Quando estamos construindo um barco de modelismo, chega um momento em que o casco e a parte mecânica já estão praticamente resolvidos, mas ainda falta aquilo que realmente começa a dar personalidade ao modelo: os pequenos detalhes.
São:
faróis;
corrimãos;
antenas;
escadas;
chaminés;
guinchos;
boias;
radares;
grades;
suportes;
tubulações;
e muitos outros pequenos acessórios.
No modelismo, esses elementos são frequentemente chamados de fittings.
E existe uma maneira muito interessante de conseguir materiais para construí-los:
olhar para objetos comuns com olhos de modelista.
O que são fittings?
A palavra inglesa fittings pode ser traduzida, dependendo do contexto, como acessórios, peças ou elementos de acabamento.
No nautimodelismo, utilizamos o termo para designar muitos daqueles pequenos componentes que transformam uma estrutura simples em algo parecido com uma embarcação real.
Um rebocador sem detalhes pode parecer apenas um casco com uma cabine.
Quando acrescentamos:
corrimãos;
faróis;
antenas;
escadas;
guinchos;
chaminé;
equipamentos de convés,
o modelo começa a ganhar outra aparência.
Você não precisa comprar todos os fittings prontos
Existem acessórios comerciais excelentes para modelismo.
Mas construir os próprios fittings possui várias vantagens.
Podemos adaptar exatamente às dimensões do nosso modelo.
Podemos criar peças que não encontramos prontas.
E, principalmente, podemos utilizar materiais extremamente baratos que normalmente seriam descartados.
Essa é justamente a ideia que apresento nesta página: muitos objetos que iriam para o lixo podem ganhar uma finalidade completamente diferente dentro de um barco de modelismo.
Uma tampinha de refrigerante pode virar um farolete
Esse é um ótimo exemplo.
Quando olhamos para uma tampinha apenas como uma tampinha, ela serve para fechar uma garrafa.
Mas experimente olhar para ela pensando:
“Que peça de um barco possui aproximadamente esse formato?”
Dependendo da escala, podemos descobrir uma nova utilização.
No artigo original dou justamente o exemplo de uma tampinha de refrigerante que pode se transformar em parte de um farolete.
Podemos:
pintar a tampinha;
colocar um LED dentro;
fazer um pequeno suporte de arame;
instalar o conjunto no barco.
Pronto.
Aquilo que iria para o lixo acaba de se transformar em um fitting.
Esse é o verdadeiro segredo: enxergar a forma, não a função original
Quando encontramos um objeto, normalmente pensamos automaticamente na finalidade para a qual ele foi fabricado.
Uma tampa é uma tampa.
Um pedaço de arame é um pedaço de arame.
Uma caneta é uma caneta.
Uma embalagem é uma embalagem.
Para construir fittings, precisamos mudar esse raciocínio.
Em vez de perguntar:
“Para que isso foi fabricado?”
pergunte:
“Com o que isso se parece?”
Essa pequena mudança abre uma quantidade enorme de possibilidades.
Olhe primeiro para o barco que deseja reproduzir
No artigo original proponho um procedimento bastante simples.
Primeiro, observe a planta ou uma fotografia do modelo que está construindo.
Não procure materiais aleatoriamente.
Escolha uma peça.
Por exemplo:
preciso construir um farol.
Agora observe atentamente o farol da embarcação real.
Qual é seu formato?
É cilíndrico?
Possui uma base?
Existe uma pequena cobertura?
Como é o suporte?
Qual seria aproximadamente seu tamanho na escala do modelo?
Depois procure um objeto com formato semelhante
Agora podemos começar a procurar.
Talvez uma pequena tampa possua o diâmetro correto.
Talvez um pedaço de tubo sirva para a base.
Talvez um pedaço de arame possa formar o suporte.
Talvez uma pequena arruela possa fazer parte do acabamento.
E um LED pode transformar o conjunto em um farol realmente funcional.
Assim, uma única peça pode ser construída utilizando materiais provenientes de objetos completamente diferentes.
Lojas de bricolagem são excelentes para isso
Uma das sugestões do artigo original é justamente visitar lojas de materiais de bricolagem e acessórios para casa.
Mas existe uma diferença importante na maneira de visitar essas lojas.
Não vá apenas procurando:
“peças para nautimodelismo”.
Provavelmente você encontrará muito pouco.
Caminhe pelos corredores observando os objetos e pensando no seu projeto.
Entre na loja com “olhos de inventor”
Essa é exatamente a expressão que utilizo no artigo.
Depois de identificar o acessório que precisa construir, passe pelos corredores procurando alguma coisa que possa assumir aquela função, olhando os produtos com olhos de inventor.
É um exercício extremamente interessante.
Você começa a olhar para:
parafusos;
buchas;
tubos;
arruelas;
telas;
molas;
arames;
cantoneiras;
conectores;
pequenos acessórios domésticos
de uma maneira completamente diferente.
Uma arruela não precisa continuar sendo apenas uma arruela
Imagine uma pequena arruela metálica.
Em uma oficina ela foi fabricada para ser utilizada com um parafuso.
No modelismo ela pode se transformar em:
base de um equipamento;
aro;
acabamento circular;
parte de uma escotilha;
detalhe de um guincho.
Tudo depende da escala e daquilo que estamos tentando reproduzir.
Arames são extremamente úteis
Poucos materiais são tão versáteis para fittings quanto o arame.
Com diferentes espessuras podemos construir:
corrimãos;
escadas;
antenas;
suportes;
alças;
grades;
estruturas;
tubulações aparentes.
Além disso, determinados metais podem ser soldados, permitindo construir estruturas relativamente complexas.
Tubos também oferecem inúmeras possibilidades
Tubos finos podem ser encontrados em diferentes materiais e diâmetros.
Eles podem ajudar na construção de:
chaminés;
mastros;
escapamentos;
canos;
eixos;
suportes;
estruturas telescópicas.
Um pequeno pedaço que parece completamente sem importância pode ser exatamente aquilo que faltava no modelo.
Canetas podem fornecer excelentes materiais
Uma caneta esferográfica possui várias partes interessantes.
Temos:
corpo plástico;
tubo interno;
ponta metálica;
mola em alguns modelos;
tampa.
Depois que deixamos de enxergá-la apenas como uma caneta, aparecem vários materiais para pequenos projetos.
O corpo pode fornecer pequenos tubos.
Uma mola pode fazer parte de um mecanismo.
Partes metálicas podem servir como acabamento.
Embalagens também podem fornecer chapas
Algumas embalagens plásticas possuem regiões planas que podem ser cortadas.
Dependendo da espessura, podemos utilizá-las para fabricar:
pequenos painéis;
portas;
bases;
caixas;
divisórias;
detalhes de cabine.
O material praticamente não custa nada porque já estava destinado ao descarte.
Sucata eletrônica também pode ser interessante
Quem trabalha com eletrônica provavelmente possui uma caixa cheia de peças retiradas de equipamentos antigos.
Ali podemos encontrar:
engrenagens;
motores;
LEDs;
fios;
conectores;
parafusos;
molas;
pequenos eixos;
chapas;
suportes.
Algumas dessas peças podem ser utilizadas diretamente.
Outras podem servir apenas como matéria-prima.
LEDs são excelentes para iluminação de barcos
Quando construímos um farol utilizando materiais reaproveitados, podemos acrescentar um LED.
Isso permite criar:
luzes de navegação;
faróis;
iluminação de cabine;
luzes de convés;
luzes de sinalização.
Além de melhorar bastante a aparência do modelo, a iluminação acrescenta eletrônica ao projeto.
Não ligue o LED diretamente à bateria sem dimensionar o circuito
Se resolver transformar um fitting em uma iluminação funcional, precisamos considerar a parte elétrica.
Um LED normalmente precisa de algum método adequado de limitação de corrente.
Uma configuração básica pode envolver:
alimentação → resistor → LED
O valor do resistor depende da tensão disponível e das características do LED.
Assim, aquilo que começou como um trabalho de acabamento também se transforma em uma oportunidade para aprender eletrônica.
O tamanho do objeto depende da escala
Uma tampinha pode funcionar perfeitamente como farol em determinado barco e ficar completamente desproporcional em outro.
Por isso é importante observar a escala.
Imagine que determinado objeto real possua:
60 cm de diâmetro.
Se o barco estiver na escala 1:20:
60 ÷ 20 = 3 cm.
Então procuramos alguma coisa próxima de 3 cm.
Agora nossa busca deixa de ser subjetiva.
Temos uma dimensão aproximada.
O paquímetro é excelente para esse trabalho
Quando começamos a construir peças pequenas, o paquímetro se torna uma ferramenta extremamente útil.
Podemos medir:
diâmetros externos;
diâmetros internos;
espessuras;
profundidades;
comprimentos.
Encontrou uma pequena tampa?
Meça.
Encontrou um tubo?
Meça.
Compare com a dimensão necessária na escala do modelo.
Isso evita depender apenas da impressão visual.
Uma fotografia também pode servir como referência
Nem sempre temos uma planta completa da embarcação.
Podemos trabalhar a partir de fotografias.
Se conhecemos a dimensão de algum elemento presente na imagem, podemos tentar estimar proporcionalmente o tamanho de outros componentes.
Não será necessariamente uma reprodução absolutamente precisa, mas pode produzir uma referência muito melhor do que simplesmente construir tudo “no olho”.
Observe barcos reais
Outra excelente fonte de ideias são as próprias embarcações.
Quando tiver oportunidade, observe:
como os corrimãos são construídos;
como os faróis são presos;
onde ficam as antenas;
como são os guinchos;
como aparecem as tubulações;
como são as portas;
como são as escadas.
Fotografe detalhes.
Depois tente imaginar como reproduzi-los em miniatura.
Não procure apenas objetos iguais
Esse é outro ponto importante.
Você provavelmente não encontrará em uma loja de bricolagem uma peça exatamente igual ao radar do seu rebocador.
Mas talvez encontre três objetos diferentes que, combinados, formem um radar convincente.
Essa é a essência da construção artesanal.
Podemos ter:
base + eixo + disco + suporte
e cada elemento vir de um lugar completamente diferente.
A pintura unifica os materiais
Antes da pintura, um fitting artesanal pode parecer uma coleção estranha de sucatas.
Uma parte é branca.
Outra transparente.
Outra metálica.
Outra veio de uma embalagem.
Depois de:
lixar;
aplicar primer quando necessário;
pintar;
fazer o acabamento,
as peças começam a parecer um único objeto.
A pintura ajuda a esconder a origem dos materiais.
O acabamento faz enorme diferença
Um pequeno fitting pode ser construído com materiais muito simples e ainda assim apresentar um ótimo resultado.
O segredo muitas vezes está no acabamento.
Remova:
rebarbas;
marcas de corte;
excesso de cola;
irregularidades.
Faça os ajustes antes de pintar.
Quanto menor a peça, mais visível pode ficar uma imperfeição quando observada de perto.
Não descarte pequenos pedaços imediatamente
Quem constrói modelos começa a desenvolver um hábito curioso.
Um pequeno pedaço de tubo pode não servir para o projeto atual.
Mas talvez seja perfeito para outro projeto daqui a alguns meses.
Vale manter uma pequena organização de materiais.
Por exemplo:
tubos
arames
chapas
peças plásticas
engrenagens
parafusos
componentes eletrônicos
Assim fica muito mais fácil encontrar alguma coisa quando surgir uma necessidade.
Mas não transforme a oficina em depósito de lixo
Existe uma diferença entre guardar materiais potencialmente úteis e guardar absolutamente tudo.
Pergunte:
O material é fácil de trabalhar?
Possui formato interessante?
É difícil de conseguir novamente?
Está limpo?
Tem dimensões úteis?
Se não existe nenhuma possibilidade razoável de utilização, provavelmente não precisamos guardá-lo.
Com o tempo você começa a fazer isso automaticamente
A própria página destaca que essa técnica melhora com a prática.
Depois de algum tempo, começamos a olhar para objetos cotidianos e imediatamente imaginar outras aplicações.
Você olha para uma embalagem e pensa:
“Isso daria uma ótima janela.”
Vê uma pequena tampa:
“Isso parece uma escotilha.”
Encontra um pedaço de tubo:
“Isso poderia virar uma chaminé.”
É quase um treinamento de criatividade aplicada.
O lixo de um projeto pode ser matéria-prima de outro
Restos da própria construção também podem ser reaproveitados.
Sobrou:
madeira balsa;
compensado;
plástico;
latão;
arame;
tubo;
fio elétrico?
Antes de jogar fora, veja se existem pequenos pedaços aproveitáveis.
Fittings geralmente são pequenos.
Um pedaço de material aparentemente inútil para construir o casco pode ser mais do que suficiente para fabricar vários detalhes.
Essa prática também reduz o custo do modelismo
Comprar cada pequeno acessório pronto pode aumentar bastante o custo de um modelo.
Construir parte deles permite concentrar o orçamento em componentes nos quais realmente vale investir.
Por exemplo:
rádio;
receptor;
motor;
ESC;
bateria;
servo.
Enquanto isso, muitos detalhes estéticos podem ser construídos artesanalmente com materiais muito baratos.
Mas o principal benefício talvez nem seja financeiro
Existe uma satisfação diferente quando olhamos para o barco terminado e sabemos:
“Eu construí esse farol.”
“Eu fiz esse corrimão.”
“Esse radar veio de peças que adaptei.”
O modelo passa a carregar soluções que você mesmo desenvolveu.
Dificilmente existirão dois barcos exatamente iguais.
A construção de fittings é também um exercício de solução de problemas
O processo normalmente começa com:
“Preciso construir esta peça.”
Depois:
“Qual é a geometria dela?”
“Qual tamanho preciso?”
“Que material posso utilizar?”
“Como vou cortar?”
“Como vou unir as partes?”
“Como vou pintar?”
Isso é projeto.
Mesmo sendo um pequeno acessório de modelismo, estamos praticando uma forma de raciocínio muito próxima daquela utilizada em desenvolvimento de produtos e prototipagem.
Podemos até combinar técnicas tradicionais com impressão 3D
Hoje existe ainda outra possibilidade.
Uma peça muito complexa pode ser desenhada e impressa em 3D.
Mas isso não elimina o reaproveitamento.
Podemos combinar:
peça impressa + arame + tubo + LED + material reaproveitado.
A impressão 3D passa a ser apenas mais uma ferramenta disponível.
Nem tudo precisa ser impresso.
Às vezes uma pequena tampa já possui exatamente o formato que levaríamos meia hora para desenhar.
Faça primeiro um protótipo
Se estiver construindo um fitting mais complicado, não tenha medo de fazer uma primeira versão.
Talvez ela fique:
grande demais;
pequena demais;
frágil;
desproporcional.
Faça outra.
Como estamos utilizando materiais de baixo custo, podemos experimentar bastante.
Isso faz parte do processo.
Um bom exercício: escolha apenas um detalhe do barco
Pegue uma fotografia da embarcação que está construindo.
Escolha um único elemento.
Por exemplo:
um farol.
Observe sua forma.
Calcule aproximadamente seu tamanho.
Depois procure em casa e em uma loja de bricolagem objetos que poderiam fornecer as partes necessárias.
Não procure um farol pronto.
Procure:
formas.
Essa diferença é fundamental.
Depois faça o mesmo com outro fitting
Quando terminar o farol, escolha:
uma antena;
um corrimão;
uma escada;
um guincho;
uma chaminé.
A cada peça construída, sua capacidade de identificar materiais melhora.
É exatamente esse processo que descrevo no conteúdo original: observar a planta ou fotografia, identificar o acessório necessário e depois procurar materiais pensando como um inventor.
Construir o detalhe pode ser tão divertido quanto construir o barco
Em alguns projetos, a construção do casco termina relativamente rápido.
Depois passamos muito mais tempo nos detalhes.
É justamente nessa fase que o barco começa a ganhar identidade.
Um rebocador, por exemplo, oferece uma quantidade enorme de possibilidades:
guinchos;
cabos;
defensas;
radares;
luzes;
escadas;
corrimãos;
chaminés;
equipamentos de convés.
Cada pequeno componente pode se transformar em um projeto dentro do projeto.
Veja no vídeo outras ideias para conseguir materiais
No vídeo desta página mostro outras dicas relacionadas justamente à procura e ao reaproveitamento de materiais para a construção dos fittings. A ideia central é bastante simples: observe aquilo que precisa construir e depois procure objetos que possam assumir uma nova função dentro do modelo.
Não precisamos necessariamente encontrar uma loja especializada em nautimodelismo.
Muitas vezes o material de que precisamos está em uma loja de bricolagem, dentro de uma gaveta ou até mesmo em algo que estávamos prestes a jogar fora.
Antes de jogar alguma coisa fora, olhe novamente
Talvez essa seja a melhor regra para quem gosta de construir modelos.
Pegue o objeto.
Observe sua forma.
Olhe suas partes.
Imagine-o pintado.
Imagine-o cortado.
Imagine apenas um pequeno pedaço dele.
E pergunte:
“Isso poderia virar alguma coisa no meu barco?”
Uma tampinha de refrigerante pode virar um farolete. Um pedaço de arame pode se transformar no suporte. E um LED pode fazer o conjunto realmente acender. Esse exemplo simples resume muito bem a ideia apresentada no artigo original.
Quer aprender eletrônica enquanto constrói seus próprios barcos de rádio controle?
A construção artesanal dos fittings pode ir muito além da estética.
Um farol pode receber um LED.
Um radar pode ser movimentado por um pequeno motor.
Luzes podem ser acionadas pelo rádio controle.
Uma bomba pode produzir um jato d’água.
De repente, aquele pequeno detalhe construído com sucata começa a envolver:
LEDs, resistores, motores, transistores, alimentação e controle remoto.
Assim, você não precisa apenas comprar acessórios prontos e instalá-los. Pode começar a entender como construir, adaptar e até transformar seus próprios fittings em partes funcionais do modelo.
E tudo pode começar com uma simples pergunta:
antes de jogar isso fora, será que consigo transformar em alguma coisa para o meu barco?