Os amplificadores valvulados continuam despertando muito interesse entre músicos, guitarristas e apaixonados por eletrônica de áudio.
Mesmo com toda a evolução dos amplificadores transistorizados e digitais, as válvulas continuam presentes em muitos equipamentos destinados principalmente à guitarra.
Existe uma razão simples para isso:
o circuito valvulado possui características próprias de funcionamento e produz uma resposta sonora diferente daquela encontrada em um amplificador transistorizado.
Foi justamente o interesse por esse tipo de circuito que me levou a construir um pequeno amplificador baseado no clássico Fender Champ 5C1.
O projeto utiliza poucos componentes e apenas duas válvulas no caminho de amplificação:
6SJ7 no pré-amplificador
e
6V6 no estágio de potência.
O resultado é um pequeno amplificador valvulado de aproximadamente 5 watts, com um timbre que considero particularmente interessante para Blues e Rock.
O que é o Fender Champ 5C1?
O Fender Champ é uma família de pequenos amplificadores para guitarra.
O circuito 5C1 pertence às primeiras gerações do Champ e utiliza uma arquitetura extremamente simples.
No projeto que montei, temos basicamente:
entrada da guitarra
↓
válvula 6SJ7
↓
válvula 6V6
↓
transformador de saída
↓
alto-falante
Além disso, naturalmente existe a fonte de alimentação responsável por fornecer as diferentes tensões necessárias ao circuito.
O interessante é justamente a pequena quantidade de componentes utilizada nesse amplificador.
Por que construir um amplificador valvulado?
Podemos simplesmente comprar um amplificador pronto.
Mas, para quem gosta de eletrônica, construir um amplificador oferece outra experiência.
Durante a montagem começamos a compreender assuntos como:
pré-amplificação;
amplificação de potência;
polarização;
transformadores;
filamentos;
retificação;
capacitores de filtro;
acoplamento entre estágios;
alto-falantes.
Ou seja, o amplificador deixa de ser uma caixa fechada e passa a ser um conjunto de blocos que conseguimos estudar separadamente.
As válvulas produzem um comportamento diferente dos transistores
Uma válvula e um transistor podem ser utilizados para amplificar sinais, mas são dispositivos muito diferentes.
Em um transistor bipolar normalmente encontramos:
base;
coletor;
emissor.
Já em uma válvula podemos encontrar elementos como:
cátodo;
grade;
placa;
além de outras grades, dependendo do tipo de válvula.
Essa diferença física e elétrica produz circuitos com características bastante distintas.
O que é uma válvula eletrônica?
Uma válvula utiliza o movimento de elétrons dentro de um invólucro evacuado para controlar corrente elétrica.
Um dos primeiros elementos importantes é o cátodo.
Ele precisa ser aquecido.
Por isso encontramos também o circuito do:
filamento.
Quando o conjunto atinge a temperatura de funcionamento, ocorre a emissão de elétrons.
Esses elétrons podem ser controlados pelos diferentes elementos internos da válvula.
Assim, um pequeno sinal aplicado ao circuito de controle pode modificar uma corrente muito maior.
É justamente esse princípio que permite utilizar a válvula na amplificação.
As duas válvulas utilizadas no meu Champ possuem filamento de 6,3 V
No amplificador que montei, tanto a 6SJ7 quanto a 6V6 possuem filamentos alimentados por 6,3 volts.
Essa tensão vem de um enrolamento separado existente no transformador de alimentação.
Portanto, o transformador não possui apenas a função de alimentar a parte de alta tensão do circuito.
Ele também precisa fornecer a tensão adequada aos filamentos.
Por que precisamos do filamento?
Sem o aquecimento adequado, a válvula não consegue trabalhar normalmente.
É por isso que, ao ligar um equipamento valvulado, podemos observar os filamentos começando a aquecer.
Dependendo da válvula e de sua construção, podemos inclusive enxergar um pequeno brilho interno.
Isso faz parte do funcionamento normal do componente.
A 6SJ7 faz a pré-amplificação
A primeira válvula utilizada no meu circuito é a 6SJ7.
Ela funciona no estágio de pré-amplificação.
O sinal proveniente da guitarra é relativamente pequeno.
Portanto, antes de chegar à etapa de potência, precisamos amplificá-lo.
Podemos representar:
Guitarra
↓
Sinal de pequena amplitude
↓
6SJ7
↓
Sinal amplificado
↓
6V6
A 6SJ7 é responsável por essa primeira amplificação.
A 6V6 é a válvula de potência
Depois do estágio de pré-amplificação, o sinal chega à 6V6.
Ela exerce a função de válvula de saída, ou seja, é responsável pela etapa de potência do amplificador.
Agora não estamos apenas aumentando a amplitude de um pequeno sinal.
Precisamos fornecer energia suficiente para movimentar o alto-falante.
É justamente aí que entra o estágio de potência.
As duas válvulas são pentodos
Tanto a 6SJ7 quanto a 6V6 utilizadas nesse circuito são pentodos.
O nome está relacionado à quantidade de elementos internos ativos da válvula.
Em um pentodo encontramos cinco elementos principais.
Essa construção oferece características diferentes de válvulas mais simples, como os triodos.
O que é um triodo?
Um triodo possui três elementos principais:
cátodo;
grade de controle;
placa.
É uma das configurações clássicas utilizadas em amplificação.
Existem também válvulas chamadas duplo triodo, nas quais temos dois sistemas semelhantes dentro do mesmo invólucro.
Um exemplo muito conhecido na eletrônica de áudio é a:
12AX7.
O Fender Champ 5F1 utiliza outra configuração
Existe outro circuito Fender Champ muito conhecido, o 5F1.
Nesse modelo encontramos uma configuração diferente, utilizando no pré-amplificador uma válvula do tipo duplo triodo, como a 12AX7.
Isso é interessante porque mostra que amplificadores aparentemente semelhantes podem utilizar arquiteturas diferentes.
Alterar a válvula de pré-amplificação significa alterar também a maneira como o circuito precisa ser projetado.
Minha 6SJ7 possui uma característica interessante
A válvula 6SJ7 que utilizei não possui a aparência tradicional de uma válvula inteira de vidro.
Ela possui uma estrutura metálica blindada.
No artigo original mencionei justamente essa construção mais resistente e menos suscetível a interferências externas.
Visualmente, ela chama atenção porque é bastante diferente das válvulas de vidro que normalmente associamos a amplificadores de guitarra.
O estágio de potência utiliza apenas uma 6V6
Esse é outro ponto muito interessante do projeto.
Temos apenas uma válvula de potência.
A configuração é conhecida como single-ended.
Podemos pensar:
Pré-amplificador
↓
uma única válvula de potência
↓
transformador de saída
↓
alto-falante.
É uma arquitetura relativamente simples e muito interessante para quem deseja estudar amplificação valvulada.
O que é um amplificador single-ended?
Em uma configuração single-ended, um único dispositivo de potência trabalha com todo o sinal do estágio.
Isso é diferente de um circuito push-pull, no qual normalmente utilizamos dois dispositivos trabalhando de maneira complementar em partes do ciclo do sinal.
Portanto:
single-ended → uma válvula de saída principal
enquanto:
push-pull → normalmente duas válvulas de saída trabalhando em conjunto.
O Champ 5C1 oferece justamente uma ótima oportunidade para estudar uma arquitetura single-ended simples.
O amplificador entrega aproximadamente 5 watts
A potência do circuito fica em torno de 5 watts.
Quem está acostumado a amplificadores modernos anunciados com dezenas ou centenas de watts pode imaginar:
“5 W é muito pouco.”
Mas potência elétrica e volume percebido não possuem uma relação linear simples.
Além disso, para guitarra, o comportamento do amplificador quando começa a saturar é uma parte importante do próprio timbre.
Um pequeno valvulado pode produzir bastante volume
Cinco watts em um alto-falante adequado podem produzir um volume bastante significativo em ambientes menores.
É suficiente para:
estudar;
gravar;
ensaiar em determinadas condições;
experimentar diferentes timbres.
E existe ainda uma possibilidade muito utilizada em apresentações:
microfonar o amplificador.
Podemos microfonar um pequeno amplificador
Essa era inclusive uma observação que fiz no artigo original.
Mesmo um amplificador de pequena potência pode ser utilizado em situações de ensaio ou apresentação quando colocamos um microfone diante do alto-falante e enviamos esse sinal para o sistema de PA.
Temos:
Guitarra
↓
Amplificador
↓
Alto-falante
↓
Microfone
↓
Mesa
↓
PA
Assim, o amplificador pode ser escolhido principalmente por seu timbre, enquanto o sistema de PA é responsável por reproduzir esse som em maior escala.
O amplificador participa diretamente do timbre da guitarra
Quando pensamos em timbre, não podemos analisar apenas o instrumento.
Temos uma cadeia:
guitarra
↓
captadores
↓
pedais, quando utilizados
↓
amplificador
↓
alto-falante
↓
ambiente.
Cada etapa interfere no resultado.
Por isso dois amplificadores diferentes podem fazer a mesma guitarra soar de maneiras bastante diferentes.

O meu Champ 5C1 não possui um som extremamente limpo
Essa é uma característica que gostei bastante nesse circuito.
No artigo original descrevi o som como um pouco “nervoso”.
Não espere aquele som totalmente limpo e cristalino mesmo quando aumentamos o volume.
O amplificador possui uma característica um pouco mais áspera, que considerei particularmente interessante para:
Blues
e
Rock.
O que acontece quando aumentamos o volume?
Em um amplificador valvulado simples, quando aumentamos suficientemente o sinal, os estágios começam a sair da região mais linear de funcionamento.
A forma de onda começa a ser alterada.
Isso gera:
distorção;
harmônicos;
compressão;
mudanças de dinâmica.
Para um amplificador hi-fi, muitas vezes queremos minimizar essas alterações.
Em guitarra, a situação é diferente.
A distorção do amplificador pode fazer parte justamente do som desejado.
Isso explica por que guitarristas gostam de amplificadores pequenos
Em um amplificador extremamente potente, pode ser necessário um volume enorme para levar o estágio de potência a determinadas condições de saturação.
Em um pequeno valvulado, podemos chegar a esse comportamento com menor potência absoluta.
Por isso, pequenos amplificadores valvulados continuam sendo muito interessantes para gravação e experimentação de timbres.
Modifiquei a etapa de retificação
O circuito original do 5C1 utiliza uma válvula retificadora 5Y3.
Na minha montagem fiz uma alteração:
retirei a 5Y3 e utilizei dois diodos 1N4007 de estado sólido para a retificação.
Assim, meu amplificador utiliza apenas duas válvulas no circuito de áudio:
6SJ7
e
6V6.
Para que serve a retificação?
A energia que recebemos do transformador é alternada.
Mas determinadas partes do amplificador precisam trabalhar com tensão contínua.
Portanto, precisamos transformar:
CA
em:
CC.
É justamente essa a função da etapa retificadora.
Depois da retificação, também utilizamos capacitores e outros componentes para filtrar e suavizar a tensão.
Retificação com válvula
No circuito original, essa tarefa é realizada pela válvula 5Y3.
Ela funciona como retificadora.
Historicamente, esse tipo de solução foi amplamente utilizado porque os semicondutores modernos simplesmente não existiam quando muitos desses amplificadores foram projetados.
Retificação com diodos de silício
Na minha montagem utilizei dois 1N4007.
São diodos de estado sólido.
Eles permitem realizar a retificação com componentes muito menores do que uma válvula retificadora.
Essa foi a principal alteração que fiz em relação ao circuito 5C1 original.
A substituição da válvula retificadora altera o comportamento da fonte
É importante entender que trocar uma válvula retificadora por diodos de silício não significa apenas substituir uma peça grande por duas pequenas.
Os dispositivos possuem características elétricas diferentes.
Isso pode influenciar:
queda de tensão;
tensão DC resultante;
comportamento da fonte sob carga.
Por isso, uma modificação desse tipo precisa considerar as tensões reais obtidas no circuito.
Um amplificador valvulado trabalha com tensões elevadas
Esse ponto precisa receber enorme atenção.
Embora os filamentos possam trabalhar com apenas 6,3 V, outros pontos de um amplificador valvulado podem apresentar centenas de volts.
E essas tensões podem permanecer presentes até depois de o equipamento ser desligado, devido à energia armazenada nos capacitores da fonte.
Portanto, montar ou reparar um amplificador valvulado exige conhecimento e procedimentos adequados de segurança.
Desligar da tomada não significa necessariamente ausência de tensão
Os capacitores de filtro podem manter carga elétrica.
Assim, podemos desligar o equipamento, retirar o cabo da tomada e ainda encontrar tensão perigosa dentro do chassis.
Nunca coloque as mãos em um circuito valvulado apenas porque ele está desligado.
Antes de trabalhar nele é necessário medir e assegurar que as condições sejam realmente seguras.
O transformador de alimentação possui papel fundamental
No meu amplificador, o transformador precisa fornecer as tensões necessárias aos diferentes circuitos.
Temos pelo menos:
enrolamento para filamentos de 6,3 V
e
enrolamento destinado à alimentação de alta tensão.
Isso mostra por que não podemos simplesmente utilizar qualquer transformador disponível.
Ele precisa ser apropriado ao projeto.
Existe também o transformador de saída
A válvula de potência não deve simplesmente ser ligada diretamente a um alto-falante convencional.
Entre a 6V6 e o alto-falante utilizamos um transformador de saída.
Esse componente é fundamental em amplificadores valvulados.
Sua função está relacionada à compatibilização das condições elétricas entre o estágio de potência e o alto-falante.
Por que o transformador de saída é necessário?
A válvula trabalha naturalmente com condições de tensão e impedância bastante diferentes daquelas encontradas em um alto-falante.
O transformador permite fazer essa adaptação.
De maneira simplificada:
Válvula 6V6
↓
Transformador de saída
↓
Alto-falante
Sem o componente adequado, o estágio não trabalharia corretamente com a carga.
O transformador de saída também influencia o resultado
Em um amplificador valvulado, o transformador de saída não deve ser tratado simplesmente como uma peça qualquer.
Suas características elétricas influenciam o funcionamento do estágio de potência.
Precisamos considerar parâmetros como:
impedância primária;
impedância secundária;
potência;
resposta em frequência.
É mais um exemplo de como um amplificador é um sistema completo.
Não utilizei placa de circuito impresso
Outra característica interessante da minha montagem é que não fiz uma PCB.
Utilizei barras de terminais e construí o circuito através de uma técnica conhecida como:
montagem ponto a ponto.
Esse tipo de construção combina muito bem com circuitos valvulados.
O que é montagem ponto a ponto?
Em uma montagem ponto a ponto, os componentes e fios são ligados diretamente entre terminais físicos.
Podemos ter:
terminal da válvula
↓
resistor
↓
barra de terminais
↓
capacitor
↓
outro ponto do circuito.
Não existe necessariamente uma placa impressa unindo tudo através de trilhas de cobre.
Amplificadores antigos utilizavam muito esse tipo de construção
Antes da popularização das placas de circuito impresso, era comum encontrar equipamentos eletrônicos montados utilizando:
soquetes;
terminais;
fios;
componentes ligados diretamente.
No artigo original lembro justamente que os antigos amplificadores valvulados utilizavam esse tipo de estrutura.
A montagem ponto a ponto é visualmente interessante
Quando abrimos um amplificador assim, conseguimos praticamente seguir o circuito.
Vemos:
resistor;
capacitor;
fio;
terminal da válvula;
transformador.
Para quem está aprendendo eletrônica, isso pode ser muito interessante porque facilita relacionar o esquema com a montagem física.
Mas organização é fundamental
Montagem ponto a ponto não significa simplesmente colocar fios aleatoriamente.
Em áudio, a disposição física dos componentes influencia:
ruído;
captação de interferências;
realimentações indesejadas;
estabilidade.
Por isso, precisamos pensar cuidadosamente no layout.
A fiação dos filamentos merece atenção
Os filamentos trabalham com corrente alternada.
Essa alimentação pode contribuir para ruídos caso a fiação seja mal posicionada.
Por isso, em montagens valvuladas, a disposição dos fios dos filamentos costuma receber bastante atenção.
Uma prática comum é manter determinados pares de fios torcidos e posicionados de maneira planejada dentro do chassis.
A entrada do amplificador é uma região sensível
O sinal proveniente da guitarra possui amplitude relativamente pequena.
Por isso, a região próxima à entrada e ao primeiro estágio é particularmente sensível à captação de ruídos.
Quanto mais avançamos pelo amplificador, maior tende a ser a amplitude do sinal.
Por isso, um bom layout procura evitar que regiões de potência e alimentação interfiram nas regiões de pequeno sinal.
O chassis ajuda na blindagem
Um amplificador normalmente utiliza chassis metálico justamente porque ele pode ajudar na proteção elétrica e na blindagem eletromagnética.
Na minha montagem, entretanto, resolvi utilizar algo bastante diferente.
Usei uma forma de bolo como chassis
Sim.
O chassis do meu Fender Champ foi feito utilizando uma forma de bolo de alumínio.
É uma solução bastante caseira, mas funcionou muito bem para a montagem experimental.
A grande vantagem foi a facilidade de trabalhar o material.
O alumínio é muito fácil de cortar e furar
Para instalar um circuito valvulado precisamos fazer várias aberturas:
soquetes das válvulas;
transformadores;
conectores;
potenciômetros;
parafusos;
cabos.
Na forma de alumínio, esses cortes e furos são relativamente fáceis de executar. Essa facilidade foi justamente uma das razões para eu utilizá-la.
Mas a forma de bolo não é o chassis perfeito
No próprio artigo original faço uma ressalva:
para uma boa blindagem, não é necessariamente a solução mais indicada.
Ela serviu muito bem como chassis experimental e permitiu uma montagem prática.
Mas um gabinete projetado especificamente para amplificadores pode oferecer vantagens mecânicas e elétricas.
Planejar os furos antes de cortar evita problemas
Se você estiver construindo qualquer equipamento em chassis metálico, vale fazer primeiro um layout.
Coloque sobre o chassis:
transformador de alimentação;
transformador de saída;
válvulas;
potenciômetros;
conectores.
Veja se tudo cabe.
Depois pense no interior.
Somente então marque os furos.
Depois que o alumínio estiver cortado, mudar a posição de uma válvula deixa de ser simples.
Transformadores também precisam ser posicionados com cuidado
Os transformadores produzem campos magnéticos.
Em um amplificador de áudio, precisamos evitar que esses campos sejam captados de maneira indesejada por partes sensíveis do circuito.
Por isso, a posição relativa entre:
transformador de alimentação
e
transformador de saída
pode influenciar o ruído do equipamento.
Um bom layout começa antes da primeira solda.
Aterramento é outro ponto crítico
Um amplificador pode estar eletricamente correto no papel e ainda produzir bastante ruído por causa da maneira como os terras foram organizados.
Temos vários retornos de corrente:
fonte;
pré-amplificador;
potência;
entrada;
filamentos, dependendo da configuração.
A maneira como esses caminhos são organizados influencia o comportamento do circuito.
O famoso hum de 50/60 Hz
Um problema clássico em amplificadores é aquele ruído grave contínuo:
HMMMMMMMM…
Ele pode ter várias causas.
Entre elas:
filtragem inadequada da fonte;
aterramento;
posição de transformadores;
fiação;
blindagem.
Diagnosticar esses problemas faz parte do aprendizado na construção de amplificadores.
Capacitores da fonte ajudam a filtrar a tensão
Depois da retificação, a tensão não fica automaticamente perfeitamente contínua.
Precisamos de filtragem.
Capacitores são utilizados para reduzir a ondulação presente na tensão retificada.
É mais uma demonstração de como componentes que estudamos isoladamente aparecem trabalhando juntos em um equipamento real.
Os capacitores precisam suportar a tensão do circuito
Em amplificadores valvulados, isso é especialmente importante.
Não basta observar apenas a capacitância.
Precisamos verificar também:
tensão máxima de trabalho.
Um capacitor utilizado em uma região de alta tensão precisa possuir especificação apropriada.
Ultrapassar essa tensão pode provocar falha do componente e criar uma situação perigosa.
Resistores também possuem diferentes funções
Ao observar o circuito encontramos resistores responsáveis por:
polarização;
limitação de corrente;
divisão de tensão;
carga;
realimentação, dependendo do circuito.
Cada resistor está ali por uma razão.
É justamente por isso que construir um amplificador é uma ótima maneira de estudar eletrônica.
O amplificador não precisa ter muitos componentes para ensinar muito
O Fender Champ 5C1 é um bom exemplo.
Ele possui um circuito relativamente simples, mas permite estudar:
retificação;
filtragem;
pré-amplificação;
amplificação de potência;
válvulas;
transformadores;
alto-falantes;
aterramento;
blindagem;
distorção.
Poucos componentes não significam pouco conteúdo.
Não construí um gabinete de madeira para este amplificador
Na montagem apresentada no artigo, deixei o chassis sem um gabinete completo.
Isso facilita bastante observar a própria construção.
Entretanto, construir um gabinete para um pequeno amplificador como esse é perfeitamente possível.
O gabinete também faz parte do projeto
Em um amplificador completo podemos ter:
chassis eletrônico;
gabinete de madeira;
alto-falante;
tecido frontal;
controles;
alça;
acabamento.
A parte eletrônica é apenas um dos elementos.
Para quem gosta de construir, é possível trabalhar também com marcenaria e acabamento.
O alto-falante influencia enormemente o timbre
Podemos montar exatamente o mesmo amplificador e ligá-lo a alto-falantes diferentes.
O resultado sonoro pode mudar bastante.
Isso acontece porque o alto-falante possui sua própria resposta.
Portanto, quando falamos no “som do amplificador”, estamos na realidade ouvindo uma cadeia completa.
Um amplificador de guitarra não busca necessariamente reprodução neutra
Em sistemas de alta fidelidade, normalmente buscamos reproduzir o sinal com o mínimo possível de alteração.
Na guitarra, o objetivo pode ser diferente.
O amplificador e o alto-falante são utilizados justamente como parte da criação do timbre.
Por isso, características que em um equipamento hi-fi poderiam ser consideradas imperfeições podem ser musicalmente desejáveis.
A distorção pode ser parte do instrumento
Isso explica uma coisa interessante.
Um guitarrista pode escolher determinado amplificador justamente pela maneira como ele distorce.
Não é apenas:
“quero som mais alto.”
É:
“quero este tipo de resposta.”
O amplificador passa a funcionar quase como uma extensão do instrumento.
Por que um circuito dos anos 1950 ainda desperta interesse?
Porque eletrônica não envelhece da mesma maneira em todas as aplicações.
Existem circuitos modernos muito mais:
eficientes;
compactos;
leves;
potentes.
Mas o objetivo de um amplificador de guitarra não é apenas atingir eficiência máxima.
O timbre também importa.
Por isso, circuitos extremamente antigos continuam sendo estudados, construídos e utilizados.
Podemos aprender muito comparando valvulado e transistorizado
Depois de construir um pequeno amplificador valvulado, vale comparar com um circuito baseado em:
transistor bipolar;
MOSFET;
circuito integrado.
Cada tecnologia possui vantagens e características próprias.
Podemos observar diferenças em:
tensão de funcionamento;
impedâncias;
potência;
dissipação;
quantidade de componentes;
tipo de distorção.
Essa comparação é extremamente didática.
Também podemos comparar Classe A e push-pull
O estágio simples do Champ é uma excelente introdução.
Depois podemos estudar amplificadores com dois dispositivos de potência trabalhando em push-pull.
Aparecem então conceitos como:
inversão de fase;
transformador de saída com outra configuração;
polarização das válvulas de potência;
maior potência de saída;
eficiência diferente.
É uma evolução natural para quem começa por um circuito como o 5C1.
Como estudar um esquema valvulado?
Uma boa forma é não tentar entender tudo ao mesmo tempo.
Separe o circuito em blocos.
Fonte de alimentação
Transformador → retificação → filtragem
Pré-amplificador
Entrada → 6SJ7
Amplificador de potência
6SJ7 → 6V6
Saída
6V6 → transformador de saída → alto-falante
Filamentos
Enrolamento 6,3 V → válvulas
Agora conseguimos estudar cada parte separadamente.
Depois siga o caminho do sinal
Imagine a guitarra enviando uma pequena tensão alternada para a entrada.
Pergunte:
Onde ela entra?
Depois:
Qual capacitor atravessa?
Qual resistor encontra?
Em qual elemento da válvula chega?
Onde aparece depois da amplificação?
E siga o circuito até o alto-falante.
Essa é uma excelente maneira de aprender eletrônica analógica.
Faça o mesmo com a alimentação
Agora ignore temporariamente o áudio.
Siga apenas a energia.
Rede
↓
Transformador
↓
Diodos 1N4007
↓
Capacitores de filtro
↓
Diferentes pontos de alimentação
↓
Válvulas
Ao separar sinal e alimentação, o esquema fica muito mais fácil de compreender.
Um amplificador valvulado é um excelente laboratório
Com os instrumentos adequados e respeitando rigorosamente os cuidados relacionados às altas tensões, podemos estudar:
tensão DC;
tensão AC;
ganho;
formas de onda;
distorção;
resposta em frequência;
polarização.
Cada medição nos ajuda a relacionar teoria e funcionamento real.
O multímetro é indispensável
Podemos medir diferentes pontos de tensão no circuito.
Mas, novamente, amplificadores valvulados trabalham com tensões perigosas.
Portanto, essas medições não devem ser tratadas como experiências improvisadas.
É necessário saber:
onde medir;
qual escala utilizar;
como posicionar as pontas de prova;
como evitar contato com regiões energizadas.
O osciloscópio permite enxergar o áudio
Com um osciloscópio, podemos aplicar um sinal conhecido na entrada e acompanhar sua trajetória.
Observamos:
sinal de entrada;
saída do pré;
entrada do estágio de potência;
forma de onda de saída.
Depois aumentamos gradualmente a amplitude.
Chega um momento em que começamos a enxergar a distorção.
Agora aquilo que ouvimos também pode ser visualizado.
Isso é extremamente interessante em guitarra
Conectamos um gerador de sinais e vemos uma senoide.
Depois ligamos a guitarra e ouvimos música.
O mesmo circuito está processando sinais elétricos de formas muito mais complexas.
É justamente essa ponte entre eletrônica e música que torna os amplificadores tão interessantes para estudar.
Meu Fender Champ mostra como um circuito simples pode produzir um resultado muito interessante
A montagem utiliza apenas duas válvulas para amplificação:
6SJ7
e
6V6.
Os filamentos trabalham com 6,3 V, o estágio de saída fornece cerca de 5 W, e substituí a válvula retificadora original 5Y3 por dois diodos 1N4007.
Não utilizei placa de circuito impresso.
Montei os componentes em barras de terminais utilizando o método ponto a ponto e aproveitei uma forma de bolo de alumínio como chassis.
O resultado ficou simples, funcional e com um timbre bastante característico.
Veja no vídeo o amplificador funcionando
No vídeo da página mostro mais detalhes do meu Fender Champ 5C1 e da montagem realizada.
É um projeto que gosto bastante porque reúne várias coisas que considero interessantes:
eletrônica;
áudio;
música;
construção caseira;
reaproveitamento de materiais.
E mostra que não precisamos começar por um amplificador enorme e cheio de válvulas para estudar eletrônica valvulada.
Um circuito relativamente pequeno pode ensinar muita coisa.
Um pequeno amplificador pode ter um grande timbre
Talvez essa seja uma das maiores lições desse projeto.
Estamos falando de aproximadamente:
5 watts.
Mas potência não conta toda a história.
O conjunto formado por:
guitarra + válvulas + circuito + transformador + alto-falante
produz sua própria personalidade.
Por isso, pequenos amplificadores continuam encontrando espaço em estúdios, ensaios e até apresentações, onde podem ser microfonados e enviados ao PA.
No final das contas, o guitarrista não está buscando apenas volume.
Está buscando:
som.
Quer aprender eletrônica aplicada ao áudio construindo e entendendo circuitos?
Um amplificador valvulado como o Fender Champ reúne praticamente todos os fundamentos que tornam a eletrônica de áudio tão interessante:
resistores;
capacitores;
retificação;
fontes de alimentação;
amplificação;
pré-amplificação;
estágios de potência;
transformadores;
alto-falantes;
distorção e timbre.
Assim, você deixa de olhar para um esquema como um conjunto de símbolos e começa a compreender por onde o sinal passa, como ele é amplificado, qual é a função de cada componente e por que determinadas escolhas de circuito modificam aquilo que finalmente ouvimos no alto-falante.