Meus Rádios Antigos à Pilha: Philips, Motoradio, Minerva, Sharp e Seiko

Antes dos smartphones, dos aplicativos de streaming e das caixas Bluetooth, um pequeno rádio à pilha já era suficiente para levar música, notícias e transmissões esportivas para praticamente qualquer lugar.

Durante muitos anos fui guardando alguns desses aparelhos. Neste vídeo mostro parte da minha coleção de rádios antigos à pilha, com exemplares das marcas Philips, Motoradio, Minerva, Sharp e Seiko.

Mais do que objetos antigos, esses rádios são interessantes porque permitem acompanhar uma época importante da evolução da eletrônica: a popularização dos receptores portáteis transistorizados.

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Quando o rádio realmente se tornou portátil

Os primeiros receptores domésticos estavam muito longe daquilo que hoje chamamos de portátil.

Rádios valvulados precisavam alimentar os filamentos das válvulas e trabalhar com tensões relativamente elevadas. Era possível construir receptores valvulados alimentados por baterias, mas o conjunto estava longe da praticidade que posteriormente seria alcançada com os transistores.

A mudança pode ser resumida assim:

RÁDIO VALVULADO
      ↓
válvulas + maior consumo
      ↓
equipamento relativamente grande

         ↓ evolução

RÁDIO TRANSISTORIZADO
      ↓
menor consumo + menor tamanho
      ↓
RÁDIO PORTÁTIL À PILHA

Foi justamente o transistor que ajudou a transformar o rádio em um equipamento que poderia acompanhar seu proprietário.

O que existe dentro de um rádio à pilha?

Apesar da aparência simples, um receptor AM tradicional reúne diversos blocos eletrônicos.

Em um receptor super-heteródino, podemos representar de maneira simplificada:

ANTENA
  ↓
sintonia / RF
  ↓
MISTURADOR ← OSCILADOR LOCAL
  ↓
frequência intermediária
  ↓
DETECTOR
  ↓
amplificador de áudio
  ↓
ALTO-FALANTE

O sinal de rádio recebido pela antena é selecionado, processado e finalmente convertido em áudio.

É muita eletrônica escondida dentro de uma pequena caixa.

A sintonia analógica tem um charme especial

Uma característica marcante desses rádios é o processo de procurar manualmente uma estação.

Giramos o controle e acompanhamos o ponteiro:

530 ───── 800 ───── 1000 ───── 1600 kHz
                    ↑
                 estação

Não existe uma lista de emissoras na tela.

Não existe botão “buscar”.

O usuário literalmente percorre o espectro até encontrar a transmissão.

Para quem estuda eletrônica, isso também torna muito mais intuitiva a ideia de frequência e sintonia.

O capacitor variável

Em muitos receptores antigos, o botão de sintonia está mecanicamente associado a um capacitor variável.

Em conjunto com uma indutância, temos um circuito ressonante cuja frequência pode ser aproximada por:f=12πLCf=\frac{1}{2\pi\sqrt{LC}}

Ao variar CC, alteramos a frequência para a qual o circuito está sintonizado.

É interessante pensar que aquela pequena escala com números no painel representa fisicamente um circuito elétrico sendo ajustado.

Philips: uma marca presente em muitas gerações de rádios

A Philips teve enorme presença histórica em equipamentos de rádio e áudio, incluindo receptores domésticos e portáteis.

Esses aparelhos também mostram como o design industrial mudou ao longo das décadas.

Botões grandes, escalas analógicas, grades para o alto-falante e caixas plásticas passaram a fazer parte da identidade visual dos rádios portáteis.

E existe algo particularmente interessante em observar um aparelho antigo funcionando décadas depois de ter sido fabricado.

Motoradio: uma parte da história da eletrônica brasileira

Entre os aparelhos mostrados no vídeo, a Motoradio merece atenção especial.

A empresa brasileira tornou-se conhecida principalmente pelos seus rádios e autorádios e teve forte presença no mercado nacional durante as décadas de 1960, 70 e 80. A própria história oficial da marca destaca sua atuação pioneira em rádios automotivos e sua forte associação com o automobilismo e o futebol brasileiro.

Há uma curiosidade muito interessante: a Motoradio chegou a premiar jogadores de futebol que se destacavam nas partidas com seus aparelhos. A marca também relata que jogadores e membros da comissão da seleção brasileira tricampeã de 1970 receberam autorádios instalados nos Fuscas que ganharam.

Isso mostra como um aparelho eletrônico podia ser também um produto culturalmente muito presente no cotidiano brasileiro.

Minerva e a longa história dos receptores de rádio

O nome Minerva também possui uma história antiga no rádio.

A fabricante austríaca teve origem em Viena em 1919. A produção de receptores começou em 1924, inicialmente com a marca Radiola, e o nome Minerva foi posteriormente adotado. A empresa chegou a produzir dezenas de modelos e também licenciou a fabricação de aparelhos em outros países europeus.

Há receptores Minerva preservados inclusive em coleções museológicas. O Museu Virtual da RTP, por exemplo, possui aparelhos da marca das décadas de 1930 e 1940 e registra que a empresa foi posteriormente vendida à Grundig.

É interessante encontrar esse nome também em um pequeno rádio portátil.

Sharp e a eletrônica japonesa

A Sharp é outro nome que ficou fortemente associado à eletrônica de consumo.

Ao longo do desenvolvimento da indústria japonesa, rádios portáteis foram um dos produtos que ajudaram a demonstrar algo que posteriormente se tornaria característica de inúmeros equipamentos eletrônicos:

fazer cada vez mais dentro de espaços cada vez menores.

Quando abrimos um rádio portátil antigo, essa evolução fica bastante evidente.

E o pequeno Seiko?

O aparelho da Seiko é outro exemplo curioso da diversidade de produtos eletrônicos que existia naquele período.

Hoje associamos imediatamente determinados nomes a categorias específicas de produtos. Mas, olhando aparelhos antigos, frequentemente encontramos marcas em equipamentos que não relacionaríamos imediatamente a elas.

É justamente esse tipo de detalhe que torna uma pequena coleção tão interessante.

Não estamos olhando apenas para o circuito.

Estamos olhando para uma época da indústria eletrônica.

O alto-falante também conta uma história

Mesmo os pequenos rádios portáteis precisavam transformar o sinal elétrico novamente em movimento mecânico.

Temos:

SINAL DE ÁUDIO
     ↓
bobina móvel
     ↓
campo magnético
     ↓
movimento do cone
     ↓
       SOM

O princípio básico continua sendo utilizado em inúmeros alto-falantes modernos.

Mudaram materiais, potência, projeto e fabricação, mas o eletromagnetismo envolvido permanece extremamente familiar.

Alimentação por pilhas

Outra característica importante desses aparelhos é a alimentação.

Dependendo do projeto, podemos encontrar combinações como:

1,5 V
3 V
4,5 V
6 V
9 V

obtidas por uma ou mais pilhas em série.

Por exemplo, quatro pilhas de 1,5 V em série fornecem nominalmente:V=1,5+1,5+1,5+1,5=6VV=1,5+1,5+1,5+1,5=6V

A ligação em série aumenta a tensão, enquanto a capacidade disponível depende das características das células utilizadas.

O baixo consumo dos circuitos transistorizados tornou esse tipo de alimentação muito mais prático.

Pilhas antigas podem destruir um rádio que sobreviveu décadas

Este é um ponto especialmente importante para quem guarda aparelhos antigos.

Não deixe pilhas esquecidas dentro deles.

Com o tempo, uma célula pode vazar e provocar corrosão nos terminais e em outras partes do aparelho.

Um rádio pode sobreviver por décadas e acabar seriamente danificado simplesmente porque ficou armazenado durante alguns anos com pilhas no compartimento.

Ao adquirir ou recuperar um aparelho antigo, eu verificaria primeiro:

  • compartimento das pilhas;
  • contatos;
  • sinais de oxidação;
  • fios;
  • chave liga/desliga;
  • potenciômetro;
  • alto-falante;
  • placa eletrônica.

Somente depois partiria para testes mais detalhados.

Potenciômetros também costumam apresentar ruído

Quem já ligou um rádio antigo provavelmente conhece isto:

crrrrr…

Giramos o volume e aparece aquele ruído característico.

O potenciômetro possui uma pista resistiva e um contato móvel. Oxidação, sujeira ou desgaste podem provocar mau contato durante o movimento.

Isso não significa automaticamente que o rádio esteja condenado.

Muitos problemas encontrados nesses aparelhos são mecânicos ou relacionados a contatos.

Capacitores eletrolíticos merecem atenção

Em aparelhos com muitas décadas, capacitores eletrolíticos também podem apresentar degradação.

Isso não significa que todo rádio antigo precise receber uma substituição indiscriminada de todos os capacitores antes mesmo de ser diagnosticado.

Prefiro primeiro entender o problema.

Se houver:

baixo volume, distorção, instabilidade, consumo anormal ou funcionamento inadequado, aí sim podemos investigar os componentes responsáveis.

É muito mais interessante reparar entendendo o circuito do que simplesmente trocar tudo.

Veja meus rádios antigos

No vídeo mostro os aparelhos e vários detalhes curiosos de cada um.

É um vídeo diferente de uma montagem convencional, mas está diretamente relacionado àquilo que fazemos na bancada.

Esses aparelhos permitem observar como soluções eletrônicas foram implementadas em produtos comerciais de outras épocas.

Um rádio antigo também pode ser material de estudo

Podemos abrir um desses aparelhos e tentar identificar os blocos:

┌────────────────────────────┐
│       RÁDIO ANTIGO         │
│                            │
│ antena                     │
│ circuito de sintonia       │
│ transistores               │
│ transformadores / bobinas  │
│ capacitores                │
│ potenciômetro              │
│ amplificador de áudio      │
│ alto-falante               │
└────────────────────────────┘

Depois podemos acompanhar as trilhas e tentar compreender o caminho do sinal.

Para quem está começando em eletrônica, isso é uma excelente maneira de perceber que os componentes estudados isoladamente formam sistemas reais.

E podemos chegar até o estágio de áudio

Independentemente da complexidade da parte de RF, em algum momento o sinal recebido precisa chegar ao amplificador de áudio.

Isso cria uma ligação interessante entre esses rádios e vários outros projetos que já construí.

O estágio final continua lidando com conceitos familiares:

ganho, transistores, capacitores de acoplamento, volume, impedância e alto-falante.

Por isso, estudar um rádio antigo também é estudar eletrônica aplicada ao áudio.

Tecnologia antiga não significa tecnologia sem valor

É fácil olhar para um rádio AM portátil e compará-lo com um smartphone atual.

O smartphone obviamente possui uma complexidade incomparavelmente maior.

Mas essa comparação perde justamente o que torna esses aparelhos interessantes.

Um pequeno rádio precisava:

captar um sinal extremamente pequeno → selecionar uma estação → amplificá-lo → demodulá-lo → amplificar o áudio → produzir som, tudo isso consumindo pouca energia de algumas pilhas.

E precisava fazer isso de maneira barata, confiável e suficientemente compacta para ser carregado.

Quando olhamos dessa forma, esses aparelhos deixam de parecer simples.

Preservar também é aprender

Não guardo esses rádios apenas porque são antigos.

Eles representam diferentes momentos da eletrônica e mostram soluções que hoje raramente vemos diretamente.

Também carregam lembranças.

Para muitas pessoas, um pequeno rádio à pilha significava acompanhar futebol, ouvir notícias, escutar música ou simplesmente ter companhia enquanto trabalhavam.

Por isso, além do valor técnico, existe um valor histórico e afetivo.

E talvez seja justamente essa combinação que torne tão interessante ligar um rádio antigo e perceber que, depois de tantos anos, ele ainda consegue captar uma estação e tocar.

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