou teclado, aprender cifras costuma ser um caminho muito mais rápido do que começar pela leitura completa de partituras.

O que é harmonização?

Imagine que você canta uma melodia.

A melodia é formada por uma sequência de notas.

Enquanto essas notas são cantadas, podemos tocar determinados conjuntos de notas simultaneamente.

Esses conjuntos formam os:

acordes.

Harmonizar significa encontrar acordes que funcionem adequadamente acompanhando aquela melodia.

Foi exatamente esse problema que motivou meu material original: ajudar alguém que já possui letra e melodia a colocar acordes na música.

Antes dos acordes, precisamos encontrar o tom

Um dos primeiros passos é identificar a tonalidade da música.

Quando dizemos que uma música está, por exemplo, em:

Dó maior

estamos dizendo muito mais do que simplesmente qual é sua primeira nota.

A tonalidade nos fornece uma espécie de ambiente musical.

Dentro dela existem determinadas notas e acordes que possuem relações muito fortes entre si.

E isso reduz enormemente nosso problema.

Em vez de experimentar aleatoriamente dezenas de acordes, podemos começar trabalhando com um grupo muito menor de candidatos.

O campo harmônico

Aqui aparece uma das ferramentas mais úteis para quem quer aprender a cifrar músicas:

o campo harmônico.

Para cada tonalidade podemos construir uma família básica de acordes.

Em Dó maior, por exemplo:

C – Dm – Em – F – G – Am – Bdim

Observe que temos acordes maiores, menores e um diminuto.

Esses acordes são construídos utilizando as notas pertencentes à escala de Dó maior.

Isso significa que, se nossa música estiver em Dó maior, esses acordes são excelentes candidatos para iniciar a harmonização.

Isso não significa que só podemos utilizar esses acordes

Esse ponto é importante.

Músicas podem utilizar acordes:

emprestados de outras tonalidades;

alterados;

com extensões;

dominantes secundários;

e muitos outros recursos harmônicos.

Mas quem está começando não precisa partir daí.

Primeiro precisamos aprender a fazer uma harmonização básica funcionar.

Depois podemos sofisticá-la.

Comece pela melodia que você já canta

No artigo original, parto justamente da situação de alguém que já escreveu a letra e já está cantando a música.

Isso é importante.

Você já possui matéria-prima.

Agora tente descobrir as notas principais daquela melodia em um instrumento.

Não precisa identificar cada pequena passagem imediatamente.

Comece pelas notas que parecem mais importantes, especialmente:

notas longas;

notas acentuadas;

finais das frases.

Essas notas fornecem pistas muito úteis sobre os acordes.

Imagine uma nota Dó na melodia

Suponha que em determinado ponto você esteja cantando a nota:

C (Dó).

Quais acordes do campo harmônico de Dó maior possuem essa nota?

Temos, por exemplo:

C = C + E + G

Am = A + C + E

F = F + A + C

Portanto, uma mesma nota da melodia pode ser compatível com diferentes acordes.

Isso revela algo fundamental:

harmonizar não é simplesmente encontrar um único acorde matematicamente correto.

Existem escolhas.

É aí que entra o ouvido

Experimente.

Toque:

C

e cante a frase.

Depois:

Am.

Cante novamente.

Depois:

F.

Qual deles produz a sensação que você deseja?

Pode haver mais de uma resposta musicalmente possível.

Uma opção pode soar:

mais estável;

outra:

mais melancólica;

outra:

mais aberta.

Harmonizar também envolve escolha estética.

Procure primeiro os pontos de repouso

Uma estratégia interessante é começar pelo final das frases.

Muitas melodias fornecem nesses pontos uma sensação de:

repouso

ou

conclusão.

Esses lugares costumam oferecer boas pistas sobre a harmonia.

Você não precisa começar tentando colocar um acorde sobre cada palavra.

Comece identificando os grandes pontos da música.

Não coloque acordes demais

Esse é um erro muito comum de quem está começando.

A pessoa encontra uma nota diferente na melodia e imediatamente pensa:

“preciso trocar o acorde.”

Não necessariamente.

Um mesmo acorde pode acompanhar várias notas diferentes da melodia.

Portanto, tente inicialmente manter uma harmonia relativamente simples.

Se estiver funcionando:

não complique apenas para parecer mais sofisticado.

Três acordes podem ser suficientes

Muitas músicas podem ser acompanhadas utilizando poucos acordes.

Em uma tonalidade maior, três funções harmônicas são especialmente importantes:

tônica;

subdominante;

dominante.

Em Dó maior, podemos representá-las de maneira bastante simplificada por:

C – F – G.

Com apenas esses três acordes já conseguimos harmonizar uma quantidade surpreendente de melodias simples.

A tônica cria sensação de repouso

O acorde construído sobre o primeiro grau possui uma função muito importante.

Em Dó maior:

C.

Ele costuma produzir forte sensação de:

casa;

estabilidade;

repouso.

É por isso que muitas músicas começam ou terminam na tônica.

Não é uma regra absoluta, mas é uma referência muito útil para quem está aprendendo.

A dominante cria tensão

Em Dó maior, um dos principais acordes de função dominante é:

G.

Ele cria uma sensação que frequentemente pede resolução.

Quando fazemos:

G → C

é comum perceber claramente:

tensão → repouso.

Experimente no instrumento.

Toque G.

Pare.

Você talvez sinta que ainda falta alguma coisa.

Agora toque C.

A sensação de chegada fica muito mais evidente.

Essa relação ajuda a descobrir acordes

Quando estiver cantando uma música, tente perceber:

a frase parece estar chegando?

Talvez estejamos nos aproximando da tônica.

Parece criar tensão antes de voltar?

Talvez uma função dominante funcione naquele ponto.

Com prática, começamos a ouvir essas relações em vez de simplesmente decorar sequências.

Os acordes menores ampliam as possibilidades

Voltando ao campo harmônico de Dó maior:

C – Dm – Em – F – G – Am – Bdim

Temos também:

Dm;

Em;

Am.

O Am, por exemplo, é particularmente importante porque Lá menor é a tonalidade relativa menor de Dó maior.

Experimente:

C – G – Am – F.

Depois:

Am – F – C – G.

São os mesmos quatro acordes reorganizados, mas a sensação musical muda bastante.

A ordem dos acordes importa

Não basta escolher quais acordes serão utilizados.

Precisamos escolher:

quando cada um aparece.

Compare:

C → F → G → C

com:

C → G → F → C.

Os acordes são praticamente os mesmos.

Mas o caminho harmônico é diferente.

É justamente esse movimento que ajuda a construir a personalidade da música.

Escreva os acordes sobre a letra

Depois de encontrar uma sequência que funciona, podemos construir a cifra.

Por exemplo:

C Am
Minha frase começa aqui

F G
E continua até chegar

O acorde é colocado aproximadamente sobre a região da palavra ou sílaba na qual ocorre a troca.

Isso permite que outra pessoa leia a letra e saiba quando mudar de acorde.

Primeiro faça uma versão simples

Não tente produzir imediatamente:

Cmaj7(9) → Am7/G → Dm7(9) → G13

se você ainda está tentando descobrir a harmonia básica.

Comece:

C → Am → Dm → G.

Depois que a música estiver funcionando, experimente enriquecê-la.

Esse processo é muito mais fácil do que tentar descobrir simultaneamente:

harmonia + extensões + inversões + ritmo + arranjo.

A cifra não define necessariamente como tocar o acorde

Se aparece:

Am

sabemos que o acorde é Lá menor.

Mas ainda podemos tocá-lo:

em diferentes posições;

em diferentes inversões;

com diferentes ritmos;

arpejado;

batido.

Portanto, cifra e arranjo são coisas relacionadas, mas diferentes.

A mesma sequência harmônica pode produzir resultados completamente distintos dependendo da maneira como é executada.

O ritmo muda tudo

Experimente tocar:

C – Am – F – G

uma vez com uma batida lenta.

Depois toque os mesmos acordes com um ritmo rápido.

Depois faça arpejos.

Harmonicamente continuamos com a mesma sequência.

Musicalmente, porém, a sensação pode mudar completamente.

Isso mostra por que descobrir os acordes é apenas uma parte da construção da música.

E se nenhum acorde parecer funcionar?

Volte algumas etapas.

Talvez:

o tom identificado esteja errado;

alguma nota da melodia esteja sendo tocada incorretamente;

a música esteja utilizando um acorde fora do campo harmônico básico;

ou simplesmente:

você ainda não encontrou a melhor opção.

Não tente resolver adicionando acordes aleatoriamente.

Ouça novamente a melodia.

Grave você mesmo cantando

Essa é uma ferramenta extremamente útil.

Grave a melodia sem acompanhamento.

Depois utilize o instrumento para procurar as notas.

Quando estamos simultaneamente:

cantando + tocando + tentando descobrir acordes,

é fácil perder a referência.

A gravação permite repetir exatamente a mesma frase quantas vezes forem necessárias.

Faça a harmonização em pequenas partes

Não tente resolver a música inteira de uma vez.

Trabalhe primeiro:

primeira frase.

Depois:

segunda frase.

Depois:

refrão.

Ao terminar, observe se algumas sequências se repetem.

É bastante comum descobrir que aquilo que parecia uma música inteira cheia de acordes é, na verdade, formado por poucas progressões repetidas.

O refrão pode utilizar a mesma família de acordes

Não existe necessidade de inventar um novo campo harmônico para cada parte.

Muitas músicas constroem:

estrofe;

pré-refrão;

refrão

reorganizando os mesmos acordes.

O contraste pode vir da:

ordem;

duração;

dinâmica;

melodia;

ritmo.

Depois podemos sofisticar

Quando a versão básica estiver funcionando, podemos experimentar transformar:

C → Cmaj7

Am → Am7

Dm → Dm7

G → G7.

Também podemos trabalhar com:

inversões;

acordes suspensos;

acordes adicionados;

baixos diferentes.

Mas agora estamos melhorando uma harmonia que já funciona.

Transpor fica muito mais fácil quando entendemos a lógica

Suponha que a música esteja em Dó maior, mas fique muito grave para sua voz.

Podemos transportá-la para Ré maior.

Em vez de:

C – F – G – Am

teremos:

D – G – A – Bm.

A relação entre os acordes permanece.

Mudamos a tonalidade.

Isso permite adaptar uma composição à tessitura do cantor ou às características do instrumento.

Violão e teclado podem utilizar a mesma cifra

Essa é uma das vantagens que destaquei no artigo original: depois de colocar os acordes na música, ela pode ser tocada em instrumentos como violão e teclado.

A execução será diferente.

Mas a informação harmônica:

C – Am – F – G

continua válida.

Por isso as cifras são uma linguagem extremamente prática entre músicos.

Preciso saber partitura para fazer isso?

Não necessariamente.

Essa era justamente uma das premissas do material que apresentei no post original: ensinar o processo a pessoas que não conhecem previamente teoria musical ou leitura de partitura, introduzindo apenas aquilo que fosse necessário para conseguir harmonizar.

Naturalmente, aprender teoria musical posteriormente amplia enormemente suas possibilidades.

Mas não precisamos transformar a teoria em uma barreira para começar.

Um exercício simples

Pegue uma melodia muito simples que você conheça bem.

Descubra seu tom.

Monte o campo harmônico.

Depois tente acompanhar a melodia utilizando inicialmente apenas:

I – IV – V.

Se estiver em Dó maior:

C – F – G.

Escute onde cada acorde parece funcionar.

Depois acrescente:

Am.

Faça novamente.

Esse exercício começa a desenvolver uma habilidade fundamental:

ouvir a relação entre melodia e harmonia.

Não procure apenas decorar progressões

É tentador decorar:

I–V–vi–IV

ou:

I–IV–V–I.

Isso é útil.

Mas tente também perceber:

por que determinada troca funciona?

qual nota da melodia está naquele momento?

qual sensação o novo acorde produz?

É isso que gradualmente permite sair de:

“sei tocar algumas sequências”

para:

“consigo harmonizar uma melodia”.

Cifrar é uma habilidade que melhora com a prática

No começo, você pode levar bastante tempo para encontrar três ou quatro acordes.

Depois começa a reconhecer padrões.

Você canta determinada passagem e já imagina:

“aqui talvez funcione a dominante.”

Ou percebe que uma frase parece pedir:

o relativo menor.

Isso não acontece porque alguém decorou todas as músicas possíveis.

Acontece porque o ouvido começa a reconhecer relações harmônicas.

Do cantar para uma música acompanhada

Podemos resumir todo o processo assim:

letra

↓

melodia cantada

↓

identificação das notas principais

↓

tonalidade

↓

campo harmônico

↓

acordes candidatos

↓

teste com a melodia

↓

sequência harmônica

↓

cifra

↓

música acompanhada.

É justamente essa passagem que pode parecer misteriosa para quem compôs suas primeiras músicas.

Mas ela pode ser aprendida.

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