Como Calibrar um Microamperímetro para Medir Tensão em Projetos Eletrônicos

Um microamperímetro analógico foi projetado originalmente para medir correntes muito pequenas. Mas, acrescentando o resistor correto ao circuito, podemos transformar esse instrumento em um voltímetro analógico e criar a escala de tensão mais adequada ao nosso projeto.

Esse é um princípio muito utilizado nos instrumentos analógicos: o mesmo movimento de ponteiro pode ser adaptado para diferentes faixas de medição.

No vídeo deste artigo mostro como podemos calibrar um microamperímetro para utilizá-lo na medição de tensão.

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O que é um microamperímetro?

O microamperímetro é um instrumento bastante sensível destinado a indicar correntes da ordem de microampères (µA).

Em um movimento analógico típico de bobina móvel, a corrente que atravessa a bobina produz um campo magnético que interage com o campo de um ímã permanente.

O resultado é o deslocamento do ponteiro.

De forma simplificada:

corrente → campo magnético → movimento da bobina → deslocamento do ponteiro

Existe uma determinada corrente capaz de levar o ponteiro até o final da escala. Ela é chamada de corrente de fundo de escala, ou full-scale deflection (FSD).

Como um instrumento que mede corrente pode medir tensão?

Aqui entra uma aplicação muito interessante da Lei de Ohm.

Sabemos que:

V = R × I

Se conhecemos a corrente necessária para levar o ponteiro ao fundo da escala, podemos colocar uma resistência em série de maneira que determinada tensão produza exatamente aquela corrente.

Assim:

tensão a medir → resistor em série → microamperímetro

O resistor limita a corrente que atravessa o delicado movimento do instrumento. Esse resistor é tradicionalmente chamado de resistor multiplicador.

Um exemplo deixa isso muito mais fácil

Imagine um microamperímetro de:

100 µA de fundo de escala

e queremos transformar o instrumento em um voltímetro de:

0 a 10 V

Precisamos fazer com que:

10 V → 100 µA → ponteiro no final da escala

Pela Lei de Ohm:

R = V / I

Portanto:

R = 10 / 0,0001

R = 100.000 Ω

ou:

R = 100 kΩ

Esse seria o valor total aproximado necessário para que 10 V produzissem 100 µA. Um exemplo técnico clássico chega justamente a 100 kΩ para um movimento de 100 µA utilizado em uma escala de 10 V.

Mas existe a resistência interna do instrumento

O cálculo anterior é uma aproximação.

A própria bobina do microamperímetro possui resistência.

Se quisermos fazer um cálculo mais preciso:

Rs = (V / Ifs) − Rm

onde:

Rs = resistor que adicionaremos em série
V = tensão desejada para o fundo da escala
Ifs = corrente de fundo de escala do instrumento
Rm = resistência interna do microamperímetro

Essa é a relação utilizada no projeto de voltímetros analógicos.

Podemos escolher praticamente qualquer escala?

Dentro dos limites do instrumento e do projeto, podemos criar diferentes faixas.

Por exemplo, o mesmo microamperímetro poderia ser utilizado para construir indicadores de:

0–5 V

0–10 V

0–15 V

0–20 V

0–30 V

O que muda principalmente é o valor do resistor multiplicador.

Isso é muito interessante quando queremos construir um instrumento dedicado para determinado equipamento.

Imagine uma fonte ajustável de 0 a 15 V.

Em vez de colocar um instrumento com escala genérica, podemos adaptar um microamperímetro para que:

0 no ponteiro = 0 V

e

final da escala = 15 V

Temos então um voltímetro especificamente calibrado para aquela fonte.

Como fazer a calibração na prática?

Podemos utilizar uma fonte DC ajustável e um multímetro digital como referência.

A ideia é aplicar tensões conhecidas e observar a posição do ponteiro.

Por exemplo:

TensãoPosição esperada numa escala de 0–10 V
0 V0%
2,5 V25%
5 V50%
7,5 V75%
10 V100%

Se o comportamento do instrumento for suficientemente linear, podemos construir uma nova escala sobre o mostrador.

Um procedimento de caracterização também pode começar determinando experimentalmente a corrente necessária para produzir a deflexão de fundo de escala, sempre usando uma resistência suficientemente alta para proteger o movimento.

Comece sempre com resistência alta

Esse cuidado é fundamental.

Um microamperímetro é um instrumento sensível.

Se o movimento foi projetado para atingir o fundo da escala com 100 µA e aplicarmos uma corrente muito maior diretamente na bobina, podemos danificá-lo.

Por isso, em uma calibração experimental:

comece com resistência elevada → aplique tensão baixa → observe o ponteiro → reduza/ajuste cuidadosamente

Nunca comece aplicando uma tensão diretamente nos terminais do microamperímetro.

Podemos utilizar um potenciômetro para encontrar o valor?

Sim. Esse é um método interessante para experimentação.

Podemos utilizar uma resistência fixa de proteção combinada com um potenciômetro adequado e ajustar gradualmente até obter a indicação desejada.

Depois:

ajustamos → medimos a resistência encontrada → substituímos por resistor(es) apropriado(s)

A resistência fixa de proteção é particularmente importante para impedir que um ajuste acidental do potenciômetro leve corrente excessiva ao instrumento. Procedimentos experimentais de calibração de movimentos analógicos recomendam começar sempre com resistência elevada justamente devido à sensibilidade desses mecanismos.

E se eu quiser várias escalas?

A ideia fica ainda mais interessante.

Podemos utilizar uma chave seletora e diferentes resistores:

posição 1 → 5 V

posição 2 → 10 V

posição 3 → 20 V

posição 4 → 50 V

Cada posição coloca um resistor multiplicador diferente em série com o mesmo movimento.

Esse é, essencialmente, um dos princípios utilizados nos multímetros analógicos tradicionais, nos quais diferentes resistores são selecionados para criar diferentes faixas de tensão.

E para medir corrente maior?

A solução é diferente.

Para transformar o movimento em voltímetro utilizamos:

resistor em série → multiplicador

Para aumentar sua faixa como amperímetro, utilizamos:

resistor em paralelo → shunt

O shunt desvia a maior parte da corrente para que apenas uma pequena parcela atravesse o sensível movimento do instrumento.

Essa diferença é muito importante:

medir tensão → resistor em série

medir corrente maior → resistor em paralelo

O voltímetro interfere no circuito?

Sim. Nenhum instrumento real é completamente invisível para o circuito que está medindo.

O voltímetro apresenta determinada resistência de entrada e, consequentemente, retira uma pequena corrente do circuito.

Quanto menor for a corrente de fundo de escala do movimento, maior pode ser a resistência utilizada para determinada faixa de tensão e menor tende a ser o efeito de carga sobre o circuito.

É uma das razões pelas quais movimentos muito sensíveis eram desejáveis nos bons voltímetros analógicos.

Atenção à polaridade

Em um movimento DC convencional também precisamos respeitar a polaridade.

Se conectarmos a tensão invertida, o ponteiro tentará deslocar-se no sentido contrário.

Portanto, identifique corretamente:

+ do instrumento

e

− do instrumento

antes de fazer a instalação definitiva.

Veja como calibrei o microamperímetro

No vídeo abaixo mostro na prática como calibrar um microamperímetro para utilizá-lo na medição de tensão em projetos eletrônicos.

Um ótimo exemplo de eletrônica fundamental

Esse pequeno projeto ensina muito mais do que simplesmente modificar um instrumento.

Partimos de:

microamperímetro

e aplicamos:

Lei de Ohm + resistor multiplicador + calibração

para chegar a:

voltímetro

É também uma ótima maneira de compreender como funcionam internamente muitos instrumentos analógicos.

Em vez de enxergarmos o mostrador apenas como uma caixa que “mede volts”, percebemos que por trás da escala existe um movimento sensível à corrente, acompanhado por componentes que condicionam essa corrente para representar a grandeza que queremos medir.

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