Por que Usar Dissipador de Calor em Componentes Eletrônicos? Teste de Temperatura em um Reostato

Quando montamos um circuito eletrônico, é comum perceber que determinados componentes aquecem durante o funcionamento. Dependendo do componente, da potência dissipada e das condições de operação, esse aquecimento pode ser perfeitamente normal.

O problema aparece quando a temperatura se torna excessiva.

Nesse caso, o aumento de temperatura pode comprometer o funcionamento do circuito, reduzir a vida útil do componente e, em situações extremas, provocar sua falha.

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No vídeo deste artigo faço uma experiência prática utilizando um circuito reostato e realizo medições de temperatura para mostrar por que o uso de um dissipador de calor pode ser tão importante.

Por que um componente eletrônico aquece?

Nenhum componente real é completamente livre de perdas.

Quando existe potência sendo dissipada no componente, parte da energia elétrica é convertida em calor.

A relação básica é:

P = V × I

onde:

P = potência em watts
V = tensão sobre o componente
I = corrente que passa por ele

Para um elemento resistivo, também podemos escrever:

P = I² × R

ou:

P = V² / R

Portanto, aumentar a corrente pode elevar bastante a potência transformada em calor.

O reostato é um ótimo exemplo

Um reostato é utilizado para variar a resistência efetiva em um circuito e, consequentemente, controlar a corrente.

Podemos representar a ideia de maneira simplificada:

+V
 │
 │
[ REOSTATO ]
 │
 │
[CARGA]
 │
GND

Ao ajustar o reostato, alteramos as condições elétricas do circuito.

E a energia dissipada não desaparece.

Parte dela se transforma em:

calor.

É justamente isso que torna esse circuito interessante para uma demonstração prática de temperatura.

O que acontece quando a temperatura aumenta?

Imagine um componente dissipando alguns watts continuamente.

O calor é produzido internamente e precisa chegar ao ambiente:

COMPONENTE
    ↓
  CALOR
    ↓
ENCAPSULAMENTO
    ↓
     AR

Se a transferência de calor para o ambiente for insuficiente, a temperatura sobe até que se estabeleça um novo equilíbrio térmico — ou até que sejam ultrapassados os limites seguros do componente.

Em semicondutores, uma aproximação muito útil relaciona potência dissipada, resistência térmica e aumento de temperatura:

ΔT = P × Rθ

A Toshiba, por exemplo, apresenta a relação entre aumento da temperatura de junção, potência dissipada e resistência térmica exatamente dessa forma.

Se tivermos hipoteticamente:

P = 5 W

Rθ = 20 °C/W

teremos:

ΔT = 5 × 20

ΔT = 100 °C

Isso mostra como poucos watts podem representar um aumento de temperatura muito significativo quando a resistência térmica é elevada.

Temperatura ambiente também importa

O componente não começa em 0 °C.

Se o ambiente estiver a:

25 °C

e calculamos um aumento de:

100 °C

teríamos, numa aproximação simples:

T = 25 + 100

T = 125 °C

É por isso que a especificação térmica de um circuito não pode considerar apenas a potência.

Precisamos observar também:

temperatura ambiente + resistência térmica + potência dissipada.

É aí que entra o dissipador de calor

O dissipador aumenta a capacidade de transferir calor do componente para o ambiente.

Normalmente é construído com um material de boa condutividade térmica e possui uma grande área de contato com o ar.

Observe as aletas de muitos dissipadores:

 │ │ │ │ │ │ │
 │ │ │ │ │ │ │
 └─────────────┘
        ↑
    componente

Elas não estão ali apenas por estética.

Sua função é aumentar a área disponível para troca térmica com o ambiente.

O dissipador não “produz frio”

Esse é um conceito importante.

Às vezes dizemos que o dissipador:

“esfria o transistor”.

É uma simplificação.

O dissipador não cria frio e também não elimina a geração de calor do componente.

Ele facilita o caminho térmico:

SEM DISSIPADOR

componente → ar


COM DISSIPADOR

componente → dissipador → grande área → ar

O objetivo é reduzir a resistência térmica entre a região quente e o ambiente.

Por que o dissipador também fica quente?

Isso pode causar uma interpretação curiosa.

Instalamos um dissipador e depois percebemos:

“O dissipador está quente!”

Isso não significa necessariamente que ele não esteja funcionando.

Muito pelo contrário.

Se existe uma boa transferência térmica:

COMPONENTE
     ↓
 DISSIPADOR
     ↓
 AMBIENTE

esperamos que o calor chegue ao dissipador.

O que precisamos avaliar é a temperatura atingida pelo conjunto e se ela permanece dentro das condições permitidas pelo projeto.

O tamanho do dissipador faz diferença

Nem todo dissipador serve para qualquer aplicação.

Um pequeno dissipador:

  |||
 [___]

e um dissipador muito maior:

|||||||||||||||||||
|||||||||||||||||||
|||||||||||||||||||
[_________________]

possuem comportamentos térmicos diferentes.

Por isso dissipadores também podem ser especificados por sua:

resistência térmica, normalmente expressa em:

°C/W

Quanto menor a resistência térmica adequada ao caminho considerado, mais facilmente o calor pode ser transferido para o ambiente.

A interface entre componente e dissipador também importa

Mesmo duas superfícies aparentemente lisas apresentam pequenas irregularidades.

Podemos imaginar:

COMPONENTE
_/\___/\____/\/\_

   pequenos espaços

_\/\____/\____/\_
DISSIPADOR

Esses espaços podem conter ar, que prejudica a transferência térmica.

É por isso que determinadas montagens utilizam pasta térmica ou materiais de interface térmica.

A função não é “resfriar” o componente.

É melhorar o contato térmico preenchendo irregularidades microscópicas entre as superfícies.

Mas cuidado com o isolamento elétrico

Existe outro detalhe importante.

Em alguns componentes de potência, a superfície metálica do encapsulamento pode estar eletricamente conectada a um dos terminais.

Portanto, simplesmente parafusar vários componentes no mesmo dissipador metálico pode criar uma conexão elétrica indesejada.

Dependendo do projeto, são utilizados:

isoladores elétricos termicamente condutores, buchas isolantes e materiais de interface apropriados.

Sempre é necessário consultar o datasheet do componente antes de decidir como fixá-lo.

Como saber se realmente precisamos de um dissipador?

Não existe uma resposta do tipo:

“Se o componente estiver quente, coloque um dissipador.”

O procedimento correto é analisar as condições de operação.

Precisamos conhecer principalmente:

potência dissipada
       +
temperatura ambiente
       +
resistências térmicas
       +
limites do componente
       ↓
necessidade de dissipação

Nos semicondutores, o que realmente queremos manter abaixo do limite especificado é a temperatura da junção.

A temperatura externa do encapsulamento é útil para análise, mas não é necessariamente igual à temperatura interna da junção.

Medir a temperatura é uma experiência muito interessante

No vídeo faço justamente uma medição de temperatura durante o funcionamento do circuito.

Isso permite transformar algo subjetivo:

“Parece que está muito quente.”

em uma informação quantitativa:

Temperatura inicial
        ↓
circuito funcionando
        ↓
Temperatura depois de algum tempo
        ↓
comparação

Esse tipo de teste é extremamente útil durante o desenvolvimento de circuitos.

Cuidado ao medir com termômetro infravermelho

Se a medição for feita sem contato, existe uma questão importante: emissividade.

Um termômetro infravermelho não mede diretamente a temperatura interna do componente. Ele detecta radiação infravermelha emitida pela superfície e calcula uma temperatura.

Superfícies diferentes emitem radiação de maneiras diferentes.

Metais brilhantes, por exemplo, apresentam baixa emissividade e podem gerar leituras enganosas. A Fluke alerta que superfícies metálicas sem pintura podem ser particularmente difíceis de medir corretamente com infravermelho.

Portanto, se no vídeo utilizo um termômetro IR, é melhor interpretar a experiência principalmente como uma comparação térmica, especialmente se não houver controle de emissividade.

A distância do termômetro também influencia

Existe ainda outro detalhe.

O termômetro mede uma determinada área, e não um ponto matematicamente infinitesimal.

Se o componente for pequeno e estivermos muito distantes, parte da área medida pode incluir:

┌─────────────────┐
│       ███       │
│       ███       │ ← componente
│                 │
└─────────────────┘
       ↑
 área medida

Assim, a leitura pode misturar a radiação do componente com a região ao redor.

Fabricantes de instrumentos IR recomendam que o alvo preencha adequadamente o campo de visão do instrumento; quanto menor o alvo, mais próximo normalmente precisamos estar.

Uma experiência interessante: antes e depois

Uma maneira didática de verificar o efeito da dissipação é comparar o mesmo circuito em condições semelhantes:

TESTE 1
componente
sem dissipador
     ↓
temperatura


TESTE 2
componente
com dissipador
     ↓
temperatura

Mantendo tanto quanto possível:

mesma alimentação, mesma carga, mesma corrente, mesmo tempo e temperatura ambiente semelhante.

Assim conseguimos observar melhor a influência da alteração realizada.

Mais corrente geralmente significa mais atenção à dissipação

Voltando ao reostato, a experiência também ajuda a visualizar uma relação fundamental.

Se determinado elemento resistivo dissipa:

P = I² × R

a corrente aparece elevada ao quadrado.

Por exemplo, mantendo a mesma resistência:

1 A → P = 1² × R

2 A → P = 2² × R = 4R

Dobrar a corrente pode quadruplicar a dissipação naquele elemento resistivo.

É uma das razões pelas quais circuitos de potência exigem tanto cuidado térmico.

Um circuito pode funcionar e ainda estar mal dimensionado

Esse ponto é particularmente importante para quem está começando.

Montamos o circuito.

Ligamos.

Ele funciona.

Então concluímos:

“Está certo.”

Não necessariamente.

Um circuito pode funcionar perfeitamente durante cinco minutos e estar levando determinado componente muito próximo de seu limite térmico.

O verdadeiro teste envolve também observar:

temperatura, corrente, tensão, estabilidade e comportamento ao longo do tempo.

Veja a medição de temperatura no vídeo

No vídeo abaixo mostro o circuito reostato funcionando e faço medições de temperatura, permitindo observar na prática por que componentes que dissipam potência podem precisar de dissipadores de calor.

É uma experiência simples, mas ajuda a visualizar algo que às vezes fica abstrato quando estudamos apenas pelas equações:

energia elétrica pode virar calor — e esse calor precisa ir para algum lugar.

Dissipação térmica faz parte do projeto eletrônico

Escolher corretamente um transistor, regulador ou outro componente não significa verificar apenas:

tensão máxima
corrente máxima
potência

Também precisamos considerar sua operação térmica.

Podemos resumir o processo assim:

ENERGIA ELÉTRICA
       ↓
PERDAS NO COMPONENTE
       ↓
      CALOR
       ↓
AUMENTO DE TEMPERATURA
       ↓
TRANSFERÊNCIA TÉRMICA
       ↓
     AMBIENTE

Quando a transferência natural não é suficiente, adicionamos recursos como:

dissipadores, ventilação ou outras formas de gerenciamento térmico.

Por isso o dissipador não deve ser visto apenas como um pedaço de alumínio colocado em componentes que “esquentam muito”.

Ele faz parte do dimensionamento térmico do circuito.

E medir a temperatura durante os testes é uma excelente maneira de descobrir se aquilo que projetamos no papel também está funcionando adequadamente na bancada.

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