O C-115 Buffalo é uma daquelas aeronaves que chamam atenção imediatamente pelo formato. Com asa alta, dois motores turboélice e uma fuselagem robusta, ele foi projetado para cumprir uma função bastante específica: transportar pessoas e cargas e operar em locais onde outras aeronaves encontrariam dificuldades.
Na Força Aérea Brasileira (FAB), o C-115 teve uma história particularmente importante. O Brasil adquiriu 24 aeronaves entre 1968 e 1970, tornando-se o maior operador do modelo. O avião foi amplamente utilizado na região amazônica, justamente um ambiente no qual sua capacidade de operar em pistas curtas representava uma grande vantagem.
As fotografias deste artigo mostram um desses aviões preservados no Museu Aeroespacial (MUSAL).
O que era o C-115 Buffalo?
O C-115 era a designação utilizada pela FAB para o de Havilland Canada DHC-5 Buffalo, uma aeronave bimotora de transporte.
Sua aparência já fornece várias pistas sobre sua finalidade.
As asas estão posicionadas na parte superior da fuselagem, os dois motores turboélice ficam relativamente elevados em relação ao solo e existe uma grande fuselagem destinada ao transporte.
O avião podia operar com três tripulantes e transportar até 41 soldados, sendo utilizado em missões de transporte de tropas e cargas. Ao todo, foram produzidas 123 aeronaves para mais de vinte países.
Mas talvez sua característica mais interessante esteja relacionada ao lugar onde ele conseguia operar.
Uma aeronave capaz de pousar e decolar em pistas curtas
O Buffalo foi desenvolvido com características de STOL — Short Takeoff and Landing, expressão utilizada para aeronaves capazes de realizar decolagens e pousos utilizando distâncias relativamente curtas.
Isso é extremamente importante em uma aeronave de transporte.
Imagine a diferença entre transportar suprimentos somente entre grandes aeroportos e conseguir chegar a regiões atendidas por pistas menores.
Essa capacidade amplia enormemente as possibilidades operacionais.
E ajuda a entender por que o C-115 encontrou no Brasil um ambiente no qual suas características poderiam ser muito bem aproveitadas.
O C-115 e a região amazônica
A FAB utilizou amplamente o Buffalo na região amazônica.
Quando pensamos nas dimensões da Amazônia, fica mais fácil compreender a importância de uma aeronave com essas características.
Existem grandes distâncias e inúmeras localidades nas quais o transporte aéreo possui importância fundamental. Nem sempre estão disponíveis grandes aeroportos com longas pistas pavimentadas.
Nesse contexto, uma aeronave de transporte capaz de operar em pistas menores se torna particularmente útil.
O C-115 podia transportar pessoas, equipamentos e suprimentos, cumprindo justamente o tipo de missão para o qual havia sido concebido.
Por que a asa fica na parte superior?
Uma característica imediatamente visível no Buffalo é sua configuração de asa alta.
Isso não é simplesmente uma decisão estética.
Em uma aeronave de transporte, posicionar as asas na parte superior libera boa parte das laterais e da região inferior da fuselagem e também mantém os motores e hélices mais afastados do solo.
Para uma aeronave destinada a operar em condições menos convencionais, isso é particularmente interessante.
A configuração também contribui para que a fuselagem possa assumir a forma necessária para sua principal função: transportar.
Quando observamos aviões militares de transporte como o Buffalo e o C-130 Hercules, percebemos algumas soluções semelhantes justamente porque existem requisitos operacionais em comum.
A grande rampa traseira do Buffalo
Outro detalhe muito interessante, que aparece nas fotografias deste post, é a rampa localizada na parte traseira da aeronave.
Essa característica está diretamente relacionada à função de transporte.
Em vez de depender apenas de pequenas portas laterais, uma grande abertura traseira facilita as operações de carga e descarga.
É um ótimo exemplo de como a forma de uma aeronave é consequência de sua função.
Se o objetivo é transportar materiais e equipamentos, precisamos pensar não apenas no espaço interno disponível, mas também em como colocar e retirar aquilo que será transportado.
Dois motores turboélice
O Buffalo utiliza dois motores turboélice.
Nesse tipo de propulsão existe uma turbina a gás, mas grande parte da potência produzida é utilizada para movimentar uma hélice.
Para uma aeronave com as características operacionais do Buffalo, o sistema turboélice oferece uma combinação interessante entre potência e desempenho nas velocidades em que esse tipo de avião normalmente opera.
Para quem pratica aeromodelismo, existe ainda outro detalhe interessante:
o Buffalo é bimotor.
E reproduzir uma aeronave bimotora em escala introduz desafios que não aparecem da mesma maneira em um aeromodelo convencional com apenas um motor.
Como seria um C-115 Buffalo no aeromodelismo?
O formato do Buffalo torna a aeronave bastante interessante para uma reprodução rádio controlada.
Temos uma asa grande, fuselagem volumosa, dois motores e um desenho facilmente reconhecível.
Em uma versão elétrica, poderíamos ter dois conjuntos de propulsão:
bateria → distribuição elétrica → ESCs → motores → hélices
Além disso, precisaríamos alimentar o receptor e comandar os servos responsáveis pelas superfícies de controle.
É aí que um projeto aparentemente simples começa a exigir conhecimento de elétrica e eletrônica.
Um motor significa um sistema; dois motores aumentam o desafio
Em um aeromodelo elétrico com um único motor brushless, precisamos combinar adequadamente bateria, ESC, motor e hélice.
Em um bimotor, passamos a ter dois conjuntos de propulsão trabalhando simultaneamente.
Isso exige pensar na corrente total solicitada à bateria.
Imagine, apenas como exemplo, dois conjuntos consumindo 20 A cada um em determinada condição.
A bateria e a distribuição elétrica podem precisar lidar com aproximadamente 40 A naquele momento.
Não basta, portanto, escolher uma bateria simplesmente porque sua tensão é compatível com os motores.
Precisamos compreender também corrente, capacidade, potência, conectores e dimensionamento dos condutores.
Os ESCs também precisam ser dimensionados corretamente
Cada motor precisa receber um controle adequado.
Nos modelos elétricos brushless, isso normalmente significa utilizar um ESC — Electronic Speed Controller compatível com o motor e com a corrente exigida pelo conjunto motor/hélice.
O ESC não deve ser escolhido apenas pelo tamanho físico.
É necessário observar suas especificações elétricas.
E, quando temos dois motores, precisamos ainda pensar em como os dois controladores serão ligados ao receptor e como receberão alimentação.
Esse tipo de projeto mostra por que compreender as ligações é muito melhor do que simplesmente decorar onde cada plugue deve ser conectado.
E se um dos motores parar?
Existe uma situação particularmente interessante em aeronaves com dois motores.
Enquanto ambos produzem empuxos semelhantes, existe certo equilíbrio entre as forças.
Mas imagine que apenas um motor pare.
O outro continua produzindo empuxo de um lado da aeronave.
Surge então uma assimetria de empuxo, que tende a produzir um movimento de guinada.
No aeromodelismo, essa também é uma situação que merece atenção.
Ela mostra que os motores não servem apenas para fazer o avião avançar. A posição em que a força é aplicada também interfere no comportamento da aeronave.
O centro de gravidade continua sendo essencial
O C-115 possui uma fuselagem grande, e uma reprodução em escala pode oferecer bastante espaço para instalar equipamentos.
Isso não significa que os componentes possam ser colocados em qualquer lugar.
Bateria, ESCs, receptor e servos possuem massa.
E sua distribuição interfere diretamente no centro de gravidade do aeromodelo.
A bateria costuma ser especialmente importante porque pode representar uma parcela considerável da massa do conjunto.
Por isso, frequentemente sua posição é ajustada durante o balanceamento final.
Uma reprodução pode ficar visualmente perfeita e ainda assim apresentar um comportamento de voo inadequado se estiver incorretamente balanceada.
Observar o avião real ajuda a compreender o modelo
Uma das grandes vantagens de visitar um museu como o MUSAL é poder observar detalhes que dificilmente percebemos quando vemos uma aeronave apenas em fotografias distantes.
No C-115 podemos prestar atenção à:
- posição dos motores;
- proporção entre asa e fuselagem;
- empenagem;
- trem de pouso;
- formato das hélices;
- superfícies de controle;
- portas e acessos;
- rampa traseira.
Para quem constrói modelos em escala, esses detalhes podem servir como referência.
Mas mesmo para quem não pretende construir especificamente um Buffalo, observar uma aeronave real ajuda a compreender como diferentes soluções de engenharia estão relacionadas à finalidade do avião.
A cabine do C-115
As fotografias que fiz também permitem observar a cabine do Buffalo.
Comparada às cabines digitais das aeronaves atuais, uma cabine de uma aeronave dessa geração apresenta uma grande quantidade de instrumentos individuais.
Para quem gosta de eletrônica, isso também é interessante.
Velocidade, altitude, atitude, direção, funcionamento dos motores e várias outras informações precisam ser apresentadas à tripulação.
Hoje estamos acostumados a encontrar várias dessas informações reunidas em grandes displays digitais.
Em aeronaves mais antigas, boa parte delas era apresentada por instrumentos dedicados.
Fonte da informação: Musal – Museu Aeroespacial






O C-115 serviu à FAB durante décadas
As próprias fotografias e identificação existentes no post registram o período 1968–2007 associado ao C-115.
É um período bastante longo para uma aeronave.
Quando observamos hoje um Buffalo preservado em um museu, portanto, não estamos apenas olhando para uma máquina antiga.
Estamos diante de uma aeronave que representa parte da história da aviação de transporte brasileira e que teve uma relação especialmente importante com as operações realizadas na Amazônia.
Do avião real para a bancada
Para quem gosta de aeromodelismo, observar o C-115 também provoca naturalmente outra pergunta:
seria possível construir um Buffalo rádio controlado?
Claro que sim.
Mas aí começariam vários problemas interessantes para resolver.
Qual motor utilizar?
Qual hélice?
Qual ESC?
Qual bateria?
Como alimentar dois motores?
Como ligar os ESCs ao receptor?
Quais servos utilizar?
Como distribuir o peso?
Onde deverá ficar o centro de gravidade?
É justamente quando começamos a responder essas perguntas que o aeromodelismo deixa de ser simplesmente pilotar um avião e passa a envolver também eletrônica, elétrica, mecânica e experimentação.
Quer entender a eletrônica por trás dos seus modelos?
Você não precisa começar construindo um C-115 Buffalo bimotor.
Mas, quando entende como funcionam bateria, ESC, motor, BEC, receptor, servo e suas ligações, começa a ganhar autonomia para montar e modificar projetos cada vez mais interessantes.
Essa é justamente a proposta do Método 7H RC: compreender a elétrica e a eletrônica aplicadas ao rádio controle de maneira prática, relacionando os conceitos aos componentes que realmente encontramos nos modelos.
Se você quer deixar de apenas conectar componentes seguindo esquemas prontos e começar a entender como seus modelos funcionam, conheça o Método 7H RC.