Quanto de corrente consome um receptor de rádio controle com servos e ESC?

Quando montamos um sistema de rádio controle, normalmente prestamos muita atenção à tensão da bateria. Verificamos se o receptor trabalha com determinada tensão, se o servo é compatível e se o ESC pode ser ligado à bateria escolhida.

Mas existe outra grandeza igualmente importante:

a corrente elétrica.

Tensão e corrente não são a mesma coisa.

E uma maneira muito interessante de compreender essa diferença é fazer uma experiência prática: medir quanto de corrente um receptor realmente consome quando outros componentes estão ligados a ele.

Foi justamente esse o objetivo do teste apresentado nesta página: medir o consumo de um receptor de rádio controle com um ESC e dois servos conectados.

Tensão e corrente são grandezas diferentes

Podemos ter uma alimentação com a tensão correta e, mesmo assim, ela não ser adequada ao circuito.

Por quê?

Porque a fonte também precisa conseguir fornecer a corrente exigida pelo conjunto.

Essa diferença é fundamental.

Podemos pensar inicialmente:

tensão → condição elétrica aplicada ao circuito

corrente → fluxo de carga elétrica que circula pelo circuito

Uma fonte precisa fornecer a tensão apropriada e possuir capacidade suficiente para atender à corrente exigida pela carga.

O receptor sozinho não representa todo o consumo

Se pesquisarmos o consumo de um receptor de rádio controle isoladamente, podemos encontrar um valor relativamente pequeno.

Mas dificilmente utilizaremos o receptor completamente sozinho.

Em um modelo real podemos conectar:

servos;

ESC;

sistemas de iluminação;

outros acessórios.

É por isso que medir somente o receptor não necessariamente representa aquilo que acontecerá durante a utilização.

No teste temos receptor, ESC e servos

A experiência desta página utiliza um conjunto bastante próximo de uma instalação encontrada no modelismo.

Temos:

receptor + ESC + dois servos.

A pergunta é simples:

qual será o consumo final desse conjunto?

A própria página destaca que conhecer esse resultado permite dimensionar melhor a alimentação, especialmente quando pensamos em utilizar uma bateria ou fonte cuja capacidade de fornecer corrente seja menor.

Por que os servos fazem tanta diferença?

Um servo não é apenas um pequeno circuito eletrônico.

Dentro dele existe um motor elétrico.

Além do motor, normalmente encontramos:

engrenagens;

sensor de posição;

circuito eletrônico de controle.

Quando enviamos um comando pelo transmissor, o receptor fornece ao servo a informação correspondente à posição desejada.

O circuito interno do servo compara essa posição com sua posição atual e aciona o motor para realizar o movimento.

Portanto, movimentar um servo significa também alimentar um pequeno motor.

O consumo de um servo não é constante

Esse detalhe é muito importante.

Um servo parado e praticamente sem carga pode consumir relativamente pouca corrente.

Quando começa a se movimentar, a situação muda.

Quando precisa fazer força, muda novamente.

Podemos ter:

servo parado → determinado consumo

servo movimentando → consumo maior

servo sob carga → consumo ainda maior

Por isso não existe um único número que represente o consumo de qualquer servo em qualquer situação.

Dois ou três servos também não significam simplesmente multiplicar um valor fixo

Imagine três servos instalados em um aeromodelo.

Em determinado momento apenas um está se movimentando.

Em outro, os três podem estar atuando simultaneamente.

Além disso, cada um pode estar submetido a uma carga diferente.

O consumo total é dinâmico.

Essa é uma das razões pelas quais uma medição prática é tão interessante.

O servo pode consumir muito mais quando faz força

Imagine um servo movimentando o leme de um barco.

Com o barco parado, pode existir pouca resistência sobre o leme.

Agora coloque o barco navegando.

A água exerce força sobre a superfície do leme.

O servo precisa produzir torque para movimentá-lo.

Esse esforço mecânico exige energia.

E isso aparece eletricamente como uma alteração na corrente.

Um servo travado representa uma situação crítica

Agora imagine uma situação ainda mais extrema.

O servo recebe o comando para movimentar-se, mas alguma coisa impede mecanicamente seu movimento.

Pode existir:

um batente;

uma haste mal ajustada;

uma peça presa;

um mecanismo emperrado.

O motor interno continua tentando atingir a posição comandada.

Nessa condição, a corrente pode aumentar bastante.

Além de aumentar o consumo, isso pode provocar aquecimento e danificar o servo ou sobrecarregar sua alimentação.

Por isso a mecânica também interfere na elétrica

Esse é um excelente exemplo de como diferentes áreas se encontram no modelismo.

Uma haste mal instalada parece inicialmente um problema mecânico.

Mas ela pode fazer o servo trabalhar constantemente sob esforço.

Isso aumenta a corrente.

O aumento da corrente pode sobrecarregar o BEC.

A tensão pode cair.

E essa queda pode afetar o receptor.

Portanto:

problema mecânico → maior esforço → maior corrente → possível problema elétrico.

Onde entra o ESC?

ESC significa Electronic Speed Controller, ou controlador eletrônico de velocidade.

Ele recebe um comando proveniente do receptor e controla a potência fornecida ao motor.

Podemos imaginar:

transmissor → receptor → ESC → motor

Quando movimentamos o comando de aceleração no transmissor, o receptor envia a informação correspondente ao ESC.

O ESC então controla o motor.

O motor principal não é alimentado diretamente pelo receptor

Essa distinção é importante.

Um motor de propulsão pode consumir vários ampères ou até dezenas de ampères, dependendo do modelo.

Essa corrente não deve simplesmente atravessar o pequeno circuito do receptor.

O ESC faz a interface entre:

o sinal de controle

e

o circuito de potência.

Assim, o receptor informa aquilo que queremos fazer, enquanto o ESC controla a energia fornecida pela bateria ao motor.

Alguns ESCs possuem BEC

Muitos ESCs utilizados no modelismo também possuem um circuito conhecido como BEC — Battery Eliminator Circuit.

O BEC permite obter uma tensão apropriada para alimentar componentes como:

receptor;

servos.

Dessa forma, podemos utilizar a bateria principal do modelo e evitar, em determinadas configurações, uma segunda bateria exclusivamente para o receptor.

Podemos visualizar o sistema

Uma configuração típica pode ser entendida assim:

Bateria → ESC → Motor

e simultaneamente:

Bateria → BEC → Receptor → Servos

O ESC recebe também o sinal de controle proveniente do receptor.

Esse pequeno diagrama ajuda a perceber que existem simultaneamente caminhos de alimentação e caminhos de controle.

A capacidade de corrente do BEC é importante

Imagine que o BEC forneça exatamente a tensão exigida pelos servos.

Ainda falta uma pergunta:

quanta corrente ele consegue fornecer?

Se temos vários servos, precisamos garantir que o BEC consiga alimentar o conjunto inclusive durante situações de maior demanda.

Não basta verificar apenas a tensão.

O que acontece se a alimentação não conseguir fornecer a corrente necessária?

Dependendo do sistema, podemos observar:

queda de tensão;

servos funcionando inadequadamente;

comportamento instável;

reinicialização do receptor;

aquecimento da alimentação.

Em um modelo controlado remotamente, uma falha de alimentação do receptor pode significar perda de controle.

Por isso dimensionar corretamente a alimentação é uma questão de confiabilidade.

Como medir a corrente com o multímetro?

Para medir corrente precisamos utilizar o multímetro de maneira diferente daquela utilizada para medir tensão.

Quando medimos tensão, colocamos normalmente o instrumento em paralelo.

Para medir corrente, o instrumento precisa ser colocado em série com o circuito.

Conceitualmente:

alimentação → multímetro → circuito

A corrente que alimenta o circuito precisa passar pelo instrumento.

Nunca coloque o amperímetro diretamente entre os polos da bateria

Esse é um cuidado muito importante.

Quando o multímetro está configurado para medir corrente, sua entrada apresenta características muito diferentes daquelas utilizadas na medição de tensão.

Se colocarmos o instrumento diretamente entre o positivo e o negativo da fonte como fazemos em uma medição de tensão, podemos provocar um curto-circuito.

Isso pode:

queimar o fusível do multímetro;

danificar o instrumento;

aquecer fios;

danificar a bateria;

criar uma situação perigosa.

Portanto:

tensão → paralelo

corrente → série

Verifique também a entrada utilizada no multímetro

Muitos multímetros possuem diferentes conectores para a ponta vermelha.

Podemos encontrar:

V/Ω

mA

10 A

ou configurações semelhantes.

Antes de medir corrente, verifique:

a entrada correta;

a escala;

o limite do instrumento.

Se não conhecemos aproximadamente o consumo esperado, precisamos ter ainda mais cuidado para não ultrapassar a capacidade da entrada selecionada.

Uma experiência interessante é montar o sistema progressivamente

Podemos aprender bastante fazendo várias medições.

Primeiro:

receptor sozinho

Depois:

receptor + 1 servo

Depois:

receptor + 2 servos

Depois:

receptor + ESC

E finalmente:

conjunto completo.

Assim conseguimos observar o efeito provocado pela inclusão de cada componente.

Depois movimente os servos

Não fique apenas observando o valor com tudo parado.

Movimente um servo.

Observe o multímetro.

Movimente outro.

Faça movimentos simultâneos.

Você provavelmente perceberá que a corrente não permanece exatamente igual.

Essa variação é parte do comportamento normal de cargas eletromecânicas.

Corrente média e corrente de pico são diferentes

Essa diferença é fundamental para dimensionar uma alimentação.

Imagine que um conjunto consuma relativamente pouca corrente durante a maior parte do tempo.

Por alguns instantes, entretanto, dois ou três servos movimentam-se simultaneamente e exigem uma corrente muito maior.

Temos então:

consumo médio

e

picos de consumo.

A bateria, o BEC, os fios e os conectores precisam lidar adequadamente com essas condições.

Capacidade da bateria e corrente disponível também são conceitos diferentes

Uma bateria pode apresentar uma especificação em:

mAh

e outra relacionada à corrente que consegue fornecer.

Os mAh estão associados à capacidade.

Eles ajudam a estimar durante quanto tempo determinada bateria pode alimentar uma carga.

Mas isso não significa que duas baterias com a mesma capacidade apresentem necessariamente o mesmo comportamento sob cargas elevadas.

Um exemplo simples de autonomia

Imagine, apenas para compreender o conceito, uma bateria de:

2000 mAh

alimentando continuamente um circuito que consome:

500 mA.

Em uma situação idealizada:

2000 ÷ 500 = 4 horas.

Na prática, diversos fatores fazem com que a autonomia real seja diferente.

Além disso, no caso dos servos, o consumo varia constantemente.

Mesmo assim, a conta ajuda a compreender a relação entre capacidade e consumo.

Uma bateria com muita capacidade de corrente não “empurra” toda essa corrente para o receptor

Essa é uma dúvida bastante comum.

Imagine uma fonte capaz de fornecer 10 A.

Isso não significa que ela obrigará um receptor a consumir 10 A.

O circuito consome a corrente correspondente às suas características e às condições de funcionamento, desde que a alimentação esteja correta.

A capacidade da fonte indica aquilo que ela pode fornecer, não aquilo que obrigatoriamente será entregue à carga.

A tensão, entretanto, precisa ser compatível

Esse ponto não pode ser confundido.

Ter uma fonte capaz de fornecer muita corrente pode ser perfeitamente normal.

Aplicar uma tensão acima daquela suportada pelo equipamento pode danificá-lo.

Portanto, ao escolher a alimentação precisamos verificar pelo menos:

tensão correta;

capacidade de corrente suficiente.

Fios também possuem resistência

Quando a corrente aumenta, fios e conectores passam a ter ainda mais importância.

Um fio muito fino ou um conector com mau contato pode produzir queda de tensão.

Essa queda pode parecer pequena em condições de baixo consumo.

Quando vários servos entram em funcionamento simultaneamente, entretanto, o problema pode se tornar mais evidente.

Conectores ruins também podem aquecer

Uma conexão elétrica apresenta alguma resistência.

Se essa resistência for excessiva e houver corrente significativa, podemos ter dissipação de potência na conexão.

Isso aparece como aquecimento.

Portanto, se um conector estiver aquecendo excessivamente durante a utilização, existe algo que merece investigação.

Medir ajuda a dimensionar a alimentação

Esse é justamente o ponto principal da experiência original.

Conhecer o consumo do conjunto permite pensar de maneira muito mais objetiva sobre a fonte ou bateria que será utilizada. A própria página destaca que essa informação é interessante quando precisamos alimentar o sistema utilizando uma bateria com menor capacidade de fornecimento de corrente.

Sem medir, podemos apenas imaginar.

Com a medição, começamos a trabalhar com números.

Não existe um valor universal

A experiência apresentada no vídeo mostra o comportamento daquele conjunto específico.

Não devemos transformar o resultado em uma regra dizendo:

“todo receptor com dois servos consome exatamente isso.”

O consumo depende de:

modelo do receptor;

tipo de servo;

quantidade de servos;

tensão;

carga mecânica;

movimentação;

BEC;

outros acessórios.

Por isso o procedimento de medição é mais importante do que decorar um único número.

O próprio título e o teste mostram uma diferença interessante

Embora o título da página mencione um receptor com 3 servos, o texto publicado descreve explicitamente o teste como um receptor no qual serão ligados um ESC e dois servos.

Para compreender corretamente o experimento, portanto, é melhor considerar aquilo que efetivamente está descrito no conteúdo e observar no vídeo a configuração utilizada durante a medição.

O rádio controle pode virar um laboratório de eletrônica

Um sistema aparentemente simples permite estudar:

tensão;

corrente;

potência;

baterias;

motores;

servos;

reguladores;

BEC;

ESC;

multímetro.

Em vez de estudar esses conceitos apenas separadamente, conseguimos observar como eles aparecem juntos em uma aplicação real.

O mais importante é medir

Quer saber quanto o receptor consome?

Meça.

Quer saber quanto muda quando conecta um servo?

Meça.

Quer descobrir o que acontece quando os servos se movimentam?

Meça.

Quer dimensionar melhor a alimentação?

Meça.

Essa mudança de atitude é muito importante para quem aprende eletrônica.

Deixamos de perguntar apenas:

“Será que funciona?”

e começamos a perguntar:

“O que está acontecendo eletricamente?”

Quer aprender eletrônica usando o rádio controle como laboratório?

Uma experiência simples como medir o consumo de um receptor rapidamente leva a conceitos fundamentais:

Qual é a diferença entre tensão e corrente?

Por que o servo consome mais quando faz força?

Como medir corrente com o multímetro?

O que é um ESC?

O que é BEC?

Como dimensionar uma bateria?

Por que uma alimentação inadequada pode fazer o receptor reiniciar?

No Método 7H RC, a proposta é justamente aprender elétrica e eletrônica através de experiências relacionadas ao aeromodelismo, automodelismo e nautimodelismo.

Em vez de apenas conectar bateria, receptor, servo e ESC seguindo um desenho pronto, você começa a compreender o que cada componente faz, como a energia circula pelo sistema e como utilizar instrumentos para descobrir aquilo que realmente está acontecendo.

É justamente quando começamos a medir que o rádio controle deixa de ser apenas um conjunto de componentes conectados e passa a se transformar em uma verdadeira bancada de eletrônica.

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