Comprar um bom microfone é importante, mas existe uma variável que pode modificar a gravação sem custar absolutamente nada:
a posição do microfone.
Mover um microfone alguns centímetros, alterar seu ângulo ou aumentar a distância da fonte sonora pode produzir uma diferença perceptível no resultado.
No vídeo deste artigo faço justamente essa experiência utilizando o Shure SM57, testando diferentes possibilidades de posicionamento no estúdio.
A ideia é simples: antes de tentar corrigir tudo posteriormente com equalização, vale descobrir se conseguimos chegar mais perto do som desejado simplesmente:
movendo o microfone.
O Shure SM57 é um microfone direcional
O Shure SM57 é um microfone dinâmico com padrão polar cardioide e resposta de frequência especificada de 40 Hz a 15 kHz. A própria Shure o indica para instrumentos, amplificadores de guitarra e baixo, bateria e diversas aplicações de palco e estúdio.
Cardioide significa que sua sensibilidade varia conforme a direção de onde chega o som.
Simplificando:
FRENTE
↑
maior captação
╭────╮
╭──╯ ╰──╮
│ │
╰──╮ ╭──╯
╰────╯
↓
TRASEIRA
maior rejeição
O SM57 é mais sensível ao som que chega pela frente e apresenta forte rejeição na região traseira.
Portanto, para onde apontamos o microfone importa.
Não existe uma única posição correta
Essa talvez seja a primeira coisa que precisamos entender.
Não existe uma posição universal chamada:
“posição correta do SM57”.
A própria Shure observa em seu manual que técnica de microfonação envolve preferência pessoal e que não existe uma única posição correta.
O que existe são posições que produzem:
resultados diferentes.
A pergunta mais interessante deixa de ser:
Onde devo colocar o microfone?
e passa a ser:
Que som estou procurando?
A primeira variável é a distância
Imagine uma fonte sonora e o microfone:
FONTE ● ─── 🎤
perto
Agora:
FONTE ● ───────────────── 🎤
longe
Não estamos apenas diminuindo o volume que chega ao microfone.
Também estamos alterando a relação entre:
som direto
e:
som refletido pelo ambiente.
Quanto mais próximo estivermos da fonte, normalmente maior será a predominância do som direto.
À medida que afastamos o microfone, a acústica do espaço tende a participar mais da gravação.
Por isso, a Shure recomenda posicionar o microfone tão próximo quanto for prático quando o objetivo é favorecer a fonte desejada e reduzir sons indesejados.
Isso significa que mais perto é sempre melhor?
Não.
Significa apenas que teremos:
mais som direto em relação ao ambiente.
Em algumas gravações isso é exatamente o que queremos.
Em outras, podemos querer capturar também parte da:
sala
ambiência
reverberação natural.
Portanto, a distância é uma decisão sonora.
Existe também o efeito de proximidade
Como o SM57 é cardioide, apresenta o chamado:
efeito de proximidade.
Quando uma fonte sonora fica extremamente próxima de um microfone direcional, existe um aumento relativo da resposta nas frequências graves.
No caso do SM57, a Shure especifica que, a aproximadamente 6 mm da fonte, pode ocorrer um reforço entre 6 e 10 dB abaixo de 100 Hz.
Isso significa que:
MICROFONE MUITO PRÓXIMO
↓
MAIOR EFEITO DE PROXIMIDADE
↓
MAIS GRAVES
Dependendo da aplicação, isso pode deixar o som:
mais encorpado
ou:
grave demais.
Novamente, não é necessariamente um problema.
É uma característica que podemos utilizar.
Posicionamento também pode funcionar como equalização
Essa é uma das ideias mais interessantes da microfonação.
Imagine que você gravou alguma coisa e pensou:
“está brilhante demais”.
Uma possibilidade seria:
GRAVAR
↓
EQUALIZADOR
↓
REDUZIR AGUDOS
Mas existe outra possibilidade:
MOVER MICROFONE
↓
GRAVAR NOVAMENTE
↓
SOM JÁ MAIS PRÓXIMO DO DESEJADO
Por isso existe uma frase bastante conhecida em gravação:
o posicionamento do microfone é uma forma de equalização acústica.
Antes de mexer no EQ, podemos:
mover o microfone.
Isso fica muito evidente em amplificadores de guitarra
O SM57 é extremamente utilizado diante de amplificadores de guitarra.
E aqui poucos centímetros podem fazer uma diferença grande.
Imagine o alto-falante visto de frente:
ALTO-FALANTE
┌─────────────┐
│ ╭───╮ │
│ / ● \ │
│ │ │ │
│ \ / │
│ ╰───╯ │
└─────────────┘
● = centro
Podemos colocar o microfone:
próximo ao centro
ou mover progressivamente em direção à:
borda do cone.
A Shure fornece inclusive diferentes posições recomendadas para o SM57 diante de amplificadores de guitarra e baixo.
Centro e borda produzem resultados diferentes
Aqui há uma nuance interessante: as descrições simplificadas variam conforme a geometria e o alto-falante específico, então o melhor método continua sendo ouvir. A orientação atual da Shure observa que apontar diretamente para o centro tende a produzir maior clareza, enquanto deslocar o microfone para fora do centro produz um som mais difuso.
Na prática, podemos começar assim:
CENTRO ───────────────► BORDA
mais direto mais suave
← experimentar →
Em vez de alterar imediatamente o equalizador, movemos o SM57 alguns centímetros.
Escutamos.
Movemos novamente.
Escutamos.
Podemos mudar também o ângulo
Até agora consideramos:
ALTO-FALANTE → 🎤
com o microfone apontado diretamente para a fonte.
Isso é chamado de:
on-axis.
Mas podemos inclinar o microfone:
ALTO-FALANTE → 🎤
╲
criando uma captação:
off-axis.
Como a resposta de um microfone direcional muda fora de seu eixo principal, essa alteração também pode modificar o timbre.
Na prática, podemos experimentar:
posição + distância + ângulo.
Temos então três controles acústicos antes mesmo de abrir qualquer plugin.
Existe uma boa posição inicial para amplificador?
Sim, podemos utilizar referências para começar.
O manual do SM57 sugere, entre outras possibilidades, colocar o microfone aproximadamente 2,5 cm do alto-falante, alinhado ao centro ou à borda do cone. Também sugere experimentar 15 a 30 cm para um resultado mais equilibrado e até 60 a 90 cm para maior distância e ataque mais suave.
Esses valores não são regras.
São:
pontos de partida.
Isso é importante porque o alto-falante, o gabinete, o amplificador, a sala e o timbre procurado mudam de uma gravação para outra.
E para um violão?
O princípio continua sendo o mesmo, mas a fonte sonora é diferente.
Um erro comum é pensar:
“o som sai do buraco do violão, então vou apontar o microfone diretamente para ele”.
Essa posição pode resultar em excesso de graves e um som bastante fechado dependendo da distância.
Para violão, a própria Shure recomenda como ponto inicial direcionar o microfone para a região onde:
o braço encontra o corpo do instrumento.
Essa posição tende a proporcionar um equilíbrio interessante entre definição e corpo.
Podemos começar aproximadamente assim:
BRAÇO CORPO
───────────────┬─────────────────────
│
região do 12º traste
↑
🎤
E depois movimentar.
Movendo em direção ao corpo
Ao deslocar o microfone em direção ao corpo e à boca do violão, podemos obter progressivamente mais:
corpo
e:
graves.
Se exagerarmos, o resultado pode ficar:
embolado.
Movendo em direção ao braço
Se deslocarmos na direção oposta, podemos captar relativamente mais:
ataque
cordas
articulação
e menos da ressonância do corpo.
Portanto, novamente:
BRAÇO 12º TRASTE BOCA
←────────────┼──────────────→
mais ataque mais corpo
É uma simplificação, mas funciona muito bem como ponto de partida para experimentar.
E para voz?
Embora o SM57 seja normalmente associado a instrumentos, ele também pode ser utilizado para voz.
Nesse caso, distância e ângulo continuam importantes.
A Shure recomenda, para voz, trabalhar a menos de aproximadamente 15 cm e direcionado para a fonte quando se deseja um som robusto e maior isolamento.
Quanto mais próximo:
maior isolamento
e potencialmente:
maior efeito de proximidade.
Ao afastar:
entra mais ambiente.
O microfone também deve apontar para longe do que não queremos
Essa é uma vantagem do padrão cardioide.
Não precisamos pensar apenas:
“o que quero captar?”
Também podemos pensar:
“o que NÃO quero captar?”
Se existe:
ventoinha de computador
outro instrumento
monitor
ruído da sala
podemos tentar posicionar a região de maior rejeição do microfone em direção a essa fonte indesejada.
A Shure recomenda justamente apontar a frente do SM57 para a fonte desejada e posicionar fontes indesejadas na região de maior rejeição.
Isso pode melhorar a gravação sem utilizar:
noise reduction
gate
ou qualquer processamento.
A acústica do ambiente entra na gravação
Quanto mais afastamos o microfone, maior tende a ser a participação do ambiente.
Por isso, duas pessoas utilizando:
o mesmo SM57
o mesmo instrumento
a mesma distância
podem obter resultados diferentes.
Uma grava em um quarto com:
paredes duras e muitas reflexões.
Outra grava em um espaço com:
tapetes, cortinas e tratamento acústico.
O microfone não está captando somente o instrumento.
Está captando também a interação do instrumento com:
o espaço.
Isso conecta diretamente o posicionamento do microfone ao tratamento acústico do ambiente.
Faça uma experiência simples
Uma das melhores formas de entender isso é gravar várias tomadas sem mudar nenhuma configuração da interface.
Mude apenas o microfone:
TAKE 1 → 5 cm da fonte
TAKE 2 → 15 cm
TAKE 3 → 30 cm
TAKE 4 → on-axis
TAKE 5 → off-axis
Depois compare utilizando:
o mesmo volume de reprodução.
Essa experiência ensina mais sobre microfonação do que simplesmente memorizar uma “posição ideal”.
Faça movimentos pequenos
Quando procuramos a posição ideal diante de um amplificador, não precisamos mover o microfone:
50 centímetros de cada vez.
Faça alterações pequenas.
Por exemplo:
POSIÇÃO A
↓
2 ou 3 cm
↓
POSIÇÃO B
↓
2 ou 3 cm
↓
POSIÇÃO C
Grave alguns segundos em cada uma.
Depois compare.
Pode existir um ponto em que o som muda de maneira bastante perceptível.
Marque a posição quando encontrar algo que funciona
Se encontrou uma ótima posição para:
seu amplificador
seu violão
ou outro instrumento, registre.
Você pode anotar:
distância
posição
ângulo
altura
e até tirar uma fotografia.
Em estúdio, isso ajuda muito a repetir uma gravação posteriormente.
Imagine gravar metade de uma música hoje e precisar continuar amanhã.
Mover o microfone alguns centímetros pode produzir um timbre diferente.
Com dois microfones aparece outro problema
Quando utilizamos mais de um microfone para a mesma fonte, precisamos começar a prestar atenção também nas diferenças de tempo de chegada do som e nas relações de fase.
A própria Shure apresenta como regra prática manter a distância entre microfones pelo menos três vezes maior que a distância de cada microfone até sua fonte, quando múltiplos microfones são utilizados.
É a conhecida:
regra 3:1.
Não resolve magicamente todas as situações de fase, mas é um bom princípio para reduzir interferências indesejadas.
Para começar a aprender microfonação, entretanto, existe uma vantagem enorme em utilizar:
um único microfone.
Você consegue ouvir claramente o que cada mudança de posição está fazendo.
O melhor posicionamento é encontrado ouvindo
Podemos estudar:
padrão polar
resposta em frequência
efeito de proximidade
distância
eixo
reflexões
e tudo isso ajuda.
Mas no final existe uma etapa que nenhum gráfico substitui:
ouvir.
A própria documentação do SM57 deixa claro que as posições sugeridas são referências, não uma regra universal.
Então a sequência mais interessante é:
POSICIONAR
↓
GRAVAR
↓
OUVIR
↓
MOVER
↓
GRAVAR NOVAMENTE
↓
COMPARAR
Veja o teste com o Shure SM57
No vídeo abaixo mostro na prática algumas possibilidades de posicionamento do microfone para melhorar a captação, utilizando o Shure SM57 em um ambiente de estúdio.
O mais interessante desse tipo de experiência é perceber que não estamos mudando:
microfone
interface
pré-amplificador
ou:
software.
Estamos mudando apenas:
a posição.
E mesmo assim conseguimos alterar o resultado.
Antes de comprar outro microfone, experimente mover o que você já tem
Quando uma gravação não soa como esperamos, é tentador pensar imediatamente:
“preciso de um microfone melhor”.
Às vezes realmente precisamos de outro equipamento.
Mas antes disso existe uma experiência gratuita:
mova o microfone.
Experimente:
mais perto
mais longe
mais para o centro
mais para a lateral
mais alto
mais baixo
on-axis
off-axis.
Depois grave e compare.
O posicionamento é uma das ferramentas mais poderosas disponíveis em uma gravação — e não custa nada.