Quem trabalha com modelismo acaba descobrindo que muitos materiais originalmente fabricados para outras finalidades podem ser extremamente úteis na construção de modelos.
Um exemplo muito interessante é o alfinete de latão.
Essas pequenas peças podem ser encontradas em lojas de artesanato, bijuterias e materiais para trabalhos manuais. Originalmente são utilizadas para fazer brincos, acessórios e outros objetos decorativos.
No modelismo, entretanto, podemos encontrar inúmeras outras aplicações.
O principal motivo é uma característica muito interessante do latão: além de ser relativamente fácil de trabalhar, ele aceita muito bem a soldagem com estanho utilizando um ferro de soldar comum. Foi justamente essa característica que mostrei no vídeo original deste artigo.
Por que o latão é tão interessante no modelismo?
Quando precisamos construir uma pequena peça metálica, temos vários materiais à disposição.
Aço.
Alumínio.
Cobre.
Latão.
Cada um possui características próprias e não existe um material ideal para todas as situações.
O latão, entretanto, apresenta uma combinação muito conveniente para pequenos trabalhos de modelismo: pode ser encontrado em diferentes formatos, é relativamente fácil de cortar e conformar e, principalmente, permite realizar pequenas uniões utilizando solda de estanho.
Para quem trabalha em casa, isso é uma enorme vantagem.
Não precisamos necessariamente de equipamentos sofisticados para unir pequenas peças.
O que é o latão?
O latão é uma liga metálica formada principalmente por cobre e zinco.
As proporções desses elementos podem variar e, consequentemente, as propriedades do material também podem mudar.
Visualmente, o latão normalmente apresenta uma tonalidade amarelada ou dourada.
É um material encontrado em uma quantidade enorme de produtos:
parafusos;
conectores;
terminais;
tubos;
chapas;
hastes;
peças decorativas;
instrumentos;
componentes mecânicos.
E também nos pequenos alfinetes utilizados em bijuterias que aproveitei nos meus projetos de modelismo.
O interessante está no tamanho
Quando construímos um modelo, frequentemente precisamos de uma pequena haste metálica.
Talvez precisemos apenas de alguns centímetros.
Comprar uma barra grande de material para retirar uma peça minúscula nem sempre faz sentido.
Os alfinetes de latão resolvem justamente esse problema.
Eles já possuem:
pequeno diâmetro + formato de haste + comprimento adequado para pequenas peças.
Dependendo do projeto, podemos cortar somente aquilo que precisamos e aproveitar o restante posteriormente.
Onde encontrar alfinetes de latão?
No artigo original mencionei uma fonte que pode passar despercebida por quem procura materiais para modelismo:
lojas de materiais para artesanato, tecidos e bijuterias.
Esses pequenos alfinetes são utilizados para produção de brincos e outros adereços.
Para nós, modelistas, entretanto, eles podem se transformar em matéria-prima.
Esse é um hábito interessante para quem gosta de construir.
Quando entramos em uma loja de ferragens, artesanato ou materiais diversos, começamos a olhar para os objetos não apenas pela função para a qual foram vendidos, mas pensando:
“O que eu poderia construir com isso?”
Para que posso utilizar um alfinete de latão no modelismo?
As aplicações dependerão naturalmente do modelo e das dimensões do alfinete.
Mas pequenas hastes de latão podem ser interessantes para produzir:
pinos;
eixos pequenos;
dobradiças;
articulações;
tirantes;
suportes;
detalhes de acabamento;
pequenos mecanismos;
corrimãos;
antenas decorativas;
estruturas em miniatura;
peças de escala.
No nautimodelismo, por exemplo, pequenos elementos metálicos aparecem constantemente em rebocadores, navios e lanchas.
Muito útil no modelismo de escala
Quanto mais detalhado for o modelo, maior será a necessidade de trabalhar com peças pequenas.
Imagine construir um rebocador de escala.
Podemos precisar reproduzir:
corrimãos;
escadas;
suportes;
mastros;
guarda-corpos;
dobradiças;
pequenos mecanismos.
Construir tudo isso utilizando materiais muito grossos pode prejudicar a aparência do modelo.
Uma haste fina de latão pode ser uma excelente matéria-prima para esses detalhes.
Podemos dobrar o latão
Outra vantagem é a possibilidade de conformar pequenas peças.
Dependendo da espessura e da liga utilizada, podemos dobrar a haste utilizando um pequeno alicate.
Isso permite transformar uma peça reta em:
um gancho;
um suporte;
uma alça;
uma curva;
um pequeno elemento estrutural.
Mas existe uma dica importante.
Sempre que possível, faça a dobra utilizando uma ferramenta que permita controlar bem o ponto em que o material será deformado.
Cuidado para não marcar excessivamente a peça
Um alicate pode deixar marcas no latão.
Se a peça ficará escondida dentro de um mecanismo, talvez isso não importe.
Mas se estivermos construindo um detalhe visível de um modelo de escala, as marcas podem prejudicar o acabamento.
Podemos proteger a superfície durante determinados trabalhos ou realizar posteriormente um pequeno acabamento com lixa fina.
A escolha depende da finalidade da peça.
E chegamos à grande vantagem: a soldagem
Foi justamente essa característica que motivou o artigo original.
O latão aceita muito bem a soldagem com estanho, permitindo realizar pequenos trabalhos utilizando um ferro de soldar comum.
Isso é especialmente interessante porque estamos acostumados a associar o ferro de soldar apenas à eletrônica.
Pensamos em:
fios;
resistores;
capacitores;
placas eletrônicas;
conectores.
Mas ele também pode ser utilizado para construir pequenas estruturas metálicas.
Não estamos falando de soldagem elétrica de grande porte
É importante distinguir os processos.
No artigo original eu já destacava que não estava falando de uma máquina de solda utilizada para estruturas metálicas maiores.
Estamos falando do ferro de soldar utilizado normalmente com estanho.
Naturalmente, existem limites.
Não vamos construir uma estrutura metálica de grande porte utilizando um pequeno ferro de eletrônica.
Mas para peças pequenas de latão, ele pode funcionar muito bem.
Eu utilizava um ferro de soldar de 30 W
Na experiência mostrada originalmente, eu utilizava em casa um ferro de soldar de apenas 30 watts, que atendia bem aos pequenos trabalhos com superfícies de latão.
Isso mostra uma característica interessante.
Para começar a experimentar, talvez você já tenha praticamente todo o equipamento necessário em sua bancada.
Um ferro de soldar.
Solda.
Algumas ferramentas.
E as pequenas peças de latão.
Mas 30 W não servem para qualquer peça
Aqui encontramos um conceito muito importante.
O fato de um ferro de 30 W funcionar em uma pequena peça de latão não significa que ele conseguirá soldar qualquer objeto de latão ou cobre.
Eu mesmo encontrei esse problema.
Certa vez precisei soldar uma haste de latão em uma peça grande de cobre.
O pequeno ferro simplesmente não conseguia fornecer calor suficiente para realizar adequadamente o trabalho.
Por quê?
Porque a peça grande dissipava o calor rapidamente.
O metal conduz o calor para longe da região da solda
Quando encostamos a ponta quente do ferro sobre uma pequena peça metálica, o calor começa a se espalhar pelo material.
Se a peça for pequena, conseguimos elevar rapidamente a temperatura da região que será soldada.
Agora imagine uma grande peça de cobre.
O cobre é um excelente condutor térmico.
O calor colocado em um pequeno ponto começa rapidamente a se espalhar por uma área muito maior.
O ferro tenta aquecer.
A peça retira o calor daquela região.
O resultado pode ser uma junta que simplesmente não alcança a temperatura adequada.
É por isso que a potência do ferro importa
Um ferro de soldar de maior potência consegue fornecer energia térmica mais rapidamente.
No exemplo que contei no artigo original, para aquela peça grande considerei mais adequado utilizar um ferro na faixa de 100 W, em vez do pequeno modelo de 30 W que eu utilizava normalmente.
Isso não significa que devemos utilizar sempre o ferro mais potente disponível.
O correto é escolher uma ferramenta compatível com o tamanho e a capacidade de dissipação térmica da peça.
Para pequenas estruturas de latão, um ferro relativamente modesto pode ser suficiente.
Potência não é exatamente a mesma coisa que temperatura
Essa distinção é interessante.
Dois ferros podem atingir temperaturas semelhantes na ponta quando estão sem carga térmica, mas apresentar comportamentos muito diferentes quando encostamos em uma grande peça metálica.
O ferro de maior potência possui maior capacidade de fornecer energia para compensar o calor que está sendo retirado da ponta.
Por isso, às vezes um ferro parece estar perfeitamente quente, mas quando tentamos soldar determinada peça o estanho não flui adequadamente.
O problema pode não ser simplesmente a temperatura inicial da ponta.
Pode ser a capacidade de manter o aquecimento durante a soldagem.
A preparação da superfície é fundamental
Uma boa soldagem não depende apenas do ferro.
As superfícies precisam estar adequadamente preparadas.
Oxidação, sujeira, óleo e outros contaminantes podem dificultar a aderência da solda.
Antes de fazer uma pequena estrutura de latão, vale observar as regiões que serão unidas.
Em alguns casos, uma limpeza mecânica suave ajuda bastante.
Uma superfície limpa facilita o processo.
O fluxo de solda também tem uma função importante
Na soldagem com estanho utilizamos fluxo para auxiliar o processo.
Sua função está relacionada à limpeza química das superfícies e à melhoria das condições para que a solda molhe adequadamente os metais.
Muitas soldas utilizadas em eletrônica já possuem fluxo em seu interior.
Para determinados trabalhos mecânicos com latão, podem existir fluxos específicos mais adequados.
Mas é importante verificar a compatibilidade do produto com a aplicação.
Alguns fluxos mais agressivos exigem limpeza cuidadosa depois da soldagem porque seus resíduos podem favorecer corrosão.
Estanhar previamente pode facilitar
Uma técnica interessante em determinadas montagens é aplicar previamente uma pequena quantidade de solda às superfícies que serão unidas.
Isso é conhecido como estanhagem.
Podemos ter:
peça A estanhada + peça B estanhada
Depois posicionamos as duas peças, aplicamos calor na região e fazemos a união.
Dependendo da geometria, isso pode facilitar bastante o trabalho.
Posicionar as peças é metade do problema
Quem já tentou soldar duas pequenas hastes sabe exatamente o que acontece.
Você posiciona perfeitamente.
Encosta o ferro.
Uma delas se movimenta.
Reposiciona.
Encosta novamente.
Agora a outra sai do lugar.
Por isso, antes de começar a soldar, pense em alguma maneira de manter as peças imóveis.
Faça um pequeno gabarito
Para estruturas mais elaboradas, um gabarito pode fazer enorme diferença.
Imagine que você queira construir vários corrimãos iguais para um nautimodelo.
Em vez de posicionar cada haste manualmente, podemos desenhar a geometria em uma base e criar pontos de apoio.
Assim:
posicionamos → prendemos → soldamos.
Além de facilitar o trabalho, conseguimos produzir várias peças com dimensões semelhantes.
Uma terceira mão também ajuda
A conhecida ferramenta de bancada chamada “terceira mão”, normalmente formada por braços articulados com garras, pode ajudar bastante.
Ela permite segurar peças enquanto trabalhamos com:
ferro de soldar em uma mão;
solda na outra.
Pinças e pequenos grampos também podem ser utilizados dependendo do formato da montagem.
Evite excesso de solda
Quando estamos começando, existe a tendência de pensar:
mais solda = união mais forte.
Nem sempre.
Uma boa junta depende de a solda ter molhado corretamente as superfícies.
Criar uma enorme bola de estanho ao redor das peças pode produzir um acabamento ruim sem necessariamente resolver uma junta inadequada.
No modelismo de escala isso é ainda mais importante.
Uma quantidade excessiva de solda pode deixar a peça desproporcional.
Uma boa solda deve acompanhar a junta
Em pequenas estruturas, queremos que a solda se distribua pela região de contato entre os metais.
Depois podemos realizar acabamento quando necessário.
Quanto menor e mais delicada for a peça, maior será a importância de controlar a quantidade utilizada.
É uma habilidade que melhora bastante com prática.
Use peças descartáveis para treinar
Antes de tentar soldar diretamente aquela peça que levou horas para preparar, pegue dois pedaços de latão.
Limpe.
Posicione.
Solde.
Depois tente separar.
Observe a junta.
Faça outra.
Experimente diferentes tempos de aquecimento.
Isso ajuda a desenvolver sensibilidade para perceber quando a peça atingiu a temperatura necessária.
Não aqueça apenas o estanho
Um erro muito comum é colocar a solda diretamente na ponta do ferro e tentar “pintar” a peça com estanho derretido.
A lógica correta é fazer com que a região da junta esteja suficientemente quente para permitir o fluxo da solda.
O ferro transfere calor para as peças.
A solda então encontra as superfícies aquecidas e pode se distribuir adequadamente.
Esse pequeno entendimento melhora muito a qualidade das uniões.
Cuidado: a peça inteira pode ficar quente
Metais conduzem calor.
Uma haste aparentemente fria em uma extremidade pode rapidamente ficar quente durante o trabalho.
Não segure a peça com os dedos próximo da região da soldagem.
Utilize ferramentas adequadas para posicionamento e espere o material esfriar antes de manuseá-lo.
Além disso, mantenha o ferro em um suporte apropriado quando não estiver sendo utilizado.
Ventilação também é importante
Durante a soldagem são produzidos fumos provenientes principalmente do fluxo.
Evite manter o rosto diretamente sobre a região da solda.
Trabalhe em local ventilado e, se a soldagem fizer parte frequentemente dos seus projetos, considere utilizar um sistema apropriado de extração de fumos.
Depois da soldagem vem o acabamento
Uma pequena estrutura de latão recém-soldada pode não parecer muito bonita.
Podem existir:
resíduos;
excesso de solda;
marcas;
irregularidades.
Depois que a peça estiver completamente fria, podemos realizar o acabamento necessário.
Dependendo do projeto, pequenas limas e lixas podem ajudar.
No modelismo de escala, essa etapa é particularmente importante porque queremos que a solda praticamente desapareça visualmente.
O latão pode ser pintado
Depois de pronta, a peça pode receber acabamento compatível com o projeto.
Um corrimão de latão não precisa necessariamente permanecer dourado.
Podemos prepará-lo e pintá-lo para reproduzir o componente existente no modelo real.
Isso significa que o latão pode funcionar apenas como estrutura mecânica, enquanto a pintura determina a aparência final.
Excelente para corrimãos de barcos
Uma aplicação que combina muito bem com esse material é a construção de corrimãos para nautimodelos.
Temos pequenas hastes.
Precisamos fazer curvas.
Precisamos unir diferentes partes.
Queremos uma estrutura fina, mas razoavelmente resistente.
E depois provavelmente iremos pintá-la.
O latão atende muito bem a esse tipo de necessidade.
Também podemos construir pequenas dobradiças
Combinando hastes e pequenos tubos de latão, podemos criar articulações.
Isso pode ser utilizado em:
portas;
tampas;
escotilhas;
pequenos mecanismos.
O interessante é que começamos a enxergar o material não apenas como um “alfinete”.
Ele se torna uma pequena barra metálica pronta para ser transformada.
O material de bijuteria pode virar matéria-prima de engenharia
Essa é talvez a parte mais divertida da ideia.
Para uma pessoa, aquela peça é matéria-prima para fabricar um brinco.
Para o modelista, pode virar:
um eixo;
uma dobradiça;
um corrimão;
um pino;
um suporte;
uma articulação.
O objeto é o mesmo.
O que muda é a maneira como olhamos para ele.
Veja o alfinete de latão e a utilização no vídeo
No vídeo original deste artigo mostro com mais detalhes o alfinete de latão que utilizo no modelismo e explico por que esse material é interessante para pequenos trabalhos que podem ser soldados utilizando um ferro de soldar comum.
Uma matéria-prima simples e muito útil para ter na bancada
Os alfinetes de latão são baratos, pequenos, fáceis de armazenar e podem resolver diversos problemas durante a construção de um modelo.
Mas o principal aprendizado vai além do próprio alfinete.
O modelismo nos ensina a conhecer materiais.
Quando entendemos suas características, começamos a perceber possibilidades que antes passavam despercebidas.
Uma pequena haste encontrada em uma loja de bijuterias pode se transformar em uma peça perfeitamente funcional de um barco, avião, carro ou outro projeto.
E, no caso do latão, temos uma vantagem adicional extremamente útil para quem trabalha em casa:
podemos realizar muitas dessas pequenas construções utilizando o mesmo ferro de soldar que já temos na bancada de eletrônica.
Quer aprender a fazer suas próprias montagens e modificações no modelismo?
Saber soldar corretamente é uma habilidade extremamente útil no modelismo. Ela aparece na construção de pequenas peças metálicas, mas também nas ligações de motores, baterias, ESCs, conectores, LEDs, receptores e outros componentes elétricos e eletrônicos.
Quando entendemos os materiais, as ferramentas e os princípios elétricos envolvidos, deixamos de depender apenas de peças prontas e ganhamos muito mais liberdade para construir e modificar nossos próprios modelos.
Essa é justamente a proposta do Método 7H RC: ensinar elétrica e eletrônica aplicadas ao rádio controle de maneira prática, utilizando situações encontradas no aeromodelismo, automodelismo e nautimodelismo.
Se você quer ganhar autonomia para construir, adaptar, soldar, testar e entender melhor seus próprios projetos de rádio controle, conheça o Método 7H RC.
Veja também: esta técnica de fabricação e detalhamento faz parte do guia Construção, Materiais e Projetos de Modelismo, que reúne materiais, ferramentas, técnicas de montagem, acabamento e soluções práticas para construção de modelos.