Quando olhamos para um brinquedo de controle remoto antigo, podemos imaginar que sua eletrônica era extremamente simples: apertar um botão para virar, outro para acelerar e pronto.
Mas nem sempre era assim.
Alguns equipamentos antigos já apresentavam soluções bastante interessantes, incluindo controle proporcional digital e até ajustes de trim.
No vídeo que acompanha este artigo, mostro justamente um desses controles antigos e alguns detalhes que revelam como a tecnologia utilizada em brinquedos RC já podia ser bem mais sofisticada do que parece.
O que significa controle remoto proporcional?
Para entender a diferença, imagine um controle simples no qual determinado comando possui apenas dois estados:
não acionado → acionado
Ao comandar a direção, por exemplo, as rodas poderiam simplesmente ir para uma posição predeterminada.
Em um sistema proporcional, a ideia é diferente.
O movimento do comando pode ser traduzido em diferentes posições do atuador:
pequeno movimento no controle → pequeno movimento no modelo
movimento maior → movimento maior
Isso proporciona um controle muito mais preciso.
Essa evolução foi extremamente importante no radiocontrole. Os primeiros sistemas RC utilizavam soluções bem mais rudimentares; sistemas proporcionais comerciais começaram a aparecer por volta de 1960 e se difundiram rapidamente durante a década.
Por que o controle proporcional faz tanta diferença?
Imagine controlar a direção de um carrinho.
Em um sistema não proporcional, podemos ter algo semelhante a:
centro → tudo para a esquerda → tudo para a direita
Já no proporcional:
centro → 10% → 20% → 30% → 40%…
Naturalmente, isso permite fazer correções muito mais suaves.
O mesmo princípio é fundamental em aeromodelos, barcos, automóveis e diversos outros veículos controlados por rádio.
O servo também é parte importante dessa história
Nos sistemas proporcionais, o servo tornou-se um componente fundamental.
Ele recebe um comando e movimenta seu eixo para uma posição correspondente.
Podemos representar:
movimento do stick → transmissor → receptor → servo → movimento mecânico
Nos servos tradicionais, existe ainda uma realimentação interna que permite comparar a posição desejada com a posição real do eixo. O potenciômetro interno participa desse processo de posicionamento.
É uma solução eletromecânica muito interessante.
E o que é o trim?
Agora chegamos a um detalhe muito legal encontrado nesse controle antigo: o trim.
Imagine um carrinho RC.
Você deixa o comando da direção exatamente no centro, mas percebe que o veículo insiste em puxar um pouco para a esquerda.
Não seria interessante precisar ficar segurando o comando ligeiramente para a direita o tempo inteiro.
É justamente aí que entra o trim.
Ele permite realizar um pequeno ajuste na posição neutra do comando.
Assim:
modelo puxando para esquerda → pequeno ajuste de trim → direção corrigida
O mesmo conceito é utilizado em aeromodelismo para corrigir pequenas tendências de movimento sem obrigar o piloto a manter continuamente uma correção no stick.
Trim não é a mesma coisa que direção
Essa diferença é importante.
O comando principal determina aquilo que queremos fazer naquele momento.
O trim realiza uma correção do ponto de referência.
Podemos imaginar:
stick = comando
trim = ajuste fino
É um recurso relativamente simples, mas que melhora bastante a experiência de controle.
E isso já existia há décadas
É justamente isso que considero interessante ao observar equipamentos antigos.
Algumas funções que hoje parecem absolutamente normais em um rádio RC possuem uma longa história.
O desenvolvimento dos sistemas proporcionais ganhou força nos anos 1960. Em 1975, por exemplo, transmissores de RC já incorporavam recursos como reversão de servo, ajuste de curso e dual rates. A evolução posteriormente levaria a transmissores computadorizados e aos sofisticados sistemas atuais.
Portanto, quando encontramos recursos de ajuste em um brinquedo antigo, estamos vendo uma tecnologia que foi gradualmente migrando e se tornando mais acessível.
Do modelismo sofisticado para os brinquedos
Existe uma trajetória tecnológica interessante aí.
Muitas soluções começaram em sistemas RC relativamente caros e sofisticados.
Com o desenvolvimento da eletrônica, componentes ficaram:
menores + mais baratos + mais confiáveis + mais fáceis de produzir
Isso permitiu levar funções antes encontradas em equipamentos especializados para produtos de consumo.
Um exemplo curioso é que a própria Mattel entrou no mercado de RC em 1976 com um sistema pulse-proportional de baixo custo.
A história dos brinquedos também é, portanto, uma pequena história da evolução da eletrônica.
Analógico, digital e proporcional são coisas diferentes
Aqui existe uma distinção interessante.
Às vezes utilizamos essas palavras como se significassem a mesma coisa:
digital = proporcional
Mas não necessariamente.
“Proporcional” descreve principalmente a relação entre o comando realizado e a resposta obtida.
“Digital” está relacionado à maneira como a informação é codificada ou processada.
A própria história do radiocontrole mostra a coexistência e evolução de sistemas analógicos proporcionais e posteriormente sistemas chamados de digitais proporcionais.
Portanto, podemos ter tecnologias diferentes realizando uma função proporcional.
O que existe dentro de um controle antigo?
É justamente por isso que gosto de abrir equipamentos antigos.
O objeto deixa de ser simplesmente:
“um brinquedo velho”
e passa a ser:
“como os engenheiros resolveram esse problema naquela época?”
Podemos encontrar potenciômetros, contatos, circuitos integrados, componentes discretos e diferentes soluções mecânicas.
E muitas vezes percebemos que a lógica utilizada continua presente nos equipamentos modernos, mesmo que a tecnologia tenha mudado completamente.
Compare com um rádio RC moderno
Hoje, até rádios relativamente acessíveis podem oferecer recursos que seriam extraordinários algumas décadas atrás:
trim digital, reversão de servo, ajuste de curso, exponencial, dual rate, mixagem, memória de modelos e comunicação em 2,4 GHz.
Os primeiros sistemas proporcionais eram muito mais básicos e não ofereciam boa parte desses recursos.
Mesmo assim, o princípio fundamental permanece:
o piloto envia um comando e espera que o modelo responda de maneira precisa.
Veja esse antigo controle remoto por dentro
No vídeo abaixo mostro esse controle remoto digital proporcional antigo e chamo atenção justamente para algumas de suas características — incluindo a presença do trim.
Brinquedos antigos também ajudam a contar a história da tecnologia
Existe algo que considero especialmente interessante nesse tipo de equipamento.
Quando desmontamos um brinquedo antigo, não estamos apenas descobrindo como ele funciona.
Estamos observando uma fotografia da tecnologia disponível naquele momento.
Podemos comparar:
controle antigo → eletrônica disponível na época → recursos oferecidos
com:
controle moderno → microcontroladores → processamento digital → 2,4 GHz → telemetria
E perceber como várias ideias permaneceram.
O trim é um ótimo exemplo.
A implementação tecnológica mudou enormemente, mas o problema que ele resolve continua praticamente o mesmo:
fazer um pequeno ajuste para que o modelo responda exatamente como desejamos.