Alguns projetos de modelismo começam com um projeto técnico, um desenho ou uma ideia nova. Outros começam com uma lembrança que fica guardada durante muitos anos.
Foi exatamente o que aconteceu com esta lancha.
Há mais de 30 anos, fui com minha irmã e uma amiga ao Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Próximo a um dos lagos havia dois senhores navegando com barcos de controle remoto.
Um daqueles barcos chamou imediatamente minha atenção.
Era uma lancha de plástico fabricada pela Gulliver, originalmente vendida como brinquedo. O proprietário havia feito algo que, para mim naquela época, parecia fantástico:
transformou aquela lancha simples em um barco de controle remoto.
Aquela imagem ficou guardada na minha memória.
Muitos anos depois, consegui comprar uma lancha Gulliver usada.
Na verdade, acabei comprando duas.
E finalmente pude fazer aquilo que havia visto quando era criança: transformar a velha lancha de plástico em uma lancha RC.
Como era a lancha original da Gulliver?
Essas lanchas eram brinquedos fabricados em plástico e funcionavam com pilhas.
O sistema original era bastante simples.
A lancha possuía:
motor elétrico;
hélice;
alimentação por pilhas;
leme ajustado manualmente.
Não existia rádio controle.
Antes de colocar a lancha na água, você posicionava o leme com a mão.
Se deixasse o leme reto, a tendência era a lancha navegar para frente.
Se posicionasse o leme para um dos lados, ela poderia navegar fazendo uma curva ou até ficar andando em círculos.
Era um brinquedo simples, mas muito interessante.
A transformação para RC muda completamente o brinquedo
Quando instalamos um sistema de rádio controle, deixamos de determinar previamente aquilo que a lancha fará.
Passamos a comandá-la durante a navegação.
Agora podemos controlar:
direção;
motor;
velocidade, dependendo do sistema instalado.
É justamente essa mudança que transforma um antigo brinquedo em um verdadeiro projeto de nautimodelismo RC.
O que significa transformar uma lancha em RC?
RC significa Radio Control, ou rádio controle.
Para realizar uma adaptação desse tipo, precisamos basicamente criar dois sistemas de controle.
O primeiro é responsável pela propulsão:
Transmissor → Receptor → ESC → Motor → Hélice
O segundo controla a direção:
Transmissor → Receptor → Servo → Leme
Assim, os dois comandos que originalmente eram praticamente fixos passam a responder ao rádio.
O leme é uma das primeiras coisas que precisamos modificar
Na lancha original, o leme era ajustado manualmente antes de colocar o barco na água.
Para transformá-la em RC, precisamos fazer o leme se movimentar durante a navegação.
É aí que entra o servo.
O servo transforma o sinal elétrico recebido do receptor em movimento mecânico.
Podemos representar:
Stick do rádio
↓
Receptor
↓
Servo
↓
Linkagem
↓
Leme
Agora, quando movimentamos o stick do transmissor, o leme acompanha o comando.
O servo precisa ser ligado mecanicamente ao leme
Para transmitir o movimento, precisamos criar uma linkagem.
Ela pode utilizar, dependendo da construção:
vareta metálica;
arame;
clevis;
horn;
pequenos braços e articulações.
O importante é que o movimento seja livre.
Quando o servo gira para um lado, o leme deve acompanhar.
Quando gira para o outro, o leme deve se deslocar no sentido correspondente.
A geometria da linkagem faz diferença
Não basta simplesmente conectar uma vareta entre o servo e o leme.
Precisamos observar:
posição do braço do servo;
posição do horn;
curso disponível;
ângulo máximo do leme;
ausência de travamentos.
Se a geometria estiver ruim, o servo pode fazer esforço excessivo.
Isso aumenta o consumo de corrente e pode reduzir sua vida útil.
Comece centralizando o servo
Antes de instalar definitivamente o braço do servo, uma boa prática é:
ligar o rádio;
centralizar o stick;
centralizar o trim;
deixar o servo assumir sua posição neutra.
Depois instalamos o braço aproximadamente na posição adequada.
Com o servo centralizado, ajustamos mecanicamente o leme para ficar reto.
Isso facilita bastante a regulagem posterior.
O segundo desafio é controlar o motor
A lancha original simplesmente utilizava seu motor para produzir a propulsão.
Em uma conversão para rádio controle, queremos comandar esse motor remotamente.
Para isso podemos utilizar um ESC — Electronic Speed Controller compatível com o tipo de motor instalado.
Temos:
Bateria
↓
ESC
↓
Motor
Ao mesmo tempo:
Receptor → sinal → ESC
Assim, o ESC controla eletronicamente o motor conforme o comando enviado pelo transmissor.
O ESC funciona como intermediário entre receptor e motor
O receptor não foi projetado para fornecer diretamente a corrente exigida pelo motor de propulsão.
Seu papel é fornecer o sinal de controle.
O ESC recebe esse sinal e utiliza a energia proveniente da bateria para controlar o motor.
Essa distinção é fundamental:
Receptor → comando
Bateria → energia
ESC → controle da potência
Motor → movimento.
Se mantivermos um motor escovado, precisamos de um ESC adequado
Muitos brinquedos antigos utilizam motores DC escovados.
Esses motores normalmente possuem:
dois fios.
Portanto, se o motor original for mantido, precisamos utilizar um controlador apropriado para motor brushed, respeitando tensão e corrente.
Não devemos escolher um ESC apenas pela aparência.
Existem controladores diferentes para:
motores brushed
e
motores brushless.
Podemos também substituir o sistema de propulsão
Uma adaptação não precisa obrigatoriamente preservar toda a eletrônica original.
Dependendo do projeto, podemos substituir:
motor;
eixo;
acoplamento;
hélice;
alimentação.
Mas existe uma vantagem interessante em reaproveitar parte da estrutura original: preservamos um pouco da identidade do brinquedo.
Nesse projeto, afinal, a graça estava justamente em transformar aquela antiga lancha Gulliver que eu lembrava desde criança.
O receptor passa a ser o centro do controle
Depois da conversão, o receptor recebe as informações enviadas pelo transmissor e distribui os comandos.
Podemos ter:
Canal da direção → Servo
Canal do acelerador → ESC
Assim, dois canais já permitem realizar as principais funções de uma lancha simples.
Um controla:
esquerda/direita.
O outro:
motor.
Por que utilizar rádio 2.4 GHz?
A utilização de um sistema moderno de 2,4 GHz torna a adaptação muito mais prática do que seria com antigos sistemas de rádio.
Transmissor e receptor precisam ser compatíveis e corretamente associados pelo processo de bind.
Depois disso, temos um sistema de comando bastante compacto para instalar dentro da lancha.
Isso é especialmente interessante em adaptações, pois o espaço interno normalmente é limitado.
Planeje onde cada componente ficará
Antes de colar qualquer coisa, coloque todos os componentes dentro do casco.
Precisamos encontrar espaço para:
motor;
ESC;
receptor;
servo;
bateria;
chave, se utilizada;
fiação.
Não pense apenas em fazer tudo caber.
A distribuição de peso também é importante.
A bateria costuma ser um dos componentes mais pesados
Por isso, sua posição influencia bastante o comportamento da lancha.
Uma bateria colocada excessivamente para um lado pode fazer o barco navegar inclinado.
Muito para frente pode abaixar excessivamente a proa.
Muito para trás pode deixar a popa excessivamente afundada.
Antes de fixar definitivamente, faça testes.
Observe o centro de gravidade do conjunto
Em barcos, a distribuição de massa influencia:
estabilidade;
atitude na água;
entrada em planeio;
comportamento nas curvas.
Ao adaptar um brinquedo, estamos acrescentando componentes que não existiam originalmente.
Por isso, a posição de cada peça precisa ser considerada.
Faça primeiro uma montagem provisória
Uma ótima estratégia é utilizar fixações temporárias para os primeiros testes.
Coloque:
bateria;
receptor;
ESC
em posições provisórias.
Depois coloque a lancha na água, inicialmente sem navegar, e observe.
Ela está:
nivelada?
muito baixa?
inclinada?
com a proa excessivamente afundada?
A partir disso podemos reposicionar os componentes.
A estanqueidade merece muita atenção
Eletrônica e água não formam uma boa combinação.
Ao modificar o casco, podemos criar novos pontos de entrada de água.
Isso pode acontecer principalmente onde passam:
eixo do leme;
eixo da hélice;
varetas;
cabos;
parafusos.
Cada abertura precisa ser analisada.
O eixo do leme é um ponto crítico
Para controlar o leme, precisamos transmitir o movimento de dentro para fora do casco.
Isso normalmente exige um eixo atravessando alguma região da estrutura.
Precisamos permitir movimento e, ao mesmo tempo, dificultar a entrada de água.
Uma solução mecânica mal executada pode funcionar perfeitamente fora da água e começar a inundar lentamente a lancha durante a navegação.
Teste vazamentos antes de instalar toda a eletrônica
Antes de colocar equipamentos caros dentro do casco, faça um teste de estanqueidade.
Podemos colocar a lancha na água sem energizar o sistema e observar se aparece água internamente.
Depois de alguns minutos:
retire a lancha;
seque a parte externa;
abra o casco;
inspecione o interior.
Se houver água, descubra a origem antes de continuar.
Proteja o receptor
Mesmo com um casco bem vedado, pequenas quantidades de água podem aparecer.
O receptor é um componente importante e relativamente delicado.
Procure instalá-lo em posição:
elevada;
protegida;
longe do fundo do casco.
O mesmo vale para outras partes eletrônicas que não sejam projetadas para contato com água.
O ESC também precisa ser escolhido pensando no barco
Existem ESCs específicos ou preparados para aplicações em nautimodelismo.
Dependendo da aplicação, podemos encontrar controladores com proteção contra água e recursos apropriados para barcos.
Mas “à prova d’água” não deve ser interpretado como autorização para fazer qualquer instalação.
Conectores, emendas e outros componentes continuam precisando de proteção.
Não esqueça da refrigeração
Motores e ESCs podem aquecer.
Em barcos mais potentes, sistemas de refrigeração a água são bastante utilizados.
Em uma pequena conversão de brinquedo, a necessidade dependerá da potência instalada.
O importante é verificar a temperatura durante os primeiros testes.
Se motor ou ESC estiverem aquecendo excessivamente, precisamos investigar.
Um motor maior nem sempre deixa o barco melhor
Quando transformamos um brinquedo em RC, existe uma tentação:
“Vou colocar o motor mais forte que conseguir.”
Mas potência excessiva pode criar vários problemas:
alto consumo;
aquecimento;
sobrecarga do eixo;
instabilidade;
entrada de água;
danos ao casco.
A estrutura original foi projetada como brinquedo.
Por isso, uma motorização equilibrada costuma produzir um resultado muito melhor.
A hélice também influencia o consumo
Motor, hélice e tensão da bateria formam um conjunto.
Uma hélice muito exigente pode fazer o motor consumir corrente excessiva.
Consequentemente:
motor aquece;
ESC aquece;
bateria descarrega mais rapidamente.
Se possível, medir a corrente do sistema ajuda bastante durante a adaptação.
O sentido da hélice precisa ser conferido
Antes de colocar a lancha na água, verifique se o motor está produzindo empuxo na direção correta.
Parece óbvio, mas é fácil montar tudo e descobrir no primeiro teste que a hélice está tentando empurrar o barco para trás.
Em um motor DC escovado, a inversão da polaridade nos terminais do motor normalmente altera o sentido de rotação, desde que o ESC e a aplicação permitam essa configuração.
Faça os primeiros testes com baixa velocidade
Não coloque a lancha na água e aplique imediatamente aceleração máxima.
Comece devagar.
Observe:
direção;
estabilidade;
resposta do leme;
ruídos;
vibrações;
entrada de água.
Depois aumente gradualmente a velocidade.
Confira o sentido do leme antes de navegar
Coloque a lancha sobre a bancada.
Olhe de trás para ela.
Comande uma curva para a direita.
Observe o leme.
Depois faça o mesmo para a esquerda.
Se o comando estiver invertido, corrija no rádio ou na montagem antes de colocar o barco na água.
Regule o curso do leme
Mais movimento nem sempre significa melhor direção.
Um ângulo exagerado pode produzir:
curvas muito bruscas;
instabilidade;
esforço mecânico;
maior consumo do servo.
Comece com um curso moderado e ajuste depois dos testes na água.
Verifique se o servo não fica forçando no final do curso
Movimente o comando completamente para os dois lados.
O servo não deve continuar tentando avançar quando o leme já chegou ao limite mecânico.
Se isso acontecer, precisamos ajustar:
linkagem;
posição do braço;
endpoint do rádio, quando disponível.
Um servo constantemente travado consome corrente e pode ser danificado.
O sistema elétrico pode ser bastante simples
Uma conversão básica pode ser representada assim:
BATERIA
↓
ESC
↙︎ ↘︎
RECEPTOR MOTOR
↓
SERVO
↓
LEME
Se o ESC possuir BEC integrado, ele também pode fornecer a alimentação necessária ao receptor e ao servo.
Assim, podemos utilizar uma única bateria para o sistema.
Se o ESC não tiver BEC
Nesse caso, precisamos fornecer alimentação adequada ao receptor por outro meio.
Podemos utilizar, conforme o projeto:
BEC externo;
UBEC;
bateria específica para o receptor.
O importante é verificar a tensão aceita pelo receptor e pelo servo.
Nunca aplique diretamente uma tensão sem saber se os equipamentos podem recebê-la.
Faça um teste de alcance do rádio
Antes de navegar longe da margem, faça o teste de alcance recomendado pelo fabricante.
Também observe a posição da antena do receptor.
Em um barco, ela ficará próxima de:
água;
bateria;
motor;
fiação.
A instalação precisa seguir as recomendações do sistema de rádio utilizado.
Cuidado com interferências produzidas pelo motor escovado
Motores escovados podem produzir ruído elétrico devido à comutação das escovas.
Em determinadas instalações isso pode interferir em outros circuitos.
Capacitores de supressão e uma instalação elétrica adequada podem ajudar a reduzir esse problema.
Também é interessante evitar passar desnecessariamente os fios sensíveis do receptor junto aos cabos de potência do motor.
Organize os fios
Uma conversão pode funcionar perfeitamente e ainda ficar internamente muito desorganizada.
Evite deixar fios:
próximos ao eixo;
encostando no acoplamento;
presos à linkagem do leme;
soltos dentro do casco.
Vibração e movimento podem transformar um fio mal posicionado em uma falha durante a navegação.
Fixe bem a bateria
A bateria não pode ficar deslizando dentro da lancha.
Imagine fazer uma curva e a bateria deslocar todo o seu peso para um lado.
Isso altera imediatamente o equilíbrio do barco.
Utilize uma fixação segura, mas que permita retirar a bateria para recarga e manutenção.
Preserve o acesso aos componentes
Não cole tudo de maneira definitiva sem pensar em manutenção.
Em algum momento podemos precisar:
trocar o receptor;
ajustar o servo;
substituir o ESC;
retirar o motor;
lubrificar o eixo.
Uma boa adaptação precisa permitir manutenção.
Podemos acrescentar outras funções depois
Quando temos um receptor com canais disponíveis, começam a surgir várias possibilidades.
Podemos instalar:
iluminação;
buzina;
bomba d’água;
sirene;
faróis;
luzes de navegação;
outros mecanismos.
É justamente aí que o nautimodelismo começa a ficar ainda mais interessante.
Uma velha lancha pode virar um verdadeiro laboratório
Esse tipo de adaptação permite aprender vários assuntos ao mesmo tempo:
rádio controle;
servos;
ESC;
motores;
baterias;
mecânica;
vedação;
distribuição de peso;
eletrônica.
E tudo começa com um simples brinquedo de plástico.
Não é necessário construir um barco do zero para começar
Muita gente imagina que entrar no nautimodelismo significa obrigatoriamente construir um casco completo.
Não necessariamente.
Transformar um brinquedo existente pode ser uma excelente maneira de começar.
Já temos:
casco;
convés;
forma do barco;
alguns elementos mecânicos.
Nosso desafio passa a ser transformar essa plataforma em um modelo comandado remotamente.
O reaproveitamento também torna o projeto interessante
Existe algo muito satisfatório em pegar um objeto antigo e dar a ele uma nova função.
Aquela lancha Gulliver originalmente era um brinquedo simples, com motor alimentado por pilhas e leme ajustado manualmente.
Depois da adaptação, temos um sistema completamente diferente:
rádio 2.4 GHz;
receptor;
servo;
controle proporcional da direção;
controle eletrônico do motor.
É praticamente uma segunda vida para o brinquedo.
E, no meu caso, o projeto tinha uma história por trás
Talvez essa seja a parte de que mais gosto nessa adaptação.
A ideia não surgiu quando encontrei a lancha usada.
Ela começou décadas antes.
Quando criança, vi no Aterro do Flamengo alguém navegando justamente com uma lancha Gulliver transformada em rádio controle. Fiquei fascinado com aquilo. Muitos anos depois, consegui comprar uma dessas lanchas e finalmente fazer minha própria adaptação.
Acabei comprando duas.
E o resultado ficou fantástico.
Veja a lancha Gulliver transformada em rádio controle
No vídeo da página mostro a lancha já adaptada para funcionar com rádio controle 2.4 GHz.
Mais do que simplesmente modificar um brinquedo antigo, esse tipo de projeto mostra uma das coisas mais interessantes do modelismo:
podemos pegar aquilo que já existe, entender seu funcionamento e criar algo completamente novo a partir dele.
Uma lancha que originalmente seguia na direção definida manualmente antes de entrar na água passa a responder aos comandos enviados pelo rádio.
E, para quem gosta de eletrônica e modelismo, poucas coisas são tão interessantes quanto colocar o modelo na água pela primeira vez e perceber que aquela adaptação realmente funciona.
Quer aprender a transformar e montar seus próprios modelos RC?
Quando fazemos uma adaptação como essa, aparecem praticamente todos os fundamentos da elétrica e da eletrônica utilizadas no rádio controle:
como ligar o receptor;
como instalar o servo;
como controlar o motor;
como utilizar um ESC;
como alimentar o sistema;
como trabalhar com baterias;
como identificar os fios;
como acrescentar funções ao modelo.
A proposta é fazer com que você não fique limitado a comprar um modelo pronto e simplesmente conectar componentes. A ideia é compreender como cada parte funciona e ter conhecimento para montar, adaptar, modificar e criar seus próprios projetos de rádio controle.