Como transformar um barco de brinquedo em um barco de controle remoto

Muitas vezes encontramos um barco de brinquedo antigo e pensamos que ele serve apenas como objeto de coleção ou lembrança.

Mas, se o casco for bom, existe outra possibilidade muito interessante:

transformá-lo em um barco de rádio controle.

Foi exatamente o que fiz com dois antigos barcos da Gulliver: a Gulliver LT70 e a Gulliver Cristina. Os dois eram brinquedos originalmente motorizados, mas não possuíam controle remoto.

E esse tipo de adaptação pode ser uma excelente maneira de entrar no nautimodelismo.

Um barco de brinquedo pode ser uma ótima base para um projeto RC

Quando pensamos em construir um barco de rádio controle, uma possibilidade é começar completamente do zero.

Construímos:

casco;

convés;

cabine;

eixo;

leme;

sistema de propulsão.

Mas existe outro caminho.

Podemos encontrar um barco de brinquedo que já tenha:

um bom casco;

espaço interno;

motor;

eixo e hélice;

leme;

boa aparência.

Nesse caso, boa parte do trabalho mecânico já está pronta.

Nosso desafio passa a ser transformar aquilo que era um brinquedo simples em um modelo controlado remotamente.

Os antigos barcos Gulliver eram excelentes candidatos

A Gulliver fabricou vários brinquedos de plástico, incluindo uma série de barcos.

Alguns desses modelos eram muito interessantes porque possuíam cascos bonitos e construídos com um material bastante adequado, especialmente considerando a época em que foram fabricados. Existiram inclusive versões associadas a super-heróis.

Esses barcos realmente navegavam.

Mas havia uma grande diferença em relação a um nautimodelo RC:

eles não possuíam controle remoto.

Como os barcos funcionavam originalmente?

O funcionamento era bastante simples.

Colocávamos as pilhas.

Ligávamos um interruptor.

O motor começava a funcionar em sua velocidade máxima.

Antes de colocar o barco na água, era necessário ajustar manualmente a posição do leme.

Depois era só soltar o barco.

Ele seguia navegando na direção previamente definida.

O leme precisava ficar firme

Como não existia servo para controlar a direção durante a navegação, o leme não podia ficar solto.

Ele precisava manter a posição definida manualmente.

Por isso, o mecanismo apresentava certa resistência ao movimento. Essa característica ajudava a impedir que o leme mudasse de posição sozinho enquanto o barco navegava.

Era uma solução simples, mas perfeitamente adequada à proposta original do brinquedo.

A grande limitação era não poder controlar o barco depois de colocá-lo na água

Depois que o barco começava a navegar, praticamente tudo já estava decidido.

O motor estava ligado.

O leme estava previamente ajustado.

Não tínhamos um transmissor para dizer:

vire para esquerda;

vire para direita;

reduza a velocidade;

pare.

É justamente isso que torna a conversão para rádio controle tão interessante.

Encontrei dois modelos Gulliver

Anos depois, consegui adquirir dois desses barcos:

Gulliver LT70

e

Gulliver Cristina.

Os dois possuem estilos bastante diferentes.

A LT70 apresenta uma aparência de lancha militar.

A Cristina possui um estilo civil, lembrando uma embarcação utilizada para lazer.

Os tamanhos também são interessantes para uma adaptação

A Gulliver LT70 possui aproximadamente 40 cm de comprimento.

A Gulliver Cristina mede aproximadamente 35 cm.

Isso fornece espaço suficiente para pensar na instalação dos componentes necessários ao rádio controle.

Em um projeto desse tipo precisamos acomodar pelo menos alguns elementos:

receptor;

servo;

bateria;

ligações elétricas.

Dependendo da adaptação, podemos acrescentar outros componentes.

Os motores originais ainda funcionavam

Esse foi um ponto especialmente interessante.

Quando adquiri os dois barcos, ambos ainda possuíam seus motores originais e eles continuavam funcionando perfeitamente.

Isso mostra uma possibilidade importante para quem pretende realizar uma adaptação:

não substitua automaticamente tudo aquilo que é antigo.

Primeiro teste.

Se o motor original ainda funciona e atende ao objetivo do projeto, talvez seja perfeitamente possível aproveitá-lo.

Na LT70 mantive o motor original

No caso da Gulliver LT70, resolvi manter o motor que já acompanhava o barco.

Isso simplifica bastante a conversão.

O sistema mecânico de propulsão já estava instalado.

Em vez de construir tudo novamente, podemos concentrar nosso trabalho no sistema de controle.

Esse é um princípio muito útil em adaptações:

preserve aquilo que funciona e modifique apenas aquilo que precisa ser modificado.

Mas resolvi utilizar uma tensão menor

Existe uma decisão interessante na adaptação da LT70.

O barco originalmente trabalhava em determinada condição de alimentação.

Na conversão, optei por alimentar o motor com uma tensão menor.

O resultado é que atualmente ele não alcança a mesma velocidade que apresentava originalmente.

Mas isso foi intencional.

Nem sempre queremos a maior velocidade possível

No modelismo existe uma tendência natural de pensar:

mais rápido = melhor.

Nem sempre.

No caso da LT70, reduzir a velocidade tornou o barco mais adequado para utilização por crianças, diminuindo o risco de uma colisão forte contra outro barco ou algum obstáculo.

Isso mostra algo importante em qualquer projeto:

o dimensionamento deve considerar a utilização pretendida.

Não precisamos extrair sempre a potência máxima disponível.

Menor tensão pode significar menor rotação em um motor DC

Em um motor DC escovado simples, dentro das condições apropriadas, uma redução da tensão de alimentação tende a reduzir sua velocidade de rotação.

Essa característica pode ser aproveitada em determinados projetos.

Mas é importante compreender que não devemos escolher tensões aleatoriamente.

Precisamos conhecer:

motor;

alimentação;

corrente;

carga mecânica;

condições de funcionamento.

A experiência prática pode nos ajudar bastante.

O grande passo da conversão foi controlar o leme

O barco original já possuía um leme.

O problema é que ele precisava ser ajustado manualmente.

Para transformar o brinquedo em RC, precisamos conseguir movimentar esse leme enquanto o barco está navegando.

A solução é utilizar um servo.

Nos dois barcos instalei um servo de 9 gramas ligado ao leme.

O servo transforma um leme manual em um leme controlável

Podemos imaginar o sistema original assim:

mão → leme

Ajustamos a direção e soltamos o barco.

Depois da adaptação:

transmissor → receptor → servo → leme

Agora movimentamos o comando no transmissor.

O receptor recebe a informação.

O servo muda sua posição.

O leme acompanha o movimento.

E o barco muda de direção.

Essa pequena alteração transforma completamente a experiência.

Um microservo de 9 gramas pode ser suficiente

Servos de aproximadamente 9 g são extremamente comuns no modelismo.

São pequenos e leves, características interessantes para embarcações desse porte.

Mas não devemos escolher um servo apenas pelo peso.

Também precisamos considerar:

torque;

tensão;

velocidade;

dimensões;

curso necessário;

resistência mecânica do leme.

Nos barcos Gulliver adaptados, um servo de 9 g foi utilizado para movimentar o leme.

Precisamos fazer uma ligação mecânica entre servo e leme

Não basta colocar o servo dentro do barco.

Precisamos transferir seu movimento para o leme.

Normalmente utilizamos algum tipo de haste.

Podemos pensar:

braço do servo → haste → braço do leme

Quando o servo gira:

a haste se desloca;

o braço do leme acompanha;

o leme muda de posição.

É um mecanismo extremamente simples e eficiente.

O posicionamento do servo merece atenção

Antes de fixar definitivamente o servo, vale fazer testes.

Coloque o leme aproximadamente no centro.

Centralize eletronicamente o servo.

Observe a posição do braço.

Planeje a ligação mecânica.

O objetivo é conseguir aproximadamente:

stick central → leme centralizado

stick para esquerda → leme para um lado

stick para direita → leme para o outro.

Evite que o servo force o mecanismo

Imagine que o leme chegue ao limite mecânico antes de o servo terminar seu movimento.

O servo continuará tentando atingir a posição comandada.

Isso pode aumentar:

esforço;

corrente;

aquecimento.

Por isso, ajuste corretamente a geometria da haste e, quando disponível, o curso do canal no transmissor.

O receptor recebe os comandos

Para controlar o servo precisamos de um receptor instalado no barco.

O receptor é a parte embarcada do sistema de rádio controle.

Temos então:

transmissor

comunicação por rádio

receptor

servo

leme

A partir desse momento, o antigo brinquedo já começa a se comportar como um verdadeiro barco RC.

Qual rádio controle utilizei?

Nos dois barcos utilizei um Turnigy 9X.

Mas existe um detalhe importante:

não é obrigatório utilizar esse rádio específico.

A própria adaptação pode ser realizada com outros sistemas de rádio controle adequados.

O Turnigy 9X foi simplesmente o equipamento utilizado nesses projetos.

O rádio não precisa ser sofisticado para essa conversão

Para um barco simples, nossas necessidades básicas podem ser relativamente pequenas.

Precisamos controlar:

direção

e, dependendo da configuração,

propulsão.

Se acrescentarmos funções, a quantidade de canais necessária aumenta.

Podemos querer controlar:

luzes;

bomba;

radar;

som;

outros mecanismos.

Mas para começar, um sistema simples já permite transformar completamente o brinquedo.

A propulsão merece ser analisada separadamente

Se o barco possui um motor original funcionando, precisamos decidir como queremos utilizá-lo.

Uma possibilidade é simplesmente manter uma configuração mais próxima do brinquedo original.

Outra é acrescentar controle eletrônico sobre o motor.

Nesse caso começamos a entrar em assuntos como:

ESC;

controle de velocidade;

corrente do motor;

tensão;

bateria.

A solução adequada depende do motor e daquilo que pretendemos fazer com o modelo.

Antes de modificar, descubra que motor existe no barco

Não presuma que qualquer controlador pode ser ligado a qualquer motor.

Primeiro observe o conjunto.

Verifique:

quantos fios possui o motor;

tensão original;

tipo de alimentação;

estado das conexões;

condição do eixo;

hélice.

Em brinquedos antigos, podemos encontrar soluções bastante simples, o que pode facilitar a adaptação.

Teste o motor antes de desmontar tudo

Se você encontrou um barco antigo, não comece arrancando os componentes.

Primeiro descubra aquilo que ainda funciona.

Faça uma inspeção.

Observe:

motor;

eixo;

hélice;

leme;

interruptor;

compartimento das pilhas;

fiação.

Talvez grande parte da estrutura original possa ser preservada.

Foi exatamente o que aconteceu com os dois Gulliver: os motores originais ainda estavam funcionando.

O eixo da hélice também merece atenção

Um barco que ficou guardado durante muitos anos pode apresentar problemas mecânicos mesmo que o motor ainda funcione.

Observe se o eixo:

gira livremente;

não apresenta resistência excessiva;

não está desalinhado;

não produz vibração anormal.

O motor pode estar perfeito e ainda assim gastar energia excessivamente tentando movimentar um eixo com problemas.

A vedação é fundamental

Sempre que instalamos componentes eletrônicos em um barco, precisamos lembrar:

água e eletrônica não formam uma boa combinação.

Antes de navegar, verifique o casco.

Procure:

rachaduras;

furos;

regiões abertas;

passagens de eixo;

passagem do leme.

Uma infiltração pequena pode ser suficiente para causar problemas no receptor ou na alimentação.

Faça o primeiro teste sem eletrônica

Uma ideia simples é colocar o casco na água antes da instalação definitiva dos componentes.

Observe se entra água.

Depois retire o barco e verifique seu interior.

Esse teste ajuda a separar dois problemas:

problema de vedação

e

problema da adaptação eletrônica.

Depois faça um teste com todos os componentes instalados

A distribuição de peso muda quando acrescentamos:

servo;

receptor;

bateria;

fiação.

Portanto, precisamos colocar o barco novamente na água e observar sua posição.

Ele está inclinado?

A proa afundou demais?

A popa ficou muito baixa?

A linha d’água parece adequada?

Talvez seja necessário reposicionar a bateria ou outros componentes.

A bateria é excelente para ajustar o centro de massa

Normalmente a bateria é um dos componentes mais pesados do sistema.

Por isso, sua posição pode alterar bastante o equilíbrio da embarcação.

Antes de fixá-la definitivamente, experimente posições diferentes.

Movimente-a:

para frente;

para trás;

para um lado;

para outro.

Observe o comportamento do casco.

Não faça a primeira navegação longe da margem

Depois de uma adaptação, comece devagar.

Teste próximo.

Primeiro verifique:

direção;

motor;

alcance do rádio;

entrada de água;

estabilidade.

Faça alguns minutos de navegação.

Retire o barco.

Abra.

Veja se existe água no interior.

Somente depois aumente gradualmente a distância.

Um barco antigo pode exigir atenção especial ao plástico

Materiais plásticos envelhecem.

Um casco visualmente bonito pode apresentar regiões mais frágeis depois de muitos anos.

Por isso, evite fazer furos ou apertar parafusos sem observar a condição do material.

Sempre que possível, planeje a adaptação de maneira a preservar o brinquedo original.

Isso é ainda mais interessante quando estamos trabalhando com modelos antigos.

Existe também um valor histórico nesses brinquedos

A Gulliver produziu esses barcos há décadas.

Hoje ainda é possível encontrar exemplares no mercado de usados, como aconteceu comigo.

Por isso, antes de realizar uma modificação irreversível em um exemplar antigo, vale avaliar seu estado.

Um modelo raro, completo e muito bem conservado pode ter interesse como item de coleção.

Um exemplar incompleto ou já modificado pode ser um candidato especialmente interessante para uma conversão RC.

Não precisamos transformar o barco em uma lancha extremamente rápida

A adaptação pode preservar o espírito do brinquedo.

Essa foi justamente a opção feita na LT70.

Mantive o motor original e ainda reduzi sua velocidade utilizando uma tensão menor, buscando uma utilização mais tranquila e adequada inclusive para crianças.

O objetivo era diversão e controle.

Não velocidade máxima.

O projeto pode ser muito simples

Podemos pensar na conversão em blocos:

1. Encontrar um casco adequado

2. Verificar motor, eixo e hélice

3. Verificar o leme

4. Instalar um servo

5. Instalar o receptor

6. Instalar a alimentação

7. Fazer a ligação mecânica do leme

8. Testar

Essa abordagem torna o projeto muito mais fácil de compreender.

Depois podemos sofisticar

Quando o barco básico estiver funcionando, podemos acrescentar novas funções.

Por exemplo:

iluminação;

faróis;

luzes de navegação;

controle eletrônico de velocidade;

bomba d’água;

som;

câmera;

outros acessórios.

Mas existe uma vantagem enorme em fazer primeiro o básico funcionar.

Se adicionarmos dez sistemas simultaneamente e alguma coisa não funcionar, descobrir o problema fica muito mais difícil.

Transformar brinquedos é uma ótima maneira de aprender

Um projeto como esse reúne várias áreas.

Temos mecânica:

eixo, hélice, leme e haste.

Temos elétrica:

bateria, motor e fios.

Temos eletrônica:

receptor, servo e eventualmente ESC.

Temos rádio controle:

transmissor e receptor.

Tudo dentro de um único projeto.

E não precisamos construir o casco

Para quem está começando, essa é uma vantagem enorme.

Construir um casco do zero pode exigir:

corte;

colagem;

alinhamento;

impermeabilização;

acabamento;

pintura.

Quando reaproveitamos um bom barco de brinquedo, pulamos grande parte desse trabalho.

Podemos concentrar nossa atenção naquilo que queremos aprender:

como transformar o barco em RC.

A Gulliver LT70 mostra muito bem essa possibilidade

A LT70 possui aproximadamente 40 cm, aparência de lancha militar e, no exemplar que adquiri, o motor original continuava funcionando. Mantive esse motor, instalei um servo de 9 g no leme e utilizei o sistema de rádio controle.

Além disso, optei por reduzir a tensão de alimentação, fazendo com que a lancha navegasse mais lentamente do que na configuração original.

É uma adaptação relativamente simples que muda completamente a maneira de utilizar o brinquedo.

A Gulliver Cristina recebeu o mesmo conceito básico

A Cristina é um pouco menor, com aproximadamente 35 cm, e possui aparência de uma embarcação civil de lazer. O exemplar adquirido também conservava o motor original funcionando.

Assim como na LT70, foi instalado um servo de 9 g no leme, permitindo controlar sua direção remotamente.

Dois barcos diferentes, mas a mesma ideia:

aproveitar uma boa plataforma existente e acrescentar rádio controle.

Olhe para os barcos de brinquedo de outra maneira

Essa talvez seja a principal mensagem deste projeto.

Da próxima vez que encontrar uma pequena lancha ou barco de brinquedo, não olhe apenas para aquilo que ele é.

Observe aquilo que poderia se tornar.

Pergunte:

O casco é bom?

Existe espaço interno?

O leme pode ser adaptado?

O eixo está aproveitável?

O motor funciona?

Consigo instalar um servo?

Consigo colocar receptor e bateria?

Se as respostas forem positivas, talvez você tenha encontrado a base do seu próximo nautimodelo.

Veja no vídeo as duas Gulliver transformadas

No vídeo desta página mostro justamente os barcos que adaptei.

São dois modelos antigos da Gulliver — LT70 e Cristina — originalmente motorizados, mas sem rádio controle. Os motores ainda funcionavam quando adquiri os barcos, e ambos receberam servos de 9 g para controle do leme.

A experiência mostra que não precisamos necessariamente começar um barco RC construindo tudo do zero.

Às vezes o casco ideal já existe.

Só estava esperando alguém olhar para ele de outra maneira.

Quer aprender eletrônica transformando seus próprios modelos?

A conversão de um barco de brinquedo para rádio controle rapidamente traz várias perguntas:

Como ligar o servo ao receptor?

Como alimentar o receptor?

Como controlar a velocidade do motor?

O que é um ESC?

O que é BEC?

Qual bateria utilizar?

Como medir o consumo do motor?

Como acrescentar LEDs e outras funções?

No Método 7H RC, a proposta é utilizar situações reais do aeromodelismo, automodelismo e nautimodelismo para aprender elétrica e eletrônica de maneira prática.

Assim, aquele velho barco de brinquedo deixa de ser apenas um objeto guardado.

Ele pode se transformar em uma verdadeira bancada flutuante para aprender eletrônica, rádio controle e modelismo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *