Capacitor no tweeter: para que serve, como funciona e como calcular

É muito comum encontrarmos um capacitor ligado em série com o tweeter em caixas acústicas e outros sistemas de áudio.

Mas para que serve esse capacitor?

Ele não está ali apenas para proteger o tweeter. O capacitor, combinado com a impedância do próprio tweeter, forma um filtro passa-altas de primeira ordem, que atenua progressivamente as frequências mais baixas e permite que as frequências mais altas cheguem ao tweeter com menor atenuação.

Por que seu circuito de áudio tem ruído?
Por que seu circuito de áudio tem ruído?
Entenda as causas de ruído e interferência e aprenda eletrônica aplicada ao áudio na prática.
CONHEÇA O CURSO →

Entender esse pequeno circuito é também uma ótima maneira de compreender, na prática, conceitos como capacitância, reatância capacitiva, impedância, frequência de corte e crossover.

O que é um tweeter?

O tweeter é um transdutor eletroacústico desenvolvido principalmente para reproduzir as frequências mais altas do espectro de áudio, ou seja, os sons agudos.

Um sistema de caixas acústicas pode utilizar diferentes alto-falantes para diferentes regiões do espectro.

Por exemplo:

woofer → frequências mais baixas

mid-range → frequências médias

tweeter → frequências mais altas

Isso acontece porque é difícil construir um único alto-falante capaz de reproduzir com a mesma eficiência toda a faixa audível.

O tweeter possui uma estrutura leve e pequena, adequada à reprodução das frequências mais altas.

Mas essa característica traz também uma limitação importante:

não queremos enviar grande quantidade de energia de baixa frequência para ele.

É aí que entra o capacitor.

Por que existe um capacitor ligado ao tweeter?

O capacitor possui um comportamento muito interessante quando submetido a sinais alternados.

E o áudio é justamente um sinal variável.

A oposição que um capacitor apresenta à corrente alternada é chamada de reatância capacitiva.

Ela pode ser calculada por:

Xc = 1 / (2 × π × f × C)

onde:

Xc = reatância capacitiva, em ohms
f = frequência, em hertz
C = capacitância, em farads

Observe uma coisa extremamente importante nessa fórmula:

quando a frequência aumenta, a reatância capacitiva diminui.

E quando a frequência diminui:

a reatância aumenta.

É justamente essa característica que torna o capacitor tão útil para o tweeter.

O capacitor oferece maior oposição às frequências baixas

Imagine um capacitor ligado em série com o tweeter.

Para uma frequência baixa, sua reatância é relativamente elevada.

Portanto, o sinal encontra maior oposição.

Quando aumentamos a frequência, a reatância do capacitor diminui.

Podemos resumir:

frequência baixa → maior reatância do capacitor

frequência alta → menor reatância do capacitor

Assim, as frequências mais baixas são progressivamente atenuadas, enquanto as mais altas chegam ao tweeter com menor oposição causada pelo capacitor.

Esse conjunto funciona como um:

filtro passa-altas.

O capacitor não funciona como uma chave

Esse ponto é importante.

Às vezes dizemos de maneira simplificada que:

“o capacitor deixa passar os agudos e bloqueia os graves.”

Isso ajuda a compreender inicialmente, mas não descreve exatamente o que acontece.

Não existe uma frequência na qual o capacitor faça:

abaixo daqui = nada passa

e

acima daqui = tudo passa.

A atenuação ocorre progressivamente.

Existe uma região que chamamos de frequência de corte, e a resposta do filtro vai mudando gradualmente ao redor dela.

Portanto, uma maneira tecnicamente melhor de dizer é:

o capacitor em série com o tweeter atenua progressivamente as frequências mais baixas.

Como ligar o capacitor no tweeter? Positivo ou negativo?

A ligação básica é muito simples.

O capacitor deve ficar em série com o tweeter.

Podemos representar assim:

saída do amplificador → capacitor → tweeter

O capacitor pode ser colocado em qualquer um dos condutores em série com o tweeter.

Por convenção, é muito comum encontrá-lo no lado positivo:

positivo do amplificador → capacitor → positivo do tweeter

e:

negativo do tweeter → negativo do amplificador.

O importante eletricamente é que o capacitor esteja:

em série.

Tweeter
Tweeter

Qual tipo de capacitor utilizar no tweeter?

Como o sinal de áudio é alternado, normalmente utilizamos nessa aplicação um capacitor:

não polarizado ou despolarizado.

Uma opção bastante conhecida é o:

capacitor de filme, como o de poliéster.

Também existem:

capacitores eletrolíticos não polarizados

desenvolvidos para aplicações nas quais não existe uma polaridade fixa como encontramos em uma alimentação DC convencional.

No artigo original mostrei, por exemplo, um capacitor de poliéster de 2,2 µF / 250 V.

Capacitor de poliéster de 2,2uF x 250 Volts
Capacitor de poliéster de 2,2uF x 250 Volts

O que significa µF?

A capacitância é medida em:

farads (F).

Como 1 farad é uma unidade muito grande para diversas aplicações eletrônicas, utilizamos frequentemente seus submúltiplos:

microfarad (µF)
nanofarad (nF)
picofarad (pF)

Por exemplo:

1 µF = 0,000001 F

Portanto:

2,2 µF = 0,0000022 F.

Essa conversão será importante quando fizermos alguns cálculos.

Como calcular o capacitor para o tweeter?

Para uma aproximação simples de um filtro passa-altas de primeira ordem formado pelo capacitor e pela impedância nominal do tweeter, podemos utilizar:

fc = 1 / (2 × π × R × C)

onde:

fc = frequência de corte em hertz
R = impedância nominal do tweeter, utilizada aqui como aproximação
C = capacitância em farads

Vamos fazer um exemplo.

Imagine um tweeter de:

8 Ω

com um capacitor de:

2,2 µF.

Temos:

C = 0,0000022 F

Então:

fc = 1 / (2 × π × 8 × 0,0000022)

O resultado é aproximadamente:

9.043 Hz

ou:

9,0 kHz.

Portanto, nessa aproximação, temos uma frequência de corte próxima de 9 kHz.

E se eu trocar o valor do capacitor?

Aqui aparece uma característica muito interessante.

Mantendo o mesmo tweeter de 8 Ω, podemos comparar aproximadamente:

CapacitorFrequência de corte
2,2 µF9,0 kHz
3,3 µF6,0 kHz
4,7 µF4,2 kHz
6,8 µF2,9 kHz

Observe a relação:

aumentamos o capacitor → diminuímos a frequência de corte.

Ou, no sentido contrário:

diminuímos o capacitor → aumentamos a frequência de corte.

Isso explica uma experiência que eu já sugeria no artigo original: trocar o valor do capacitor e observar como o som se modifica.

Agora conseguimos entender por que ele se modifica.

Então posso colocar um capacitor maior para ter mais agudos?

Não é tão simples.

Quando aumentamos excessivamente a capacitância, diminuímos a frequência de corte.

Consequentemente, frequências cada vez mais baixas passam a chegar ao tweeter com menor atenuação.

E o tweeter pode não ter sido projetado para reproduzi-las.

Isso pode provocar:

distorção;

aquecimento da bobina;

sobrecarga;

e eventualmente:

danos ao tweeter.

Portanto, não devemos escolher o capacitor simplesmente pensando:

“quanto maior, melhor”.

O capacitor ajuda a proteger o tweeter?

Sim.

Essa é uma das funções importantes dessa montagem.

O tweeter é desenvolvido para trabalhar principalmente com frequências altas.

Quando colocamos o capacitor adequado em série, reduzimos a quantidade de energia das frequências mais baixas que chega até ele.

Isso ajuda a evitar que o tweeter seja submetido desnecessariamente a frequências que não consegue reproduzir adequadamente.

Mas existe uma observação importante:

o capacitor não torna o tweeter indestrutível.

Potência excessiva, clipping intenso do amplificador, escolha inadequada da frequência de corte e outros problemas ainda podem danificá-lo.

Por que a impedância do tweeter é importante?

Observe novamente nossa fórmula:

fc = 1 / (2 × π × R × C)

O valor da impedância aparece no cálculo.

Isso significa que o mesmo capacitor produz frequências de corte diferentes quando utilizado com tweeters de impedâncias diferentes.

Por exemplo, um capacitor calculado para um tweeter nominal de:

8 Ω

não terá exatamente o mesmo comportamento quando utilizado com um de:

4 Ω.

É por isso que não podemos perguntar apenas:

“qual capacitor devo colocar no tweeter?”

Precisamos conhecer também as características do tweeter.

O tweeter não é realmente um resistor de 8 Ω

Aqui existe outra simplificação importante.

Quando dizemos que um tweeter possui:

4 Ω

ou:

8 Ω,

estamos falando de sua impedância nominal.

Um alto-falante não se comporta como um resistor perfeito cuja resistência permanece constante em todas as frequências.

Sua impedância varia com a frequência.

Portanto, utilizar 8 Ω diretamente na fórmula é uma aproximação didática muito útil para compreender o funcionamento e realizar cálculos iniciais.

Para projetar um crossover com maior precisão, precisamos considerar as características reais do transdutor.

O que é frequência de corte?

A frequência de corte não representa uma parede.

Em um filtro RC de primeira ordem idealizado, ela corresponde ao ponto no qual a amplitude está aproximadamente:

-3 dB

em relação à região de passagem.

Abaixo dela, a atenuação continua aumentando progressivamente.

No caso de um filtro passa-altas de primeira ordem, temos uma inclinação teórica de aproximadamente:

6 dB por oitava.

Isso ajuda a entender por que o capacitor sozinho é uma solução simples, mas não produz uma separação extremamente abrupta entre graves e agudos.

Veja abaixo como deve ser ligado o capacitor ao tweeter.

Ligação do capacitor despolarizado ao tweeter
Ligação do capacitor despolarizado ao tweeter

Veja a representação do diagrama dessa ligação. Não importa se o capacitor será ligado no positivo ou negativo do alto-falante. Mas por convenção é comum ver o mesmo ligado no positivo.

Tweeter já com o capacitor ligado em série
Tweeter já com o capacitor ligado em série

O que significa filtro passa-altas?

O próprio nome ajuda:

passa-altas = favorece a passagem das frequências altas e atenua as baixas.

Em inglês encontramos frequentemente:

High-Pass Filter (HPF).

No nosso caso:

amplificador → filtro passa-altas → tweeter.

O capacitor em série constitui uma das formas mais simples de criar esse comportamento.

E o que é um crossover?

Agora podemos dar um passo além.

Imagine uma caixa acústica contendo:

woofer + tweeter.

Não queremos que os dois reproduzam indiscriminadamente todo o espectro.

Queremos distribuir as frequências de maneira adequada.

De forma simplificada:

frequências baixas → woofer

frequências altas → tweeter.

O circuito responsável por realizar essa divisão é chamado de:

crossover.

O capacitor em série com o tweeter pode ser visto como uma forma muito simples de filtragem dentro desse conceito.

Um crossover pode utilizar mais componentes

Em sistemas mais elaborados podemos encontrar:

capacitores;

indutores;

resistores

combinados para criar filtros com características diferentes.

Por exemplo:

amplificador

↓

crossover

↙ ↘

woofer tweeter

Assim cada transdutor recebe principalmente a faixa de frequências para a qual foi projetado.

Em sistemas de três vias podemos ter ainda:

woofer + mid-range + tweeter.

Por que não ligar simplesmente o tweeter direto?

Sem o capacitor ou outro crossover apropriado, o tweeter recebe uma faixa muito maior do sinal fornecido pelo amplificador.

Ele não consegue transformar adequadamente as frequências muito baixas em som, mas isso não significa que a energia elétrica associada a elas simplesmente desapareça.

Parte dessa energia pode contribuir para:

aquecimento da bobina

e esforço desnecessário sobre o transdutor.

Por isso a filtragem é importante tanto para o comportamento sonoro quanto para a proteção do tweeter.

Posso utilizar capacitor eletrolítico comum?

O capacitor eletrolítico convencional possui polaridade definida.

Já o sinal de áudio aplicado ao alto-falante é alternado.

Por isso, para uma ligação simples em série com o tweeter, utilizamos normalmente componentes apropriados para sinais alternados, como:

capacitores de filme

ou:

eletrolíticos não polarizados.

No artigo original eu também mostrava uma associação de dois eletrolíticos para obter um conjunto equivalente não polarizado.

Despolarizando um capacitor eletrolítico
Despolarizando um capacitor eletrolítico


Qual tensão o capacitor deve suportar?

Além da capacitância, todo capacitor possui uma:

tensão máxima de trabalho.

Ela precisa ser superior à tensão que efetivamente poderá aparecer sobre o componente durante o funcionamento.

E aqui existe uma confusão comum.

Um amplificador automotivo ser alimentado por:

12 V

não significa necessariamente que devemos escolher o capacitor olhando apenas para os 12 V da bateria.

O que interessa é a tensão que pode aparecer no circuito de saída em que o capacitor está instalado.

Portanto, é prudente utilizar uma margem adequada na tensão nominal do capacitor.

Uma tensão nominal maior, por si só, não altera a capacitância indicada no componente.

O capacitor muda o som do tweeter?

Sim.

E agora conseguimos entender o motivo.

Quando modificamos a capacitância, modificamos o comportamento do filtro.

Se alterarmos:

2,2 µF → 4,7 µF,

por exemplo, estamos mudando significativamente sua frequência de corte para a mesma impedância considerada.

Consequentemente, mudamos a faixa de frequências entregue ao tweeter.

Por isso a diferença pode ser:

audível.

Não é simplesmente uma característica subjetiva do capacitor.

Existe uma alteração elétrica no filtro.

Um pequeno componente com uma função enorme

É interessante perceber que aquele pequeno capacitor encontrado dentro de muitas caixas acústicas está relacionado a vários conceitos fundamentais da eletrônica:

capacitância;

corrente alternada;

frequência;

reatância;

impedância;

filtros;

alto-falantes;

crossover.

Podemos resumir seu funcionamento desta maneira:

sinal do amplificador

↓

capacitor em série

↓

frequências mais baixas sofrem maior atenuação

↓

frequências mais altas encontram menor reatância capacitiva

↓

tweeter recebe uma faixa mais adequada ao seu funcionamento.

Faça uma experiência

Uma das melhores maneiras de aprender eletrônica é observar o circuito funcionando.

Se você tiver os componentes adequados e souber trabalhar com segurança, pode comparar diferentes valores de capacitância em um sistema experimental de baixa potência e perceber como a resposta do tweeter muda.

Mas faça isso respeitando:

a impedância do tweeter;

a faixa de frequência recomendada pelo fabricante;

a potência suportada;

a tensão nominal do capacitor.

A experiência deixa muito mais claro aquilo que acabamos de estudar matematicamente.

Veja no vídeo como funciona o capacitor no tweeter

No vídeo que acompanha este artigo mostro de maneira prática o funcionamento do capacitor ligado ao tweeter.

Depois de entender o conceito de reatância capacitiva, vale assistir novamente e observar o experimento pensando na relação:

frequência → reatância → corrente → resposta do tweeter.

É justamente essa relação que explica o comportamento observado.

Quer aprender mais sobre eletrônica aplicada ao áudio?

O capacitor ligado ao tweeter parece um circuito extremamente simples: um único componente em série com um alto-falante.

Mas, quando entendemos o que está acontecendo, descobrimos que ali aparecem conceitos fundamentais de eletrônica e áudio.

Se você quer avançar dos fundamentos da eletricidade até resistores, capacitores, semicondutores, transistores, amplificadores, filtros e outras aplicações de áudio, conheça meu Curso de Eletrônica Aplicada ao Áudio.

A proposta é justamente deixar de apenas reproduzir circuitos e começar a compreender:

por que cada componente está ali e o que acontece com o sinal de áudio dentro do circuito.

3 comentários em “Capacitor no tweeter: para que serve, como funciona e como calcular”

    1. Geovane,
      Obrigado pela visita e comentário. Visite meu canal no YouTube – Curso Baroni. Lá tem vários vídeos sobre eletrônica. Abraço.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *