Quem começa a trabalhar com motores brushless em aeromodelismo, drones, barcos RC ou outros projetos rapidamente encontra dois termos bastante comuns:
inrunner e outrunner.
Os dois são motores brushless, mas possuem construções diferentes. Essa diferença influencia características como rotação, torque, refrigeração e maneira de fixar o motor no modelo.
No vídeo que acompanha este artigo, mostro justamente essas diferenças e explico como identificar e instalar cada tipo.
O que é um motor brushless?
Brushless significa sem escovas.
Diferentemente de um motor DC escovado tradicional, no qual escovas e comutador participam da comutação elétrica, o motor brushless utiliza controle eletrônico para energizar suas bobinas na sequência adequada.
Normalmente encontramos:
motor brushless + ESC → rotação controlada eletronicamente
O ESC, ou Electronic Speed Controller, é responsável por comandar as fases do motor.
O que significa inrunner?
No motor inrunner, a parte rotativa principal fica no interior.
De maneira simplificada:
carcaça externa parada
rotor interno gira
O eixo está ligado ao rotor interno e transmite o movimento para fora do motor.
Essa configuração costuma permitir rotações bastante elevadas e é encontrada em diversas aplicações.
Visualmente, um inrunner muitas vezes lembra mais um motor elétrico convencional, porque o corpo externo permanece praticamente imóvel enquanto apenas o eixo gira.
O que significa outrunner?
No outrunner, ocorre algo que chama bastante atenção quando vemos o motor funcionando pela primeira vez:
a parte externa do motor gira junto com o eixo.
Ou seja, a “campana” externa faz parte do rotor.
Temos aproximadamente:
parte interna com bobinas → permanece fixa
carcaça/campana externa com ímãs → gira
Isso faz com que um outrunner pareça bastante diferente de um motor tradicional.
E é justamente essa característica que precisa ser considerada na hora de instalar o motor.
Qual é a principal diferença entre inrunner e outrunner?
A diferença estrutural fundamental está em qual parte do motor gira.
Inrunner: rotor gira por dentro.
Outrunner: rotor externo gira ao redor do estator.
Mas essa construção também produz diferenças práticas.
De maneira geral, motores outrunner são muito populares no aeromodelismo porque conseguem produzir bom torque em rotações relativamente menores, muitas vezes permitindo movimentar hélices diretamente sem necessidade de caixa de redução.
Já inrunners são frequentemente associados a rotações mais elevadas, podendo ser utilizados com reduções ou em aplicações em que alta velocidade de rotação é desejada.
Isso não significa, porém, que todo outrunner seja “lento” ou todo inrunner seja “rápido”. É necessário observar as especificações de cada motor.
O que significa KV em um motor brushless?
Ao comprar um motor brushless, encontramos normalmente uma especificação como:
900 KV
1200 KV
2200 KV
KV não significa quilovolt.
Nesse contexto, representa aproximadamente a rotação por minuto por volt, sem carga, dentro das condições especificadas pelo fabricante.
Por exemplo, de maneira idealizada:
1000 KV × 10 V ≈ 10.000 rpm sem carga
Na prática, a rotação real sob carga será diferente.
Esse valor ajuda bastante a escolher o motor conforme a aplicação.
Outrunner costuma ter mais torque?
Muitas configurações outrunner conseguem gerar bom torque porque possuem um rotor externo de maior raio.
Isso ajuda a explicar por que são tão comuns em aeromodelismo.
Imagine uma hélice relativamente grande.
Precisamos de torque suficiente para movimentá-la.
Um outrunner adequado pode fazer isso diretamente:
motor → hélice
sem a necessidade de uma caixa redutora intermediária.
Foi uma das razões pelas quais esse tipo de motor se popularizou tanto em modelos elétricos.
Inrunner pode precisar de redução?
Em algumas aplicações, sim.
Um inrunner de alta rotação pode ser combinado com uma caixa redutora para transformar:
alta rotação + menor torque
em:
menor rotação + maior torque disponível no eixo de saída
Mas existem também aplicações nas quais o inrunner trabalha diretamente, dependendo da hélice, transmissão, bomba, roda ou outro dispositivo utilizado.
Portanto, não devemos escolher apenas pela classificação inrunner/outrunner.
Precisamos olhar o conjunto:
KV + tensão + corrente + potência + torque + carga
Como identificar visualmente um outrunner?
É relativamente fácil quando o motor está funcionando.
Se a parte externa do motor estiver girando, é um forte indicativo de um outrunner.
Isso também significa que não podemos prender ou encostar peças nessa região.
A campana precisa ter espaço para girar livremente.
Esse é um detalhe muito importante na instalação.
Como fixar um motor outrunner?
Como a parte externa gira, precisamos fixar o motor pela parte estacionária apropriada, normalmente utilizando a base traseira ou um suporte específico.
Muitos motores vêm acompanhados de um suporte em formato de cruz, frequentemente chamado de X-mount.
A sequência pode ser:
motor → suporte → parede de fogo/base → parafusos
No aeromodelismo, essa base é frequentemente chamada de firewall.
É necessário garantir que:
- o suporte esteja firme;
- os parafusos tenham comprimento adequado;
- nenhuma peça encoste na campana;
- os fios não possam tocar na parte giratória.
Cuidado com parafusos muito compridos
Esse é um detalhe que pode causar problemas.
Se um parafuso utilizado para prender o motor entrar demais na carcaça, ele pode tocar internamente em partes do motor ou até danificar os enrolamentos.
Por isso, não utilize simplesmente um parafuso “que parece caber”.
Verifique o comprimento correto para aquele motor e suporte.
E como fixar um inrunner?
Como a carcaça externa do inrunner permanece parada, existem outras possibilidades de montagem.
Ele pode ser fixado por:
suporte frontal
ou:
abraçadeira/suporte ao redor da carcaça
dependendo do modelo.
Isso pode facilitar a instalação em determinados tipos de veículos, especialmente quando o motor fica inserido dentro de uma estrutura.
Mais uma vez, a melhor fixação depende do motor específico.
Atenção à ventilação
Motores brushless podem aquecer durante o funcionamento.
Portanto, ao criar um suporte, não pense apenas na resistência mecânica.
Pense também em:
fluxo de ar → refrigeração → temperatura
Cobrir completamente um motor para deixá-lo “bem preso” pode acabar prejudicando sua refrigeração.
Em modelos que exigem bastante potência, isso é particularmente importante.
Como escolher entre inrunner e outrunner?
Não existe um vencedor universal.
A escolha depende da aplicação.
Para um aeromodelo com hélice relativamente grande, um outrunner pode ser muito conveniente.
Para determinadas aplicações de alta rotação ou sistemas com transmissão, um inrunner pode ser mais apropriado.
Antes de escolher, observe:
tensão da bateria
KV
potência
corrente máxima
tipo e tamanho da carga
dimensões disponíveis
forma de montagem
refrigeração
O motor precisa ser escolhido como parte de um sistema, e não isoladamente.
Motor, ESC e bateria precisam trabalhar juntos
Outro erro comum é escolher o motor e depois conectar qualquer ESC e bateria.
O conjunto precisa ser compatível.
Temos:
bateria → ESC → motor → carga
A tensão da bateria influencia a rotação.
A carga influencia a corrente.
O ESC precisa suportar a corrente exigida.
E o motor precisa trabalhar dentro de suas especificações térmicas e elétricas.
No aeromodelismo, a escolha da hélice também pode alterar drasticamente o consumo.
Veja a diferença entre inrunner e outrunner no vídeo
No vídeo abaixo mostro os dois tipos de motores e explico também alguns detalhes importantes sobre como fixar corretamente esse tipo de motor.
Um conceito simples que evita muitos erros de instalação
Saber se um motor é inrunner ou outrunner parece uma informação básica, mas evita vários problemas.
No outrunner, precisamos lembrar:
a parte externa gira.
Portanto, ela precisa ficar completamente livre.
No inrunner:
a carcaça externa permanece fixa.
Isso muda a maneira como podemos criar o suporte.
Depois dessa diferença estrutural, podemos avançar para os demais parâmetros e escolher o motor mais adequado para cada projeto.